voltar

Miguel Judas

Os eventos climáticos extremos aumentaram em Portugal em 2025?

28 Dec 2025 - 10:00
Entre ondas de calor, secas, incêndios florestais e precipitações irregulares, Portugal voltou a viver em 2025 um ano marcado por eventos climáticos intensos. A ideia que estes fenómenos aumentaram significativamente tornou-se entretanto num quase consenso nacional, alimentado por alertas frequentes da proteção civil e uma forte presença destes episódios na comunicação social. Mas para perceber se tal sensação é mesmo uma realidade, é necessário separar a perceção mediática da realidade climática, recorrendo a indicadores quantitativos e metodologias reconhecidas.
impreciso

Segundo o resumo climatológico do verão de 2025 elaborado pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), o organismo público responsável pela monitorização meteorológica e climatológica em Portugal, o último verão foi “extremamente quente e extremamente seco”, com a temperatura média do ar de 23,51 °C, ou seja, com mais 1,55 °C acima do valor normal registado no período entre 1991 e 2020”. O IPMA acrescenta ainda que o verão de 2025, no seu conjunto, foi o mais quente observado em Portugal continental desde o início das medições instrumentais, em 1931, ultrapassando todos os anteriores máximos registados.

O relatório também documenta que ocorreram pelo menos três ondas de calor significativas, incluindo uma entre 29 de julho e 17 de agosto, cuja duração máxima foi de 16 dias, tornando-a na mais prolongada nas regiões interiores Norte e Centro desde que se começaram a comparar a duração e frequência de ondas de calor, em 1941. No verão de 2025 registaram-se também 33 novos extremos de temperatura máxima do ar e 10 de temperatura mínima. Confirmou-se também uma tendência para valores de precipitação muito baixos, apenas 24 % do normal climatológico, e o registo de um valor extremo de 46,6 °C em Mora a 29 de junho como novo máximo absoluto para esse mês.

Estes dados mostram claramente que, em termos de intensidade dos eventos de calor, 2025 foi um ano excecional em Portugal. As ondas de calor foram mais longas e mais intensas do que as de anos anteriores, e os extremos de temperatura foram frequentes. Este tipo de eventos está diretamente associado a condições meteorológicas que favorecem, por exemplo, incêndios florestais e secas prolongadas, fenómenos que a sociedade portuguesa e serviços de proteção civil enfrentaram repetidamente em 2025.

Este tipo de eventos climáticos extremos estão diretamente associados a condições meteorológicas favoráveis ao surgimento de incêndios florestais e secas prolongadas.

Além dos dados observados pelo IPMA, há outras análises de impacto climático a corroborar a tendência de eventos extremos mais prováveis devido às alterações climáticas. A rede World Weather Attribution (WWA), uma colaboração internacional de cientistas climatológicos, tem realizado diversos estudos que ligam os eventos extremos ao aquecimento global. Num relatório específico sobre as condições meteorológicas que alimentaram os incêndios na Península Ibérica no verão de 2025, esta rede concluiu que as condições de “clima de fogo” (caracterizadas por calor extremo, seca e vento) são hoje 40 vezes mais prováveis do que seriam num clima pré-industrial e cerca de 30 % mais intensas devido ao aquecimento global. Estes valores emergem de uma análise direta dos dados meteorológicos observados, configurando um aumento claro da probabilidade e intensidade de condições extremas quando se compara o clima atual com o de há mais de um século.

Outro contributo importante para a avaliação dos extremos climáticos veio da Agência Europeia do Ambiente (AEA), através do relatório Europe’s environment 2025, um documento sobre o estado e tendências do ambiente e clima na Europa, o qual sublinha que os riscos climáticos e perdas económicas associados a eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas, incêndios e inundações, aumentaram de forma persistente ao longo das últimas décadas, refletindo tanto a frequência como a magnitude desses fenómenos em todo o território da União Europeia.

No indicador de perdas económicas relacionadas com o clima, na secção de países do relatório, pode ler-se que, em Portugal, os prejuízos acumulados por eventos climáticos extremos têm uma tendência cada vez mais crescente. Na mesma secção destaca-se ainda os desafios significativos que isto representa em áreas como os recursos hídricos, disponibilidade de água, produtividade agrícola e risco de incêndios florestais.

Segundo a Agência Europeia do Ambiente, em Portugal, em Portugal, os prejuízos acumulados por eventos climáticos extremos têm uma tendência cada vez mais crescente.

Estes relatórios e análises permitem diferenciar entre dois aspetos importantes: a frequência e a intensidade dos eventos extremos. Em 2025, de facto, Portugal registou intensidade extrema em ondas de calor, secas prolongadas e condições que favoreceram incêndios graves, como documentado pelo IPMA e analisado pela WWA.

Já no que respeita à frequência de eventos extremos ao longo do tempo, a avaliação global e regional sugere uma tendência de aumento nos últimos anos, mas com uma variabilidade anual relevante e influências naturais interanuais que complicam a comparação direta de 2025 com anos anteriores, sem considerar séries de dados longas.

A AEA demonstra também que os impactos acumulados de eventos climáticos extremos (incluindo os custos económicos) têm aumentado de forma consistente, demonstrando assim como estes fenómenos não ocorreram de forma isolada em 2025, fazendo antes parte de uma tendência climática mais ampla há muito observável na Europa e em Portugal.

 

O registo de um valor extremo de 46,6 °C em Mora, a 29 de junho, ficou assinalado como o novo máximo absoluto para esse mês.

Portanto, a perceção de que “os eventos climáticos extremos aumentaram em Portugal em 2025” não pode ser refutada quando se olha para dados concretos e séries observadas. Ou seja, 2025 não foi de facto um ano típico, tendo registrado ondas de calor excecionalmente longas e intensas, extremos máximos históricos de temperatura e condições meteorológicas que favoreceram eventos severos como incêndios florestais. Esses aspetos confirmam que, em termos de intensidade e impacto local, os eventos extremos foram mais pronunciados.

Contudo, quando se procura aferir se houve um aumento estatístico claro na frequência de todos os eventos extremos comparado com períodos anteriores, essa conclusão exige uma análise de séries longas e normalizadas, incluindo variabilidade natural, o que é substanciado mais por tendências de longo prazo do que apenas pela observação isolada de um único ano.

Em suma, 2025 intensificou a perceção de extremos em Portugal e confirmou padrões consistentes com as projeções climáticas globais, mas a avaliação rigorosa distingue a intensidade (claramente elevada) da frequência estatística ao longo de décadas, que embora em ascensão, ainda requer contexto histórico amplo para comparações mais definitivas.