Embora os grandes incêndios que hoje atingem Espanha e França tenham colocado o tema no centro das atenções, a questão diz igualmente respeito a Portugal. Os três países partilham um clima mediterrânico, enfrentam períodos cada vez mais prolongados de calor extremo e seca e apresentam paisagens particularmente vulneráveis ao fogo. Mas será que a ciência confirma que os incêndios extremos estão realmente a aumentar?
Antes de tentar responder a esta questão, importa esclarecer o que distingue um incêndio extremo de um incêndio florestal convencional. O conceito não depende apenas da área ardida. Um incêndio pode consumir relativamente poucos hectares e, ainda assim, ser considerado extremo se apresentar uma elevada intensidade, velocidades de propagação muito elevadas, produção de focos secundários a grande distância ou um comportamento tão imprevisível que ultrapasse a capacidade de resposta dos meios de combate. Em determinadas circunstâncias, pode mesmo gerar a sua própria dinâmica atmosférica, tornando-se praticamente impossível de controlar enquanto persistirem as condições que o alimentam.
A recente vaga de incêndios em Espanha já obrigou a desalojar mais de 115 mil pessoas nas regiões à volta de Madrid, Ávila e Castellón.
É este tipo de comportamento que preocupa a comunidade científica. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), organismo das Nações Unidas responsável por avaliar o conhecimento científico sobre as alterações climáticas, existe elevada confiança de que a influência humana no clima aumentou as condições meteorológicas favoráveis aos incêndios em várias regiões do planeta, incluindo o sul da Europa. No Sexto Relatório de Avaliação, os investigadores concluem que as condições propícias à ocorrência de incêndios tornaram-se mais frequentes em muitas regiões e que o aquecimento global contribui para prolongar a duração da época de incêndios, aumentar a secura da vegetação e favorecer comportamentos mais extremos do fogo.
Importa, no entanto, distinguir risco de ocorrência. O IPCC não afirma que todos os anos registam necessariamente mais incêndios ou mais área ardida. O que a evidência científica demonstra é que aumentou a frequência das condições meteorológicas capazes de favorecer incêndios de elevada intensidade. Já a ignição continua a depender de fatores como a atividade humana ou as trovoadas, enquanto a evolução de cada incêndio é igualmente influenciada pela quantidade de combustível disponível, pela topografia, pelo vento e pela gestão da paisagem.
imagens de satélite da NASA captam mais um incêndio de grande dimensões ocorrido em Espanha em 2023.
A mesma tendência é identificada pelo Joint Research Centre (JRC), o serviço científico da Comissão Europeia. Os relatórios anuais Forest Fires in Europe, Middle East and North Africa, elaborados com base nos dados do European Forest Fire Information System (EFFIS), mostram que a época de incêndios se tem prolongado, que aumentam os dias classificados como de perigo elevado ou extremo e que os grandes incêndios continuam a concentrar-se sobretudo na região mediterrânica.
Os dados do EFFIS, sistema europeu que monitoriza os incêndios florestais através do programa Copernicus, apontam no mesmo sentido. A combinação entre temperaturas elevadas, humidade reduzida, vegetação seca e vento intenso faz aumentar o chamado Fire Weather Index, um indicador utilizado internacionalmente para avaliar o potencial de propagação do fogo. Nos últimos anos, vários países mediterrânicos registaram um aumento dos dias classificados nas categorias de maior perigo, o que significa que, quando ocorre uma ignição, existem maiores probabilidades de o incêndio adquirir rapidamente um comportamento extremo.
De acordo com a Agência Europeia do Ambiente (EEA), o risco de incêndio está a expandir-se para regiões da Europa que, até há poucos anos, raramente registavam grandes fogos florestais.
Esta realidade começou igualmente a refletir-se na distribuição geográfica dos grandes incêndios. De acordo com a Agência Europeia do Ambiente (EEA), o risco de incêndio está a expandir-se para regiões da Europa que, até há poucos anos, raramente registavam grandes fogos florestais. Embora a bacia do Mediterrâneo, com especial incidência em zonas como a Península Ibérica, o Sul de Itália e a Grécia, continue a concentrar as condições mais favoráveis ao desenvolvimento de incêndios extremos, os episódios recentes registados na Europa Central e do Norte mostram que este deixou de ser um problema exclusivo dos países do Sul.
Em suma, a alegação de que os incêndios extremos estão a tornar-se mais frequentes no sul da Europa é verdadeira. Os dados recolhidos nas últimas décadas e as projeções científicas apontam para um agravamento das condições que favorecem incêndios extremos no sul da Europa, impulsionado sobretudo pelo aumento das temperaturas, pelas secas mais frequentes e prolongadas e pelo alargamento da época de incêndios. Ainda assim, convém lembrar uma vez mais que a ocorrência e dimensão destes eventos continuam a depender de outros fatores, como a gestão da paisagem, a quantidade de combustível disponível, as ignições e a capacidade de prevenção e combate.