De acordo com o mais recente estudo da Boston Consulting Group (BCG) em parceria com a Fashion for Good, intitulado Scaling Next-Gen Materials in Fashion: An Executive Guide, 91% das emissões totais da indústria da moda têm origem nos materiais — desde fibras naturais como o algodão até materiais sintéticos como o poliéster.
Esta percentagem inclui todas as etapas associadas à extração, transformação e processamento das matérias-primas, confirmando que o impacto ambiental do setor está fortemente concentrado nas fases iniciais da cadeia de valor.
Outros estudos corroboram esta conclusão, como o da consultora McKinsey & Company que estima que mais de 70% das emissões do setor provêm da fase de produção de matérias-primas e do fabrico de tecidos, ou seja, muito antes do produto chegar ao consumidor final.
A World Resources Institute confirma igualmente que o fabrico de fibras e a fiação são os principais emissores dentro da indústria têxtil, enquanto o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP) alerta que a indústria têxtil poderá ser responsável por até 8% das emissões globais se não forem adotadas medidas urgentes, destacando o papel crítico dos materiais nessa equação.
Segundo o estudo da BCG, “91% das emissões totais da indústria da moda têm origem nos materiais”.
Além do impacto ambiental, os materiais têm também um peso económico relevante. De acordo com a BCG, representam em média 30% do custo dos bens vendidos (COGS), sendo que, no segmento de luxo, esta percentagem varia entre 15% e 25%, enquanto no setor do fast fashion pode atingir até 60%. Este fator torna os materiais uma alavanca estratégica, tanto do ponto de vista financeiro como ambiental.
Perante este cenário, a inovação em materiais surge como uma das soluções mais promissoras para reduzir a pegada carbónica do setor. O estudo da BCG destaca os chamados materiais “next-gen” — fibras recicladas, têxteis derivados de resíduos agrícolas, materiais biossintéticos e até algodão cultivado em laboratório — como alternativas sustentáveis e economicamente viáveis.
Atualmente, estas inovações representam apenas 1% do mercado global de fibras, mas têm potencial para atingir 8% até 2030, o que corresponderia a cerca de 13 milhões de toneladas de materiais. Ainda assim, essa quota poderá revelar-se insuficiente face à crescente procura da indústria, o que reforça a necessidade de uma transição mais rápida e coordenada.
A adoção de materiais inovadores poderá também trazer benefícios económicos, com o estudo a prever uma redução de até 4% nos custos de produção ao longo dos próximos cinco a seis anos. Esta poupança resulta da menor exposição à volatilidade dos preços das matérias-primas convencionais, de cadeias de abastecimento mais estáveis e das eficiências operacionais associadas ao ganho de escala.
Contudo, os desafios não são negligenciáveis, pois os custos de desenvolvimento destes materiais continuam elevados, existem limitações técnicas quanto à sua performance e, sobretudo, falta capacidade de produção em escala.
A inovação em materiais como fibras recicladas, têxteis derivados de resíduos agrícolas, materiais biossintéticos e até algodão cultivado em laboratório, poderá ser uma das soluções mais promissoras para reduzir a pegada carbónica do setor.
Para ultrapassar estes obstáculos, a BCG propõe um roteiro de ação assente em três pilares fundamentais. O primeiro é o da procura: as marcas devem estabelecer metas claras de incorporação de materiais inovadores, agregar a procura com outras empresas e assumir compromissos de compra que justifiquem o investimento em capacidade produtiva.
O segundo pilar é o custo: as empresas devem investir em engenharia de processos, padronização de materiais e eficiência da cadeia de abastecimento, de forma a reduzir os custos e acelerar a adoção.
Por fim, o terceiro pilar é o capital: é essencial mobilizar financiamento estratégico ao longo de todas as fases da inovação, desde a investigação e desenvolvimento até à produção em larga escala.
A colaboração entre os diferentes intervenientes da indústria — marcas, fornecedores, inovadores e investidores — é vista como crucial para escalar estas soluções e garantir a sua viabilidade. A criação de parcerias, a definição de especificações comuns e a partilha de infraestruturas podem acelerar a adoção de materiais mais sustentáveis e torná-los acessíveis a um maior número de empresas e consumidores.
A iniciativa Fashion Industry Charter for Climate Action da ONU reforça esta visão, apelando à descarbonização da cadeia de valor até 2050 e à recolha de dados robustos sobre o impacto das matérias-primas. Em linha com esta abordagem, a Ellen MacArthur Foundation promove colaborações transversais que visam redefinir produtos e processos de forma circular e regenerativa.
A criação de parcerias e a partilha de infraestruturas podem acelerar a adoção de materiais mais sustentáveis e torná-los acessíveis.
Em suma, os dados são claros: a esmagadora maioria das emissões da indústria da moda está diretamente relacionada com os materiais utilizados. A aposta em alternativas inovadoras oferece uma oportunidade concreta para reduzir significativamente o impacto ambiental do setor.
No entanto, o sucesso dessa transição dependerá da vontade política, do investimento estratégico e de uma colaboração genuína entre todos os agentes do sistema moda. Sem isso, será difícil atingir as metas climáticas globais e garantir um futuro mais sustentável para a indústria.