Opinião
Há nove anos, finalmente respondi a esse chamamento. Aprender a nadar foi, por si só, um gesto de desobediência à minha própria história. Mas quando mergulhei pela primeira vez de forma consciente, senti algo que não esperava: o oceano não estava ali para me engolir – estava ali para me ensinar.
O movimento da água, a sua força, a sua paciência e até o seu vazio mostraram-me uma linguagem que eu desconhecia, uma gramática do mundo que não existe em lado nenhum a não ser ali.
A partir dessa revelação, nasceu a Oceans and Flow. Não surgiu de uma ideia bonita nem de um plano estratégico; nasceu de uma visão, de que a água podia ser um lugar de cura, de conhecimento e de devolução – um lugar onde o corpo aprende o que a mente esqueceu.
Ao conduzir os primeiros trilhos aquáticos nos Açores, percebi que o “deep blue” é, por si só, uma espécie viva: respira, escuta, responde. É no silêncio aparente que ele nos toca mais profundamente.
“Aprender a nadar foi, por si só, um gesto de desobediência à minha própria história”. (foto: Gustavo Neves)
À medida que fui guiando centenas de pessoas nestas práticas – do mergulho livre à dança aquática – compreendi que este trabalho não é apenas sobre bem-estar. É sobre literacia oceânica, no sentido visceral.
Não se trata de decorar o nome científico de espécies ou de fazer estatísticas; trata-se de sentir, no próprio corpo, que fazemos parte de algo maior. Que o oceano não é um cenário – é um sistema vivo que sustenta a nossa existência. E que, quando nos movemos nele, mudamos também a forma como olhamos o mundo.
“O oceano não é um cenário – é um sistema vivo que sustenta a nossa existência”. (foto: Gustavo Neves)
As dezenas de viagens e expedições que temos desenvolvido através da Oceans and Flow são como movimentos internos. São exercícios de presença e espaços onde cada pessoa volta com outra qualidade de olhar…para si e para o planeta.
E é isso que realmente importa: que a experiência transforme o comportamento, que a beleza conduza à responsabilidade e que juntos possamos agir enquanto coletivo consciente deste maravilhoso oceano e destes seres incríveis que nele habitam.
Foi com esse espírito que nasceu o Açores Atlantis, um projeto em desenvolvimento desde 2016, que já realizou múltiplas expedições aquáticas e programas educativos, como o pioneiro Programa Atlantis – um programa escolar de literacia oceânica, que combinou mergulho livre, desenvolvimento humano e empoderamento de sonhos junto dos jovens.
Como evolução natural desta abordagem, surgiu a mais recente expedição da Oceans and Flow pelo Triângulo dos Açores (ilhas do Faial, Pico e São Jorge), que mostra como uma experiência imersiva no oceano pode inspirar mudanças no dia-a-dia, gerando também um impacto positivo através da observação, escuta e comunicação com o meio ambiente.
Nesta viagem, criámos o conceito de “barco ilha” – uma embarcação transformada em laboratório vivo, onde seis pessoas navegaram com o mínimo impacto possível, escutando o mar com a mesma atenção com que ouvimos o nosso interior. Durante 15 dias, vivemos com práticas Zero Waste, que se manifestaram em escolhas conscientes, redução absoluta de resíduos, rituais diários de escuta e reflexão.
Inspirada pelos ensinamentos de Joanna Macy, a expedição foi conduzida a partir do método “Work That Reconnects”, que versa sobre quatro princípios: gratidão pelo oceano e pelos seus ensinamentos; criação de um espaço para honrar a dor e conectar com as dores do planeta; a partir desse lugar, ver com novos olhos, reconhecendo dons, talentos e papéis individuais; e avançar com planos de ação concretos. Voltámos para terra com um plano de vida mais alinhado, não porque o oceano nos pediu – mas porque ele nos mostrou que continuarmos “desligados” (dele e de nós próprios) não é uma opção.
“Inspirada pelos ensinamentos de Joanna Macy, a expedição foi conduzida a partir do método Work That Reconnects”. (foto: Gustavo Neves)
Durante a expedição, a navegação combinou mergulho livre e dança com o mar, integrando conceitos de ecologia profunda, que permitiu aos participantes não apenas observar, mas comunicar verdadeiramente com a natureza, aprofundando a compreensão do nosso lugar no ecossistema oceânico.
