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Miguel Judas

Os minerais críticos são o novo petróleo?

23 Aug 2026 - 10:00
A transição energética está a alterar o mapa mundial das matérias-primas estratégicas. Lítio, cobre, níquel, cobalto, grafite e terras raras tornaram-se essenciais para baterias, redes elétricas e tecnologias renováveis, ao mesmo tempo que aumentam as preocupações com a concentração da produção e as dependências externas. A comparação com o petróleo tornou-se frequente, mas até que ponto descreve corretamente a nova geopolítica da energia?
impreciso

Os minerais críticos passaram rapidamente de uma questão sobretudo industrial para o centro das preocupações com a segurança energética, económica e até nacional. É assim que a Agência Internacional de Energia (IEA) aborda esta questão no Global Critical Minerals Outlook 2026, publicado em julho. Criada em 1974 no contexto da crise petrolífera e atualmente composta por 32 países membros, a IEA é uma organização intergovernamental dedicada à análise das políticas e mercados energéticos internacionais.

A dimensão da transformação ajuda a explicar a comparação com o petróleo. No cenário que considera as políticas atualmente adotadas pelos governos, a IEA estima que a procura conjunta de minerais críticos praticamente duplique até 2040. O lítio apresenta o crescimento mais acentuado, mais do que triplicando, enquanto a procura de níquel, grafite e terras raras aumenta entre 50% e 90%. Veículos elétricos, baterias para armazenamento de energia, redes elétricas e energias renováveis são os principais responsáveis por esta expansão.

A semelhança com o petróleo torna-se particularmente evidente quando se observa a concentração das cadeias de abastecimento. Segundo a IEA, a concentração do processamento dos principais minerais utilizados no setor energético atingiu um novo máximo em 2025. Em média, o principal país fornecedor concentrava 70% da produção refinada, contra 68% em 2020. A China ocupa a posição dominante na maioria destes mercados, enquanto a Indonésia se destaca no níquel. No caso do gálio, grafite, manganês e terras raras, mais de 90% do processamento mundial está concentrado na China.

Esta concentração já deixou de constituir apenas um risco teórico. A IEA refere no relatório de 2026 que o número de categorias de minerais abrangidas por controlos chineses às exportações triplicou desde 2023. Em abril de 2025, Pequim introduziu restrições sobre sete elementos de terras raras pesadas, provocando dificuldades em indústrias dependentes destes materiais e levando alguns fabricantes automóveis a reduzir temporariamente a produção. República Democrática do Congo, Zimbabwe e Moçambique também adotaram restrições relacionadas, respetivamente, com cobalto, lítio e grafite.

 

No cenário que considera as políticas atualmente adotadas pelos governos, a IEA estima que a procura conjunta de minerais críticos praticamente duplique até 2040.

É aqui que a analogia com as crises petrolíferas do século XX parece ganhar força. Um número reduzido de países controla recursos ou etapas de processamento essenciais para indústrias estratégicas e pode utilizar essa posição como instrumento económico ou geopolítico. Uma interrupção significativa pode provocar aumentos de preços, escassez e dificuldades industriais muito para além do setor energético.

Mas as semelhanças começam a diminuir quando se compara a forma como os dois tipos de recursos são utilizados. A Agência Internacional para as Energias Renováveis (IRENA), uma organização intergovernamental criada em 2009 para apoiar os países na transição para sistemas energéticos baseados em fontes renováveis, no relatório Geopolitics of the Energy Transition: Critical Materials, salienta precisamente que as dependências associadas aos minerais críticos são fundamentalmente diferentes das provocadas pelos combustíveis fósseis.

A diferença principal está no próprio consumo. Petróleo, gás ou carvão têm de ser continuamente extraídos e fornecidos porque desaparecem à medida que são queimados. Os minerais necessários para fabricar uma bateria, uma turbina eólica ou determinadas componentes de um painel solar permanecem incorporados no equipamento. Uma vez construída a infraestrutura, esta pode produzir ou armazenar energia durante muitos anos sem precisar de um fornecimento permanente daqueles materiais.

