Opinião
Nos últimos anos, o país consolidou-se como um polo tecnológico capaz de atrair talento e investimento internacional. Infraestruturas modernas, qualidade de vida e um ecossistema empreendedor criaram terreno fértil para a inovação. No setor da mobilidade, isso já se traduz em redes elétricas, soluções digitais e experiências pioneiras como a Via Verde. Embora Portugal já se afirme como uma referência na adoção de soluções de mobilidade inteligente, ainda estamos a caminho da maturidade plena no que toca à criação de tecnologias verdadeiramente disruptivas.
A verdade é que, historicamente, temos estado no “lugar do passageiro”, beneficiando da inovação global mais do que a lidera-la, embora esse cenário tenha começado a mudar. Apesar dos grandes players globais estarem concentrados em geografias como a Alemanha, os Estados Unidos, a China e a França, o investimento estrangeiro tem sido essencial para aproximar Portugal destes grandes centros de inovação e para elevar o conhecimento e exposição do país às mais recentes inovações mundiais.
Este movimento cria um círculo: o talento português está, cada vez mais, em contacto direto com projetos globais, as empresas beneficiam da qualidade do talento e da competitividade local, e o país está a fortalecer-se como plataforma de inovação na Europa.
Esta realidade tem-se traduzido gradualmente no crescimento da oferta de meios de transporte alternativos, como os elétricos, partilhados ou coletivos, que têm aumentado a acessibilidade, reduzido custos e promovido hábitos de mobilidade mais verdes.
Contudo, é preciso ter em mente que ainda existem desafios, nomeadamente a falta de cobertura nas regiões do interior, o que limita o acesso a transportes eficientes e sustentáveis fora das grandes metrópoles. É uma lacuna que evidencia a necessidade de tornar a mobilidade verde não só mais inclusiva, mas também equitativa em todo o território nacional.
O objetivo deve ser claro: construir um país onde a mobilidade, tecnologia e sustentabilidade convergem, trazendo benefícios não só ambientais, mas também económicos e sociais. Portugal precisa de dar o passo seguinte e apostar no investimento interno, para expandir as infraestruturas e democratizar o acesso às soluções sustentáveis em todo o território.
O estudo “Explorar as escolhas modais para uma mobilidade urbana sustentável: perspetivas da Área Metropolitana do Porto”, publicado na revista científica Sustainability, analisou como as diferentes mobilidades de transporte são escolhidas pelos cidadãos da Área Metropolitana do Porto e quais são as barreiras e incentivos às escolhas em direção a uma mobilidade mais sustentável. As conclusões são evidentes: as políticas públicas desempenham um papel decisivo na modelação dos comportamentos de transporte, ao definirem incentivos e infraestruturas – desde os preços e horários dos transportes públicos, aos subsídios à mobilidade elétrica ou restrições à circulação nos centros urbanos.
A inovação tecnológica não só promove sustentabilidade, como também aumenta a previsibilidade, conveniência e redução de custos para cidadãos e empresas. Ao conhecerem melhor os horários, trajetos e alternativas de transporte, as pessoas ganham mais confiança e liberdade na sua mobilidade diária, melhorando significativamente a qualidade de vida.
Outro ponto crucial é a infraestrutura elétrica necessária para suportar a mobilidade elétrica, incluindo a criação de hubs de carregamento capazes de aguentar a procura crescente. Este é um investimento que requer coordenação entre o setor privado e o Estado, mas que gera oportunidades de otimização, novos negócios e mais inovação.
Cada investimento na área é um catalisador de inovação, pois onde há novas infraestruturas, surgem novas oportunidades. Cabe-nos agora garantir que esta base sólida se transforma num verdadeiro motor de liderança tecnológica na Europa. E Portugal já está, de facto, numa posição privilegiada para desempenhar um papel relevante neste movimento global, não apenas como participante, mas como agente ativo de transformação.