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Catarina Carvalho

Ganância a céu aberto

15 Jun 2025 - 09:00

Opinião

O Gana não é uma ilha, apesar de parecer uma. Cercado, não por água, mas por marés de roupa usada que se acumulam nas suas margens, como ondas sujas do sistema que vestimos todos os dias. Chama-se Kantamanto, o maior mercado de roupa em segunda mão de África, mas poderia chamar-se qualquer outra coisa. Um nome qualquer que escondesse a verdade: não é um mercado, é um cemitério.

A ideia de doar roupa tem um verniz bonito. Caridade, sustentabilidade, economia circular. Mas por baixo, há sempre um nó. A roupa que doamos raramente vai para quem imaginamos. Primeiro, entra num circuito comercial internacional, vendido ao quilo, ao contentor, ao desespero. Depois, chega a sítios como Accra, onde se vende o que ainda tem valor e se descarta o que está demasiado sujo, roto ou simplesmente não é utilizável. Aqui, começa o problema real: todos os dias, toneladas de peças que não serviram aqui apodrecem lá.

O Ocidente despe o guarda-roupa em nome do minimalismo e das tendências, mas o que sai de cena não desaparece, muda apenas de palco. E este palco é, muitas vezes, africano. É irónico. Vendemos a narrativa da roupa com história, do vintage ético, da t-shirt que já teve uma vida, mas esquecemo-nos que, no fim, há corpos a viver com o lixo que deixamos. A “economia circular” não é um círculo; é uma linha torta que termina sempre nos mesmos sítios.

No Gana, a roupa não é só tecido. É poluição, entulho, veneno. A maior parte das peças é feita de fibras sintéticas que não se decompõem nem desaparecem. Misturam-se com a areia, entopem os esgotos, invadem os rios, formam montanhas. Os habitantes chamam-lhes “dead white man’s clothes” (roupas do homem branco morto). Uma forma crua, mas justa, de nomear aquilo que recebem: os restos de um privilégio que nunca foi seu.

A “economia circular” não é um círculo; é uma linha torta que termina sempre nos mesmos sítios.

Tudo isto acontece em nome do bem. Gostamos de nos sentir leves e leves ficamos ao esvaziar o armário. As campanhas de “limpar o guarda-roupa” dizem-nos que é uma escolha ecológica, e muitas vezes é feita com essa intenção, mas pouco se fala do que acontece depois. Há uma diferença entre dar e despachar, e nem sempre é clara. O sistema trata ambos da mesma forma.

A fast fashion constrói tendências com a velocidade de um scroll, mas desfaz-se delas com a indiferença de um clique. Quem paga o preço? São países como o Gana, onde a reciclagem virou naufrágio; onde o consumo sustentável é um luxo importado e a sustentabilidade, uma ironia cruel.

E se o Gana parece uma ilha, é porque o isolámos assim. Cercado por mares de tecido morto, a tentar respirar por entre os buracos de um sistema que ninguém controla. A ganância está entranhada num modelo habituado a confundir acessibilidade com descarte e tendência com urgência, onde o consumo se tornou uma rotina quase inconsciente, mediada por preço, impulso e promessa.

No Gana, a roupa não é só tecido. É poluição, entulho, veneno. A maior parte das peças é feita de fibras sintéticas que não se decompõem nem desaparecem.

Nem sempre sabemos para onde vai a roupa que deixamos num contentor. Muitas vezes, acreditamos, com razão, que estará a ser útil, que alguém a vai aproveitar – e às vezes, sim, está. Mas noutras, transforma-se em lixo a céu aberto, longe dos olhos, longe da consciência.

Não se trata de culpa individual, mas de um modelo inteiro que escapa ao olhar. Um ciclo que acontece à velocidade de cliques e uploads, feito para ser invisível e, por isso, tão difícil de travar.

No fim, talvez a questão não seja sobre consumo, mas sobre responsabilidade partilhada e a urgência de imaginar alternativas que não passem, inevitavelmente, por alguém ter de afundar para outro flutuar. Afinal, um gesto bom não devia terminar num naufrágio.