Uma das fontes mais abrangentes sobre as perdas económicas e humanas decorrentes de desastres naturais é o “Atlas de Mortalidade e Perdas Económicas devido a Extremos Meteorológicos, Climáticos e Hidrológicos (1970-2019)”, publicado pela Organização Meteorológica Mundial, a agência especializada das Nações Unidas que coordena observações meteorológicas globais e produz avaliações científicas sobre riscos climáticos. A organização compilou neste atlas os dados da Emergency Events Database (EM-DAT), mantida pelo Centre for Research on the Epidemiology of Disasters (CRED), sediado na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, segundo o qual, entre 1970 e 2019 houve mais de 11 mil desastres atribuíveis a eventos meteorológicos, climáticos e hídricos, responsáveis por perdas económicas na ordem de 3 640 mil milhões de dólares a nível global (cerca de 3 350 mil milhões de euros a valores atuais) e cerca de 2 milhões de vidas perdidas, com estas perdas a aumentarem progressivamente ao longo dos anos.
Os mesmos dados mostram que os prejuízos económicos atribuíveis a estes extremos climáticos cresceram substancialmente desde as décadas de 1970 e 1980, indicando não apenas um maior número de eventos registados mas também um crescimento das perdas associadas a cada evento. A própria Organização Meteorológica Mundial assinala que “as perdas económicas devidas a extremos climáticos e relacionados com a água aumentaram sete vezes da década de 1970-1979 para a de 2010-2019”, ilustrando um crescimento real nos impactos registados ao longo de décadas.
Entre 1970 e 2019 houve mais de 11 mil desastres atribuíveis a eventos meteorológicos, climáticos e hídricos, responsáveis por perdas económicas na ordem de 3 640 mil milhões de dólares a nível global.
Também o relatório “Economic losses, poverty & disasters: 1998-2017”, produzido pelo Gabinete das Nações Unidas para a Redução do Risco de Catástrofes, mostra que, enquanto entre 1978 e 1997 os desastres climáticos representaram cerca de 895 mil milhões de dólares (823 mil milhões de euros a valores atuais) em perdas económicas, correspondendo a 68 % do total de perdas associadas a desastres naturais; no período de 1998 a 2017, o total de perdas económicas ascendia já a 2245 mil milhões de dólares (2065 mil milhões de euros a valores atuais), correspondendo a 77 % do total de perdas por desastres naturais, mas com um aumento de 151 % nas perdas económicas associadas a eventos climáticos em comparação com o período anterior de 20 anos.
Do ponto de vista científico, estes dados confirmam que existem tendências claras de aumento das perdas económicas atribuíveis a extremos climáticos nas bases de dados historicamente registadas. A Emergency Events Database (EM-DAT), que serve de suporte a estes relatórios globais, é uma base de dados internacional mantida por investigadores e utilizada por diversas agências intergovernamentais para quantificar desastres naturais e os seus impactos económicos e humanos de forma padronizada desde 1900, com registo sistemático desde 1988.
Parte do aumento das perdas económicas pode resultar de uma maior exposição de bens e infraestruturas de elevado valor em áreas de risco, consequência do crescimento demográfico, da expansão urbana e de um maior valor de mercado ao longo do tempo.
No entanto, estes números não podem ser interpretados isoladamente. Parte do aumento das perdas económicas pode resultar de uma maior exposição de bens e infraestruturas de elevado valor em áreas de risco, consequência do crescimento demográfico, da expansão urbana e de um maior valor de mercado ao longo do tempo. Isto significa que, mesmo que a frequência ou intensidade dos eventos não aumentasse, haveria tendência a registar perdas monetárias maiores simplesmente porque há mais para destruir hoje do que há 50 anos.
Isto é confirmado também por análises que distinguem a evolução dos eventos em si e o efeito da sociedade sobre os valores dos danos. Tanto o Painel Intergovernamental sobre Mudanças ou a Organização Meteorológica Mundial admitem que determinados tipos de eventos extremos – como ondas de calor, secas ou episódios de precipitação extrema – estão a tornar-se mais frequentes e intensos devido às mudanças climáticas antropogénicas, e que isso, por si só, pode aumentar as perdas económicas e humanas. No já anteriormente citado Atlas de Mortalidade e Perdas Económicas devido a Extremos Meteorológicos, Climáticos e Hidrológicos (1970-2019) é também referido que “o número de eventos registados de desastres climáticos e de água aumentou significativamente nas últimas décadas”, o que sugere que tanto as mudanças climáticas como a exposição aumentada das infraestruturas estão a contribuir para as perdas económicas observadas.
O aumento das perdas económicas associadas aos desastres climáticos é igualmente evidente em dados mais recentes. O relatório anual “Disaster Year in Review 2023” da EM-DAT mostra que, mesmo antes do final de 2023, o valor total de perdas económicas de desastres naturais atingiu cerca de 202,7 mil milhões de dólares (186 mil milhões de euros a valores atuais), ligeiramente acima da média anual de cerca de 196,3 mil milhões de dólares (181 mil milhões de euros a valores atuais) registada desde 2003 – um indicador de que a tendência de elevados prejuízos económicos se mantém ao longo do século XXI.
Tanto as mudanças climáticas como a exposição aumentada das infraestruturas estão a contribuir para as perdas económicas observadas.
A afirmação de que “os desastres climáticos causam hoje mais prejuízos económicos do que no passado” tem base nos dados disponíveis, pois múltiplos relatórios internacionais mostram um crescimento substancial das perdas económicas associadas a eventos climáticos extremos nas últimas décadas. Este crescimento é resultado de vários fatores combinados: aumento dos extremos climáticos impulsionado pelas alterações climáticas antropogénicas, crescimento da exposição de bens e infraestruturas, e melhor reporte e documentação dos eventos ao longo do tempo.
Em suma, embora parte do aumento das perdas económicas possa ser atribuída ao fato de que há mais infraestruturas “para destruir” hoje do que há décadas, os dados históricos de bases como a EM-DAT, indicam que há também um verdadeiro aumento das perdas económicas associadas a desastres climáticos ao longo dos últimos 50 anos, refletindo tanto mudanças no clima global como mudanças nas sociedades humanas.