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João Maria Botelho

Criptoativos: o Dilema da Transição Sustentável no Contexto dos Critérios ESG

25 Sep 2025 - 10:00

Opinião

A crescente adoção de criptoativos confronta-se diretamente com as exigências impostas pela transição energética global, o que se tem traduzido num paradoxo estruturante no atual panorama financeiro. Embora estas tecnologias ofereçam o potencial de democratizar o acesso aos serviços financeiros e transformar profundamente os sistemas de pagamento, o seu impacto ambiental suscita sérias preocupações quanto à sua compatibilidade com os objetivos de sustentabilidade e com os princípios ambientais, sociais e de governança (“ESG”) que moldam as práticas de investimento contemporâneo.

A arquitetura tecnológica subjacente aos criptoativos mais estabelecidos, nomeadamente o Bitcoin, assenta no mecanismo de consenso Proof of Work (“PoW”), que consome quantidades extraordinárias de energia. Segundo dados do Banco Central Europeu (relatório – “Mining the environment – is climate risk priced into crypto-assets?”), o Bitcoin e o Ethereum consomem anualmente a energia equivalente à de países como Espanha, Países Baixos ou Áustria. Esta pegada energética não é meramente académica: as emissões anuais combinadas de carbono do Bitcoin e Ethereum, estimadas em aproximadamente 164 milhões de toneladas de CO2, anulam as poupanças de gases com efeito de estufa conseguidas pela maioria dos países da zona euro.

A magnitude desta questão torna-se ainda mais evidente quando se considera que o consumo energético do Bitcoin é comparável ao de 680.000 transações Visa para uma única transação Bitcoin. Esta disparidade de eficiência energética coloca questões fundamentais sobre a racionalidade económica e ambiental dos sistemas baseados em PoW.

Contudo, a narrativa dos criptoativos não se esgota na problemática ambiental do PoW. O desenvolvimento do mecanismo Proof of Stake (“PoS”) oferece uma alternativa tecnologicamente viável que reduz o consumo energético em até 99,95%. A transição do Ethereum para PoS em 2022 demonstrou empiricamente esta redução dramática, passando de um consumo energético de 47,6 TWh para apenas 0,0086 TWh. Esta transformação tecnológica não é apenas uma melhoria incremental, mas representa uma mudança paradigmática na forma como os sistemas blockchain podem contribuir para a sustentabilidade.

Estudos recentes indicam que a percentagem de energia renovável utilizada na mineração de Bitcoin aumentou de 20% em 2011 para 41% em 2024, com projeções de atingir 70% até 2030. Esta trajetória sugere que os criptoativos podem evoluir de obstáculos para catalisadores da transição energética.

 

as emissões anuais combinadas de carbono do Bitcoin e Ethereum, estimadas em aproximadamente 164 milhões de toneladas de CO2, anulam as poupanças de gases com efeito de estufa conseguidas pela maioria dos países da zona euro.

O Enquadramento Regulatório Emergente

A União Europeia está a liderar a resposta regulatória a esta problemática através do Regulamento sobre Mercados de Criptoativos (“MiCA”). Esta legislação introduz requisitos obrigatórios de divulgação de sustentabilidade para emitentes de criptoativos e prestadores de serviços, exigindo a divulgação de indicadores-chave de sustentabilidade, incluindo o consumo anual de energia e a pegada de carbono. A regulamentação MiCA representa um marco na integração dos critérios ESG nos mercados de criptoativos, mas também expõe as lacunas de preparação do setor.

Um inquérito recente revela que apenas 25% dos prestadores de serviços de criptoativos consideram-se preparados para cumprir os requisitos de sustentabilidade do MiCA. Esta disparidade entre ambições regulatórias e capacidade de implementação sublinha a complexidade da transição sustentável no sector.

