O programa do Governo, aprovado em junho deste ano, reiterou a missão de Portugal alcançar a neutralidade carbónica até 2045, sendo este um dos pilares fundamentais para combater as alterações climáticas. Contudo, num contexto cada vez mais desafiante e urgente, será que estamos realmente a transformar esta ambição em ações concretas e capazes de garantir um caminho sólido rumo à descarbonização?
É importante perceber que a transição energética não se faz de forma linear, nem avança à mesma velocidade em todos os setores. Pelo contrário, existem áreas onde a descarbonização total ainda não é viável no curto prazo, exigindo investimentos avultados para garantir que é feita de forma segura. A indústria é um desses exemplos. Responsável por uma parte significativa das emissões nacionais, mas também vital para a autonomia e competitividade económica do país.
Apesar do seu peso estratégico, este setor continua a operar sem um instrumento essencial para uma atuação mais sustentável, a Estratégia Industrial Verde. Prevista na Lei de Bases do Clima, esta estratégia deveria traçar o caminho para uma transição energética segura, progressiva e adaptada às especificidades do tecido industrial. No entanto, ao operar sem a sua definição e implementação, Portugal compromete não só a eficácia da ação climática, como também a estabilidade regulatória exigida pelos operadores industriais.
Perante esta lacuna estratégica, é importante, mais do que nunca, apelar a um compromisso claro com a reindustrialização verde. É essencial que a sustentabilidade seja mais do que metas estipuladas no papel e que ocupe um lugar central nas decisões económicas do país.
É também importante que, ao refletirmos sobre a responsabilidade ambiental da indústria, não deixemos de lado a necessidade de repensar os modelos produtivos, assentes na eficiência de recursos, na valorização de resíduos e, principalmente, na circularidade.
A economia circular, muitas vezes esquecida neste desenho, necessita de ser encarada como peça chave na política industrial nacional. Trata-se de garantir que a indústria do futuro é simultaneamente competitiva, resiliente e ambientalmente responsável. Mas, acima de tudo, trata-se de contribuir ativamente para um modelo económico regenerativo, capaz de criar valor sem sobreexplorar recursos naturais.
A realidade mostra-nos, no entanto, que ainda temos um longo caminho a percorrer. A taxa de utilização circular de materiais em Portugal é, segundo dados da PORDATA, de apenas 2,8%, colocando o nosso país entre os últimos da União Europeia. Isto traduz-se numa enorme oportunidade perdida, perante um contexto que necessita de modelos de ação mais sustentáveis e menos dependentes de recursos finitos.
É por este motivo que a incorporação de uma lógica circular na indústria deve ser encarada como uma necessidade estratégica. Ao transformar resíduos em matérias-primas, estamos a reduzir o desperdício e a prolongar, simultaneamente, o ciclo de vida de recursos que, de outra forma, seriam incorretamente tratados. Este caminho é fundamental para assegurar uma indústria que não apenas produz, mas fá-lo com consciência ambiental. E o impacto económico que deriva desta mudança pode ser imenso.
Portugal tem condições para liderar esta transição industrial, mas é necessário que deixe de encarar a economia circular como uma nota de rodapé nas estratégias nacionais. Se queremos uma indústria mais inovadora e alinhada com as metas climáticas, é urgente definirmos um rumo claro que permita avançar de forma segura, eficiente e estratégica rumo à neutralidade carbónica.