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Pedro dos Santos

Lisboa precisa de mais

18 Sep 2025 - 10:00

Opinião

Nas grandes cidades, vivem-se momentos insuportáveis com temperaturas extremas e ambientes cada vez mais hostis ao bem-estar de todos. A maioria da população está concentrada nos grandes centros urbanos e aqui as pessoas enfrentam um conjunto de desafios no âmbito da resiliência climática, que são agravados devido a diversos fatores. A combinação da alta densidade populacional e as infraestruturas que foram construídas por materiais que agravam os efeitos do aquecimento global, como concreto, betume ou alcatrão, são apenas alguns exemplos.

Por toda a Europa, vemos como as diferentes capitais sofrem e se adaptam às alterações climáticas. Madrid, por exemplo, sofre com ondas de calor que facilmente rondam os 40 °C e, por isso, criaram-se refúgios climáticos. Atenas também enfrenta ondas de calor severas e em julho deste ano chegou a registar 44 °C. Por consequência, comprometeram-se a plantar cerca de 25.000 árvores. Paris, que esteve sob alerta máximo devido às altas temperaturas, ativou o “Plano Canicule”. Este conta com um mapa de “îlots de fraîcheur”, que sinaliza locais onde podem ser encontradas fontes e brumizadores, e outros espaços públicos climatizados. Londres também não escapou. O famoso Underground tornou-se um verdadeiro forno, com temperaturas dentro das estações a ultrapassar os 30 °C. Então, o governo local decidiu criar estratégias de climatização para os transportes públicos e de arborização para a cidade.

E Lisboa? A [capital e a] “cidade mais cool da Europa”, “Europe’s Leading City” e “The international capital of cool”. O que tem feito para combater as alterações climáticas? Previsivelmente, não o suficiente. Entre projetos vazios e planos que não saíram do papel, existiram algumas medidas relativamente interessantes, que pecaram pela sua falta de inclusividade e operatividade.

A Implementação da rede de bicicletas (GIRA) foi um exemplo disso. Claro que na teoria, a ideia é muito ‘gira’. Duas em cada três bicicletas são elétricas, gratuitas para quem já usufrui da gratuitidade do Passe Navegante e permite ir de uma ponta da cidade à outra de forma mais rápida. No entanto, a aplicação – que é necessária para utilizar as bicicletas – quase nunca funciona. Conta com diversos problemas de utilização como bugs e erros, fazendo com que a sua utilização seja muito incomodativa. Para além disso, o número de ‘docas’ não corresponde à necessidade dos utilizadores, algumas das bicicletas já nem funcionam corretamente e ainda contam com pneus vazios. Assim, não é (nem foi!) possível fomentar a mobilidade sustentável de que este executivo tanto se orgulha.

E Lisboa? A [capital e a] “cidade mais cool da Europa”, “Europe’s Leading City” e “The international capital of cool”. O que tem feito para combater as alterações climáticas?

Outro exemplo de uma boa ideia, é a reutilização de água para regar os parques. No entanto, quem frequenta estes locais, espera mais do que relvados irrigados: é essencial que estes espaços estejam em condições de utilização e sejam alvo das devidas obras de manutenção, para que possam servir de ‘refúgio’ durante os horários de mais calor.

Estabelecer transporte público gratuito para jovens até 23 anos e para cidadãos com mais de 65 anos, com o argumento de estimular a mobilidade sustentável e reduzir o isolamento social, é meritório. Contudo, ainda ficámos aquém do que era realmente essencial: garantir que estes transportes funcionem de forma eficaz, regular (inclusive de madrugada) e acessível a todos. Sem isto, a dependência estrutural do automóvel continuará a traduzir-se em mais poluição, mais ruído, mais stress e menos saúde.

As temperaturas extremas, agravadas pela falta de sombra e de espaços verdes, não são apenas uma questão ambiental, são também um problema de saúde pública.

É preciso fazer mais e é preciso fazer melhor. Não é admissível que apenas cerca de 17% do território da cidade esteja coberto por arborização urbana (EEA). Evidentemente, este número representa um contraste gritante com os mais de 70% de Oslo, os 50% de Berna ou os 40% de Varsóvia (EEA). Lisboa voltou a ficar para trás. É essa a nossa fama e o proveito é sermos ‘obrigados’ a viver numa cidade asfixiante.

É preciso criar e aprovar estratégias de sustentabilidade e ação climática que efetivamente deem resposta às necessidades dos lisboetas e daqueles que cá vivem. O bem-estar e a qualidade de vida da população devem estar no centro de qualquer decisão política, não podendo ficar para trás face a ambições pessoais ou disputas de protagonismo. As temperaturas extremas, agravadas pela falta de sombra e de espaços verdes, não são apenas uma questão ambiental, são também um problema de saúde pública, e por isso, merecem a atenção de qualquer executivo.

Mais árvores e espaços de encontro como praças, jardins, recantos com ‘alma’ e identidade, podem ajudar a reduzir o isolamento social e revitalizar o tecido comunitário.

É também necessário e urgente arborizar e renaturalizar ruas, transformando-as em caminhos acessíveis e sombreados, que funcionem como refúgios climáticos que suportem biodiversidade e mitiguem o efeito das ondas de calor. Mais árvores e espaços de encontro como praças, jardins, recantos com ‘alma’ e identidade, podem ajudar a reduzir o isolamento social e revitalizar o tecido comunitário.

Enfrentar a crise climática exige coragem e ação local. Lisboa tem de ser capaz de assegurar qualidade de vida hoje, sem comprometer o amanhã. Mais do que reagir às alterações climáticas, a cidade deve assumir a liderança numa transição justa, capaz de promover inclusão, saúde e bem-estar.