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Miguel Judas

Uma garrafa reutilizável é sempre melhor para o ambiente do que uma descartável?

6 Sep 2026 - 10:00
Com o regresso ao trabalho e às aulas, as garrafas reutilizáveis voltam a fazer parte da rotina de muitas pessoas, por serem consideradas uma alternativa ambientalmente mais responsável às garrafas descartáveis de plástico. Mas produzir uma garrafa de aço, alumínio ou vidro também consome matérias-primas e energia. Quantas vezes é afinal necessário utilizá-la para que a opção reutilizável realmente compense?
impreciso

A resposta a esta questão começa por uma aparente contradição, pois produzir uma única garrafa descartável de plástico pode ter um impacto ambiental bastante inferior ao fabrico de uma garrafa concebida para durar anos. A vantagem da segunda surge precisamente da reutilização. Ou seja, o impacto inicial da produção vai sendo repartido por dezenas ou centenas de utilizações, enquanto cada nova garrafa descartável exige, em princípio, a produção de outra embalagem.

Esta diferença foi analisada num estudo publicado na revista científica Environmental Research, realizado por investigadores de universidades italianas através de uma análise de ciclo de vida, metodologia que contabiliza os impactos associados às diferentes fases de um produto. O trabalho, publicado no início de 2026, comparou garrafas reutilizáveis de alumínio, vidro, aço inoxidável e polietileno de alta densidade (HDPE) com garrafas descartáveis de PET, incluindo ainda o impacto ambiental da lavagem.

Quando se considera apenas o fabrico de uma unidade, a descartável ganha claramente. Os investigadores calcularam para uma garrafa PET de 500 mililitros um potencial de aquecimento global de cerca de 0,093 quilogramas de CO2 equivalente. Nas reutilizáveis, o valor variou entre aproximadamente 0,28 quilogramas para a garrafa de HDPE e 13,1 quilogramas para a de alumínio. Ou seja, comprar uma garrafa reutilizável não produz automaticamente um benefício ambiental no momento da aquisição. Pelo contrário, alguns materiais começam com uma “dívida” ambiental substancialmente superior.

Produzir uma única garrafa descartável de plástico pode ter um impacto ambiental bastante inferior ao fabrico de uma garrafa concebida para durar anos, pelo que a vantagem da segunda surge precisamente da reutilização.

A situação altera-se quando a comparação é feita durante um período prolongado. O mesmo estudo considerou uma pessoa que bebe um litro de água fora de casa por dia. Ao fim de um ano, isso corresponderia à utilização de 730 garrafas descartáveis de meio litro ou de uma única garrafa reutilizável sucessivamente reabastecida. Nesse cenário, o impacto climático acumulado das garrafas PET atingiu cerca de 67,5 quilogramas de CO2 equivalente, enquanto o peso relativo da produção da garrafa reutilizável se tornou progressivamente menor. Os autores resumem o resultado afirmando que, numa utilização anual, “o impacto da produção das garrafas reutilizáveis torna-se negligenciável, independentemente do material”.

Isto ajuda a explicar por que razão não existe um número universal de utilizações a partir do qual qualquer garrafa reutilizável passa a ser ambientalmente preferível. Uma garrafa leve de plástico resistente necessita de menos utilizações para compensar o fabrico do que determinados modelos de alumínio ou aço. O tamanho, peso, origem dos materiais, energia utilizada na produção, durabilidade e destino no final da vida útil alteram o resultado.

Outro estudo de análise de ciclo de vida, publicado em 2021 no South African Journal of Science, revista científica da Academia de Ciências da África do Sul, comparou garrafas PET descartáveis e reutilizáveis na cidade de Joanesburgo. Os investigadores da Universidade de Joanesburgo e da Universidade de Manchester (Inglaterra), verificaram igualmente que a vantagem da reutilização depende do número de ciclos cumpridos pela embalagem e de todo o sistema que a rodeia, desde a produção ao transporte e tratamento no final da utilização.

