O anúncio da Colossal Biosciences foi feito a 7 de abril de 2025. A empresa diz-se responsável pelo “renascimento do lobo-terrível, outrora extinto, o primeiro animal do mundo a ser desextinto com sucesso”. Com recurso a ADN antigo, técnicas de edição genética e clonagem, a equipa criou três crias que nasceram entre outubro de 2024 e janeiro de 2025. Uma delas foi batizada de Kaleehsi, numa referência à personagem Daenerys Targaryen, da série “Game of Thrones”.
A ligação à série não ficou por aí. O lobo-terrível (dire wolf, em inglês) é o animal de estimação de protagonistas da saga, e o próprio autor dos livros, George R. R. Martin, foi fotografado com as crias geradas em laboratório, alimentando a ideia de que os “lobos” da ficção estavam agora a ganhar vida fora do ecrã.
Remus e Romulus, os gémeos apresentados como “lobos-terríveis”, no Trono de Ferro da série “Guerra dos Tronos”. A Colossal Biosciences usou referências da cultura pop, associando os animais ao universo da série. Para alguns, a estratégia de marketing foi exagerada. (foto: Colossal Biosciences)
De acordo com a Colossal, os três animais nasceram após um processo que combinou clonagem com edição genética de alta precisão, envolvendo 20 alterações no genoma, das quais 15 correspondem a variantes extintas. Os embriões foram desenvolvidos em laboratório e implantados em cadelas domésticas. Os animais – dois machos, Romulus e Remus, e a fêmea Kaleehsi – estão a ser mantidos num recinto com mais de 800 hectares, cuja localização não foi revelada.
“Este feito notável é o primeiro de muitos exemplos que demonstram que a nossa tecnologia integrada de desextinção funciona”, afirma Ben Lamm, CEO da Colossal, em comunicado. “A nossa equipa utilizou ADN de um dente com 13 mil anos e de um crânio com 72 mil anos para criar crias saudáveis de lobo-terrível.”
A euforia inicial, no entanto, foi rapidamente substituída por ceticismo. Publicações científicas de referência como a New Scientist, a Scientific American e a Science, bem como vários meios de comunicação generalistas, divulgaram reações que desmentem a versão da empresa.
Os animais “ressuscitados” – dois machos, Romulus e Remus, e a fêmea Kaleehsi – estão a ser mantidos num recinto com mais de 800 hectares, cuja localização não foi revelada. (foto: Colossal Biosciences)
Vários cientistas alertam que se trata apenas de lobos-cinzentos com alterações genéticas que imitam traços físicos da espécie extinta. Além disso, o ADN extraído de fósseis do lobo pré-histórico está demasiado degradado para ser usado diretamente em clonagem.
O que foi feito, na verdade, foi usar esse ADN como referência para identificar características do lobo-terrível, modificar o ADN de lobos-cinzentos e, a partir dessas células alteradas, criar embriões por clonagem que deram origem aos animais.
O título da New Scientist, por exemplo, é inequívoco: “Não, o lobo-terrível não foi trazido de volta da extinção.” No mesmo artigo, Beth Shapiro, investigadora da Colossal, defende que os novos animais podem ser classificados como lobos-terríveis com base numa definição morfológica de espécie – ou seja, se tiverem aspeto semelhante, podem ser considerados como tal.
Essa perspetiva, no entanto, é amplamente contestada. Um dos críticos é o biólogo Nuno Ferrand, diretor do CIBIO-InBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto. “Até acho que posso brincar um bocadinho com o nome da empresa. O que eles fazem é um disparate colossal”, refere, em entrevista ao Green eFact.
Esqueleto completo de um lobo-terrível acompanhado por uma ilustração científica que representa a possível aparência do animal em vida. A espécie, extinta há cerca de 10 mil anos, habitou a América do Norte durante o Pleistoceno.
Embora reconheça o mérito técnico do trabalho da Colossal, o investigador português rejeita a ideia de que a espécie extinta tenha sido recriada. Salienta que o genoma dos animais apresentados – isto é, o conjunto completo e representativo do material genético de uma espécie – não corresponde ao do lobo-terrível.
“O genoma dos indivíduos que eles anunciaram (…) não é um genoma dessa espécie. As muitas características, estamos a falar de milhares, que determinam aquilo que nós chamamos uma espécie, não é aquilo que eles dizem ser”, explica.
Segundo o especialista, os três animais “são lobos, exatamente da mesma espécie que existe em Portugal” – lobos-cinzentos com modificações em “meia dúzia” de genes, que lhes conferem algumas semelhanças com o animal extinto, como a coloração ou certas proporções corporais.
“Não estamos a falar nem de uma nova espécie, nem de um híbrido. Estamos a falar de um lobo que tem uma modificação genética introduzida através de uma tecnologia, que se chama CRISPR, em 14 genes”, explica.
Uma das alegadas crias de lobo-terrível, aqui já com cinco meses, mas que afinal, segundo o cientista português Nuno Ferrand, não serão mais que “lobos-cinzentos com modificações em meia dúzia de genes”. (foto: Colossal Biosciences)
Apesar das críticas, Nuno Ferrand reconhece que o trabalho representa um avanço científico. “São avanços muito significativos no domínio desta tecnologia”, afirma, referindo-se à edição genética por CRISPR, que pode vir a ser “extraordinariamente útil” na biomedicina, por exemplo.
A capacidade de alterar com precisão um conjunto de genes para obter um resultado fenotípico – visível na aparência – é, diz, um marco importante para a ciência, mesmo que o produto final “não corresponda ao que aparece no título das notícias”.
Por outro lado, o investigador alerta para as implicações éticas destas tentativas de desextinção. Avisa que a ideia de “trazer de volta” espécies extintas pode fazer as pessoas pensar que já não é tão grave destruir habitats ou perder espécies, porque seria sempre possível recuperá-las.
“A questão é: tem algum interesse estarmos a recuperar espécies extintas?”, questiona, acrescentando que a comunidade científica não tem uma posição unânime. Na sua perspetiva, os recursos investidos na desextinção deveriam ser canalizados para a conservação da biodiversidade existente.
E dá exemplos concretos: a recuperação da palanca-negra-gigante em Angola, projeto em que o CIBIO-InBIO esteve envolvido, e do lince-ibérico em Portugal. “Isso sim, é um trabalho que vale a pena fazer”, afirma.
As implicações éticas destas tentativas de desextinção estão a dividir a comunidade científica, não existindo ainda uma posição unânime. (foto: Colossal Biosciences)
Quanto ao futuro da desextinção, o biólogo admite que possa vir a ser possível em casos muito específicos, como os de espécies desaparecidas recentemente. No entanto, com o conhecimento atual, essa possibilidade é remota: “No estado atual do conhecimento, o que lhe posso dizer é que não.”
O lobo-terrível (Aenocyon dirus, anteriormente conhecido como Canis dirus) foi uma espécie de canídeo ligeiramente maior do que o lobo-cinzento, especializada na caça de grandes presas como as preguiças-gigantes. Habitou a América do Norte até ao final da última era glacial.
Durante muito tempo, pensou-se que era próximo do lobo-cinzento moderno, mas estudos genéticos recentes demonstraram que pertencia a uma linhagem extinta que divergiu há mais de 5 milhões de anos. O seu parente vivo mais próximo será o chacal africano do género Lupulella, o que significa que os animais criados pela Colossal pertencem, na verdade, a uma linha evolutiva distante da espécie original.