Por isso, segundo a IRENA, uma interrupção no abastecimento de minerais críticos teria sobretudo consequências para a velocidade da transição energética, e não para a disponibilidade imediata da energia já produzida por instalações existentes. Uma central solar ou um parque eólico continuariam a funcionar mesmo que fosse interrompido o fornecimento de determinados minerais. O mesmo não acontece com uma economia dependente de petróleo importado se o abastecimento de crude for subitamente interrompido.

Um número reduzido de países controla recursos ou etapas de processamento essenciais para indústrias estratégicas e pode utilizar essa posição como instrumento económico ou geopolítico.

Existe ainda outra diferença importante: os minerais podem ser recuperados e reutilizados. A IRENA refere que cerca de 40% do cobre e do aço produzidos mundialmente já provêm de materiais reciclados, embora as taxas sejam muito inferiores para alguns dos minerais atualmente considerados críticos. Para muitas terras raras, por exemplo, a recuperação continua residual. A expansão da reciclagem poderá, contudo, reduzir progressivamente a necessidade de nova extração à medida que os equipamentos atualmente instalados chegarem ao fim da vida útil.

Também a escala económica é diferente. O relatório da IRENA observa que, com exceção do cobre, os fluxos comerciais dos minerais e metais analisados são várias ordens de grandeza inferiores aos mercados de petróleo e gás. Mesmo com o forte crescimento previsto, a agência considera que os volumes e valores envolvidos não deverão tornar-se comparáveis aos atuais mercados de combustíveis fósseis.

A nova corrida às matérias-primas tem, ainda assim, consequências geoeconómicas profundas. Num relatório dedicado a este tema, publicado em março deste ano, A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), organismo das Nações Unidas dedicado ao comércio, investimento e desenvolvimento económico, alerta para o risco de os países ricos em minerais repetirem um padrão conhecido da economia do petróleo e de outras matérias-primas, o de exportar recursos com baixo valor acrescentado enquanto o processamento e a produção industrial se concentram noutros países.

Segundo a Agência Internacional para as Energias Renováveis, uma interrupção no abastecimento de minerais críticos teria sobretudo consequências para a velocidade da transição energética, e não para a disponibilidade imediata da energia já produzida por instalações existentes.

A questão é especialmente relevante para as economias em desenvolvimento. Segundo o relatório The State of Commodity Dependence 2025, também da UNCTAD, 95 das 143 economias em desenvolvimento analisadas continuavam dependentes de matérias-primas entre 2021 e 2023, ou seja, obtinham mais de 60% das receitas das exportações de mercadorias através destes produtos. A expansão da procura de minerais críticos pode representar uma oportunidade de industrialização, mas também aprofundar dependências económicas já existentes se os países produtores permanecerem apenas na fase de extração.

A alegação de que os minerais críticos estão a tornar-se num “novo petróleo” é assim parcialmente verdadeira. Lítio, cobre, níquel, grafite, cobalto ou terras raras estão a adquirir uma importância geopolítica crescente e a concentração das cadeias de abastecimento cria vulnerabilidades que já começaram a ser utilizadas nas disputas comerciais entre grandes potências.

A comparação torna-se, porém, enganadora quando sugere que a transição energética se limita a substituir uma dependência por outra equivalente. Os combustíveis fósseis são continuamente consumidos e exigem abastecimento permanente; os minerais ficam incorporados nos equipamentos, podem ser reciclados e uma interrupção do fornecimento não impede as instalações existentes de continuar a produzir energia.

Os minerais críticos poderão, assim, tornar-se uma das grandes fontes de competição geopolítica das próximas décadas, mas dificilmente serão um substituto perfeito do petróleo enquanto instrumento de poder energético.