O material é, portanto, apenas uma parte da equação. O alumínio necessita de muita energia durante a produção primária, enquanto o vidro é pesado, aumentando potencialmente o impacto do transporte. O aço inoxidável também apresenta uma pegada inicial superior à de uma embalagem PET leve. Por outro lado, estes materiais podem proporcionar uma longa vida útil, permitindo diluir progressivamente o impacto do fabrico se a mesma garrafa for utilizada durante anos.

Uma garrafa leve de plástico resistente necessita de menos utilizações para compensar o fabrico do que determinados modelos de alumínio ou aço.

A lavagem acrescenta uma variável frequentemente esquecida, pois cada garrafa reutilizável necessita de água e, dependendo do método utilizado, energia para ser higienizada. O estudo publicado na Environmental Research comparou lavagem manual e máquinas de lavar loiça com diferentes níveis de eficiência. Os resultados mostram que, depois do fabrico, a forma de lavagem pode tornar-se uma das principais componentes do impacto ambiental anual da garrafa reutilizável.

Curiosamente, lavar à mão não foi necessariamente a solução ambientalmente mais favorável. No cenário analisado, a utilização de uma máquina de lavar loiça de elevada eficiência, com lavagem de dois em dois dias, apresentou o melhor desempenho entre as opções consideradas. Os autores salientam que o método de lavagem é determinante para a sustentabilidade da reutilização e que máquinas eficientes podem combinar menor impacto ambiental com uma redução substancial da carga microbiana existente nas garrafas.

Isto não significa que seja ambientalmente vantajoso colocar uma máquina a funcionar apenas para lavar uma garrafa. Os resultados pressupõem as condições específicas consideradas pelo estudo e mostram sobretudo que o consumo de água quente e energia durante a lavagem deve entrar nas contas. Lavar repetidamente uma garrafa com grandes quantidades de água quente pode reduzir parte da vantagem obtida através da reutilização.

Também importa distinguir reutilização de reciclagem. Reciclar uma garrafa descartável permite recuperar parte do material e reduz a necessidade de matéria-prima virgem, mas não elimina a energia necessária para recolher, transportar e transformar o resíduo numa nova matéria-prima. A reutilização evita a produção de sucessivas embalagens e, quando realizada vezes suficientes, pode oferecer uma vantagem que a simples reciclagem não consegue reproduzir.

 

A lavagem acrescenta uma variável frequentemente esquecida, pois cada garrafa reutilizável necessita de água e, dependendo do método utilizado, energia para ser higienizada.

Há, contudo, situações em que comprar uma nova garrafa reutilizável pode não ser a escolha ambientalmente mais sensata. Quem já possui uma garrafa funcional dificilmente obterá benefício ao substituí-la apenas porque encontra no mercado outra produzida com um material apresentado como mais “ecológico”. O impacto do novo produto começa no fabrico. Prolongar a vida útil daquele que já existe permite continuar a distribuir o impacto inicial por um número crescente de utilizações.

É também por essa razão que acumular várias garrafas reutilizáveis utilizadas apenas ocasionalmente pode contrariar o objetivo ambiental que justificou a sua compra. Uma garrafa de aço ou alumínio esquecida numa gaveta depois de poucas utilizações mantém a pegada relativamente elevada da produção sem beneficiar do mecanismo que torna a reutilização vantajosa: repetir o uso durante muito tempo.

A alegação de que uma garrafa reutilizável é melhor para o ambiente do que uma descartável é, assim, imprecisa. Se forem comparadas apenas duas garrafas acabadas de produzir, uma embalagem PET leve pode apresentar um impacto significativamente inferior ao de uma alternativa reutilizável de aço, vidro ou alumínio. A vantagem ambiental não resulta simplesmente da palavra “reutilizável”, mas daquilo que acontece depois da compra.

Quando a mesma garrafa é utilizada regularmente durante meses ou anos, substituindo centenas de embalagens descartáveis, a situação inverte-se e a reutilização tende a apresentar uma vantagem ambiental clara. Material, durabilidade, frequência de utilização e lavagem condicionam a dimensão desse benefício. A melhor garrafa reutilizável para o ambiente será, por isso, sobretudo aquela que já se possui, que se conserva durante muito tempo e que é, de facto, reutilizada.