voltar

Pedro dos Santos

A política de última gota

22 Mar 2026 - 05:13

Opinião

No Dia Mundial da Água, é preciso relembrar que a água não é apenas um recurso natural, mas sim um pilar de soberania territorial, de segurança alimentar e da própria coesão do país. Num contexto de alterações climáticas, desertificação progressiva e pressão crescente sobre os recursos hídricos, ignorar a centralidade da água na política pública é ignorar o futuro de Portugal.

No Alentejo, os anos passam e continuamos a assistir a um “tudo ou nada” perigoso, onde o planeamento do território parece ter sido hipotecado ao lucro imediato de monoculturas intensivas e aos resorts e campos de golfe que se estendem para o Algarve. Ignoramos enquanto sociedade que as alterações climáticas estão a tornar a água cada vez mais escassa e imprevisível no sul da Europa, e que o clima de amanhã não perdoará a negligência de hoje.

A Lei da Água é clara: o abastecimento público está no topo da hierarquia de utilização. Contudo, a realidade vivida em certas zonas do país conta uma história diferente. No Alentejo, a agricultura de regadio consome 95% dos usos consumptivos. O avanço desenfreado do olival e amendoal superintensivo, muitas vezes detido por fundos de investimento estrangeiros, está a exercer uma pressão extrema sobre as nossas reservas.

É inaceitável que as políticas públicas continuem a incentivar este modelo extrativista que polui aquíferos com químicos e consome volumes colossais de água em anos de seca crónica. Estamos a exportar a nossa água sob a forma de azeite de baixa qualidade e biocombustíveis, enquanto as populações locais enfrentam a degradação da qualidade das suas fontes e o risco de rutura no abastecimento doméstico. A reserva de água deve servir o bem comum, não o dividendo de capitais nómadas.

Estamos a exportar a nossa água sob a forma de azeite de baixa qualidade e biocombustíveis, enquanto as populações locais enfrentam a degradação da qualidade das suas fontes e o risco de rutura no abastecimento doméstico.

O Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva (EFMA), gerido pela EDIA, é frequentemente apresentado como a “salvação” da região. Mas será este modelo resiliente num cenário de 45°C e secas plurianuais? As projeções climáticas para o sul de Portugal são implacáveis: redução drástica da precipitação e aumento da evapotranspiração.

A estratégia da EDIA de expandir continuamente o regadio ignora que a disponibilidade de água será cada vez mais irregular. Confiar apenas no armazenamento massivo, sem reduzir drasticamente o consumo por hectare, é uma aposta temerária.  Esta estratégia deve ser travada em favor de sistemas de produção sustentáveis.

É urgente substituir as apostas imprudentes de armazenamento massivo pela promoção de técnicas de retenção e infiltração de água na paisagem. Se não mudarmos para culturas de maior valor acrescentado com menor pegada hídrica, o Alqueva, assim como outras zonas do sul de Portugal, poderão tornar-se um símbolo de má adaptação climática e pior, um verdadeiro deserto que ficará sem água em momentos críticos.

Se não mudarmos para culturas de maior valor acrescentado com menor pegada hídrica, o Alqueva, assim como outras zonas do sul de Portugal, poderão tornar-se um símbolo de má adaptação climática e pior, um verdadeiro deserto que ficará sem água em momentos críticos.

Portugal tem uma política de água historicamente reativa: pedimos ajuda à Europa ou aos céus quando as barragens secam. É urgente passar para uma governação preventiva. É preocupante que continuem a existir milhares de furos ilegais a extrair água sem controlo, desrespeitando as leis de proteção dos aquíferos e comprometendo um bem comum essencial para o futuro do país.

Paralelamente, a ineficiência nas nossas cidades é gritante. Enquanto pedimos sacrifícios aos cidadãos, as redes municipais de abastecimento continuam a perder volumes massivos de água por fugas. Precisamos de descentralização inteligente: políticas que obriguem à separação de águas cinzentas para reutilização urbana e uma modernização radical das redes domésticas. A água que faturamos mas não entregamos é um dos símbolos maiores da nossa incompetência administrativa.

A escassez de água exige decisões políticas firmes e imediatas. Por isso, existem três medidas que são urgentes.

Enquanto pedimos sacrifícios aos cidadãos, as redes municipais de abastecimento continuam a perder volumes massivos de água por fugas.

Em primeiro lugar, é necessária uma moratória ao regadio industrial, suspendendo a expansão de novas áreas de monocultura superintensiva no Alentejo, até que seja realizada uma auditoria à capacidade de resiliência dos aquíferos e das bacias hidrográficas face aos cenários climáticos projetados para 2050.

Em segundo lugar, deve ser adotada uma política de tolerância zero à extração ilegal de água, através de um programa nacional de fiscalização, com o encerramento imediato de furos não autorizados, tratando o roubo de água como aquilo que realmente é: uma violação da justiça ambiental e da gestão responsável de um bem comum.

Por fim, torna-se imprescindível uma modernização urbana, vinculando os fundos de coesão e os recursos do Plano de Recuperação e Resiliência à redução efetiva das perdas nas redes municipais e à implementação de sistemas de reutilização de águas residuais tratadas para rega urbana.

A água é o nosso recurso mais valioso. Se continuarmos a tratá-la como uma variável sacrificável num jogo de interesses económicos de curto prazo, o resultado será inevitável: o abandono progressivo do território e a fragilização do país. O Alentejo merece mais. E a minha geração exige melhor.