À medida que os dias quentes se prolongam e a exposição solar aumenta, volta também uma dúvida recorrente: será que o uso de protetor solar impede o organismo de produzir vitamina D? A questão parece lógica. Afinal, a vitamina D é sintetizada na pele através da ação da radiação ultravioleta B (UVB), precisamente a radiação que os protetores solares procuram bloquear. A evidência científica disponível sugere no entanto que a relação entre proteção solar e vitamina D é bastante mais complexa do que muitas vezes se assume.
A principal preocupação surge porque a vitamina D desempenha funções importantes na saúde óssea, no sistema imunitário e em vários processos metabólicos. A sua deficiência está associada a um maior risco de problemas como osteoporose e fragilidade óssea. Ao mesmo tempo, a exposição excessiva à radiação ultravioleta é um fator de risco bem estabelecido para o cancro da pele. É neste equilíbrio entre benefícios e riscos que se centra a investigação científica.
Uma das revisões mais abrangentes sobre o tema foi publicada em 2019 no British Journal of Dermatology. O trabalho foi coordenado por investigadores de universidades e centros de dermatologia da Europa e da Austrália, incluindo instituições públicas de investigação médica e hospitais universitários, que após analisarem a evidência científica disponível, concluíram que o “uso criterioso de protetores solares de largo espectro não compromete o estado da vitamina D em pessoas saudáveis”. A mesma revisão acrescenta ainda que o uso de protetor solar em contexto real “não compromete a síntese de vitamina D, mesmo quando aplicado em condições ideais”. Esta conclusão é particularmente relevante porque resulta da análise conjunta de dezenas de estudos realizados em diferentes países e populações.
Os resultados são consistentes com outra revisão publicada no mesmo ano, conduzida por cientistas ligados a centros de investigação australianos especializados em saúde pública e prevenção do cancro da pele, que inferiram existir “pouca evidência de que o protetor solar diminua a concentração de vitamina D quando utilizado em condições reais”. Segundo estes investigadores, as preocupações relacionadas com a vitamina D “não devem contrariar as recomendações de prevenção do cancro da pele”.
A maior parte dos estudos científicos inferiram existir pouca evidência de que o protetor solar diminua a concentração de vitamina D quando utilizado em condições reais.
Mas como explicar esta aparente contradição? Se os protetores solares bloqueiam os raios UVB, por que razão não provocam deficiência de vitamina D? A resposta está na forma como estes produtos são utilizados na vida real. Em laboratório, quando o protetor é aplicado na quantidade exata recomendada e de forma uniforme, consegue reduzir significativamente a síntese de vitamina D. Fora dessas condições controladas, a maioria das pessoas aplica menos produto do que o recomendado, esquece-se de reaplicá-lo ou deixa zonas da pele expostas. Como resultado, continua a existir passagem suficiente de radiação UVB para estimular a produção de vitamina D.
Esta conclusão foi reforçada por um conjunto de três estudos independentes apoiados pela British Association of Dermatologists, associação científica do Reino Unido dedicada à investigação e prevenção das doenças da pele. Todos chegaram à mesma conclusão que o uso de protetor solar “não afeta o estado da vitamina D na maioria das pessoas”.
Uma revisão mais recente, publicada em 2023, analisou os benefícios e riscos da exposição solar para obtenção de vitamina D, reconhecendo que os protetores solares reduzem a quantidade de radiação UV que chega à pele. Os autores, ligados a instituições académicas norte-americanas de investigação médica, salientam também que a proteção solar continua a ser recomendada porque os riscos associados à exposição excessiva ao sol – incluindo melanoma e outros cancros cutâneos – estão muito melhor documentados do que qualquer eventual impacto do protetor solar nos níveis de vitamina D.
A proteção solar continua a ser recomendada porque os riscos associados à exposição excessiva ao sol estão muito melhor documentados do que o eventual impacto do protetor solar nos níveis de vitamina D.
Isto não significa que a deficiência de vitamina D não exista. Pelo contrário, trata-se de um problema de saúde pública reconhecido em vários países europeus. Contudo, os especialistas sublinham que os fatores mais importantes são a reduzida exposição solar ao longo do ano, a idade, o tom de pele, determinadas doenças, alguns medicamentos e hábitos alimentares inadequados. Em muitos casos, a alimentação e a suplementação constituem formas mais seguras e previsíveis de garantir níveis adequados de vitamina D do que aumentar deliberadamente a exposição solar.
Nos últimos anos surgiram todavia alguns estudos que apontam para uma possível redução ligeira dos níveis médios de vitamina D entre utilizadores regulares de protetor solar. Uma revisão publicada em 2025 na revista científica Australian Prescriber, refere que alguns trabalhos observacionais identificaram concentrações mais baixas de vitamina D em determinados grupos de utilizadores. Contudo, os autores sublinham que a evidência permanece limitada e ainda “não existe prova consistente de que o uso de protetor solar cause deficiência de vitamina D”. A maioria das revisões científicas continua, por isso, a concluir que o uso habitual de protetor solar não constitui uma causa importante de défice de vitamina D na população geral.
Isto não significa que a deficiência de vitamina D não exista. Pelo contrário, trata-se de um problema de saúde pública reconhecido em vários países europeus. Contudo, os especialistas sublinham que os fatores mais importantes são a reduzida exposição solar ao longo do ano, a idade, o tom de pele, determinadas doenças, alguns medicamentos e hábitos alimentares inadequados. Em muitos casos, a alimentação e a suplementação constituem formas mais seguras e previsíveis de garantir níveis adequados de vitamina D do que aumentar deliberadamente a exposição solar.
Nos últimos anos surgiram todavia alguns estudos que apontam para uma possível redução ligeira dos níveis médios de vitamina D entre utilizadores regulares de protetor solar. Uma revisão publicada em 2025 na revista científica Australian Prescriber, refere que alguns trabalhos observacionais identificaram concentrações mais baixas de vitamina D em determinados grupos de utilizadores. Contudo, os autores sublinham que a evidência permanece limitada e ainda “não existe prova consistente de que o uso de protetor solar cause deficiência de vitamina D”. A maioria das revisões científicas continua, por isso, a concluir que o uso habitual de protetor solar não constitui uma causa importante de défice de vitamina D na população geral.
Perante a evidência disponível, a afirmação de que “usar protetor solar provoca deficiência de vitamina D” deve ser considerada falsa. Embora os protetores solares reduzam teoricamente a produção de vitamina D ao bloquearem parte da radiação UVB, os estudos realizados em condições reais mostram que essa redução não é geralmente suficiente para causar deficiência em pessoas saudáveis. A ciência aponta, assim, para uma conclusão relativamente consensual: é possível proteger a pele dos efeitos nocivos do sol sem comprometer, na maioria dos casos, a produção de vitamina D necessária ao organismo.