O “barco ilha” não é uma outra forma de fazer turismo. É um modo de desacelerar o ritmo, de desaprender hábitos, de reaprender presença. É um método que devolve ao viajante a capacidade de comunicação com o meio ambiente. Cada pessoa que passa por este processo muda e leva consigo uma forma de estar que pode vir a transformar comunidades inteiras.
Muito além do turismo tradicional, centrado em entretenimento e serviços – e que em vários destinos tem gerado reações adversas devido ao excesso de visitantes –, a proposta da Oceans and Flow é de escuta profunda em viagem, procurando alinhar-se com os investimentos que o Governo Regional dos Açores, empresas, entidades e grupos têm vindo a realizar para valorizar e revitalizar os trilhos, a história e o conhecimento local.
Esta expedição gerou uma reportagem fotográfica de mais de 17.000 imagens captadas por Gustavo Neves – fotógrafo e videógrafo da Oceans and Flow – ao longo de 15 dias, documentando não apenas a beleza natural dos Açores, mas também os processos de transformação pessoal e coletiva vividos a bordo.
“A exposição a espécies residentes e migratórias, em interação com dinâmicas terrestres e oceânicas, fazem-nos mergulhar num ritmo vital ancestral”. (foto: Gustavo Neves)
A exposição a espécies residentes e migratórias, em interação com dinâmicas terrestres e oceânicas, fazem-nos mergulhar num ritmo vital ancestral e a aprendizagem desta linguagem da natureza marca tudo o que fazemos. Como disse o Gustavo, “o impacto positivo em nós deve gerar benefício para o ambiente que nos nutre”. Aliás, “escutar a natureza, descobrir formas de contribuir para os ecossistemas que nos nutrem, ser parte desta dança oceânica” foi o mote da campanha da expedição e que está a ser partilhada nos canais de Instagram da Peregrinus Studio e da Oceans and Flow.
Como transmitido pela Escola Azul, a Literacia do Oceano é a compreensão da influência do Oceano em nós e da nossa influência no Oceano. Mais do que sensibilizar a sociedade, é incentivar todos os cidadãos e stakeholders para assumirem atitudes informadas e responsáveis sobre o oceano e suas dádivas. Quer isto dizer que ser literato no oceano é ir além do conhecimento. É comunicar, agir e decidir. É compreender que temos responsabilidades individuais e coletivas para com o oceano.
Para mim, que vivi metade da vida com fobia do mar, é uma ironia luminosa ter-me tornado guardiã dele. Mas talvez seja essa a verdadeira natureza da transformação: aquilo que nos feriu pode tornar-se aquilo que nos guia. Hoje, continuo a acreditar que o oceano é um dos maiores professores que temos – e que a literacia do oceano não é um luxo para quem gosta de biologia, mas uma urgência para quem quer continuar a viver num planeta habitável e a navegar num oceano que não conhece barreiras.
“Proteger o oceano não é um ato de bondade; é um ato de sobrevivência”. (foto: Gustavo Neves)
Atualmente, proteger o oceano não é um ato de bondade; é um ato de sobrevivência. E, ainda assim, cada vez que mergulho no azul profundo, lembro-me de que a sobrevivência pode ter esta forma doce: a maravilha, o silêncio, a escuta. A sensação de que, mesmo sem avistar uma única espécie, quando fazemos “Blue Watching”, algo nos observa de volta – e, nesse encontro, reconhecemos a nossa própria essência.
É por isso que seguimos com os trilhos aquáticos, as expedições, e, num futuro próximo, com o desenvolvimento do Centro de Arte Aquática e Ecologia, no Faial. Seguimos a criar trilhos aquáticos pelo mar, a navegar estas águas com sentido e significado, a honrar a sabedoria do oceano e a abrir caminhos de conhecimento, que guiam e ensinam sobre o lugar dos humanos no mundo.
“Cada vez que mergulho no azul profundo, lembro-me de que a sobrevivência pode ter esta forma doce: a maravilha, o silêncio, a escuta”. (foto: Gustavo Neves)
Eu comecei por medo. Hoje, sigo por amor – e por responsabilidade. E acredito, mais do que nunca, que é tempo de fortalecer a Cultura do Movimento Aquático. Porque não há futuro possível sem esta dança com o mar.