A Perspetiva dos Investidores ESG

Do ponto de vista dos investidores orientados por critérios ESG, os criptoativos apresentam um dilema conceptual profundo. Por um lado, a tecnologia blockchain oferece possibilidades inovadoras para a transparência, rastreabilidade e democratização financeira, valores alinhados com os pilares sociais e de governança do ESG.

Por outro, a pegada ambiental dos sistemas PoW colide diretamente com os objetivos ambientais. O Banco Central Europeu foi inequívoco na sua avaliação: “é altamente improvável que investimentos em ativos baseados em PoW possam fazer parte de uma estratégia de investimento ESG“. Esta posição reflete uma crescente consciência de que mesmo a chamada mineração “verde” de criptomoedas pode deslocar usos mais produtivos da energia renovável, comprometendo os objetivos de transição climática.

Apesar das tensões evidentes, emergem várias vias para reconciliar os criptoativos com os imperativos de sustentabilidade. A primeira passa pela aceleração da adoção de mecanismos de consenso energeticamente eficientes. A segunda envolve a integração estratégica dos criptoativos com infraestruturas de energia renovável, transformando-os em catalisadores económicos para o desenvolvimento de capacidades limpas.

Estudos pioneiros (como o Climate sustainability through a dynamic duo: Green hydrogen and crypto driving energy transition and decarbonization”) sugerem que a combinação de mineração de Bitcoin com produção de hidrogénio verde pode acelerar a implementação de capacidades solares e eólicas em até 73,2% e 25,5%, respetivamente. Esta abordagem sinérgica transforma os criptoativos de consumidores passivos de energia em facilitadores ativos da transição energética.

O Banco Central Europeu considera “altamente improvável que investimentos em ativos baseados em PoW possam fazer parte de uma estratégia de investimento ESG”.

O Imperativo da Transparência

A plena resolução deste dilema exige transparência radical sobre o impacto ambiental dos criptoativos. A Alliance MiCA Crypto, lançada em 2024, representa um esforço colaborativo da indústria para desenvolver padrões uniformes de divulgação ESG e ferramentas de avaliação de sustentabilidade.

Estas iniciativas são cruciais para permitir avaliações informadas por parte de investidores e reguladores. A implementação de sistemas de certificação e auditoria independente para a pegada ambiental dos criptoativos torna-se imperativa. Só através de métricas padronizadas e verificáveis será possível integrar eficazmente estes ativos em frameworks de investimento sustentável.

Conclusão

O dilema dos criptoativos no contexto ESG não é meramente técnico, mas fundamentalmente civilizacional. Representa o confronto entre inovação tecnológica disruptiva e responsabilidade ambiental, entre eficiência económica e sustentabilidade planetária.

A resolução desta tensão determinará não apenas o futuro dos criptoativos, mas também a nossa capacidade coletiva de alinhar progresso tecnológico com imperativos climáticos. A trajetória dos próximos anos será decisiva.

Se a indústria abraçar proativamente a transição para tecnologias sustentáveis, desenvolver padrões rigorosos de transparência e integrar-se estrategicamente com a infraestrutura de energia limpa, os criptoativos podem transformar-se de obstáculo em catalisador da transição sustentável. Caso contrário, arriscam-se a ser marginalizados por uma economia crescentemente orientada pelos critérios ESG.

O tempo da escolha chegou. A questão não é se os criptoativos podem ser sustentáveis, mas se a indústria terá a visão e determinação para os tornar sustentáveis. O dilema da transição sustentável no contexto ESG exige não apenas inovação tecnológica, mas também coragem regulatória e responsabilidade empresarial. O futuro dos criptoativos, e talvez da própria transição energética depende das decisões tomadas hoje.

Artigo escrito em parceria com Raquel Burgoa Dias, LL.M – Direito Internacional dos Negócios e investigadora nas áreas da sustentabilidade, estratégias empresariais e mercados regulados. A sua atuação centra-se em matérias de concorrência e políticas europeias, com especial enfoque na integração de princípios sustentáveis em contextos jurídicos e económicos complexos.