Opinião
A REN (Redes Energéticas Nacionais) divulgou recentemente dados que refletem a dimensão deste desafio. No início de julho deste ano, Portugal registou dois máximos históricos consecutivos de consumo de eletricidade para um período de verão, atingindo 165,6 gigawatts hora (GWh) e, logo no dia seguinte, 171,1 GWh, como consequência da onda de calor que levou o país a superar, nalgumas regiões, os 40ºC.
Embora o inverno continue a concentrar os maiores picos anuais de consumo, estes números – que ultrapassam o anterior recorde de verão, registado em 2022 – demonstram que os meses mais quentes do ano estão a ganhar um peso crescente no sistema elétrico nacional.
O aumento da utilização de equipamentos de ar condicionado nesta época é um dos fatores que explica esta tendência. Quando as temperaturas exteriores atingem níveis extremos, a climatização deixa de ser apenas uma questão de conforto para passar a ser, muitas vezes, uma necessidade, principalmente em edifícios com uma taxa de ocupação mais elevada, como hospitais, escritórios, restaurantes, plataformas comerciais e escolas.
Contudo, o verdadeiro problema não está na climatização em si, mas sim na sua gestão e monitorização, visto que, em grande parte dos casos, o seu funcionamento não está otimizado. Um edifício energeticamente eficiente consegue manter condições de conforto durante muito mais tempo, reduzindo a necessidade de grandes quantidades de energia para aquecer ou arrefecer os espaços. Pelo contrário, edifícios mal geridos acabam por desperdiçar energia e transformar uma onda de calor num aumento inevitável de custos.
Neste contexto, a tecnologia pode, sem dúvida, fazer a diferença. Atualmente, é possível recorrer a sistemas inteligentes que antecipam a evolução das condições meteorológicas, adaptam-se ao comportamento térmico dos edifícios e ajustam de forma instantânea os sistemas de climatização, garantindo um maior conforto com um menor consumo.
A Inteligência Artificial em particular permite que os sistemas de ar condicionado dos edifícios deixem de ser geridos de forma reativa para passarem a ser geridos de forma preditiva, evitando desperdícios, mas sem comprometer o bem-estar dos ocupantes.
Ainda assim, a inovação tecnológica não é suficiente para solucionar o problema. A eficiência energética começa muito antes de ligar o ar condicionado, porque requer atenção ao modo como projetamos, construímos, reabilitamos e gerimos os edifícios. Um melhor isolamento térmico, equipamentos mais eficientes e sistemas inteligentes de gestão energética são essenciais para reduzir os consumos e os custos.
As alterações climáticas continuarão a desafiar-nos com temperaturas cada vez mais extremas, mas a resposta aos recordes nos termómetros não pode estar nos recordes de consumos. Portanto, é urgente transformar os edifícios em aliados da eficiência energética, em vez de amplificadores do desperdício. As cidades inteligentes não se medem pelo número de edifícios com a melhor climatização, mas sim pelos que exigem pouca energia para a garantir.