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Teresa Lencastre

Os animais ajudam a prevenir incêndios?

14 Jun 2025 - 09:00
À medida que as alterações climáticas tornam os incêndios florestais mais frequentes e intensos, vários países estão a recorrer a aliados inesperados: os animais. Garranos, cabras e outros grandes herbívoros ajudam a reduzir o material combustível ao alimentarem-se da vegetação densa e seca. A estratégia já é aplicada em várias regiões de Portugal e do estrangeiro.
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Em Portugal, um dos casos mais emblemáticos de animais usados na prevenção de incêndios é o dos garranos, uma das quatro raças portuguesas de cavalos. O animal já inspirou vários projetos de prevenção de incêndios, como o “Open2preserve”, no qual a investigadora Filipa Torres esteve envolvida.

“Devido à sua rusticidade e adaptação a áreas dominadas por arbustos, consomem este tipo de vegetação, diminuindo a biomassa combustível que, quando muito acumulada, facilita a propagação dos incêndios”, explica ao Green eFact a especialista da UTAD.

Para que os garranos cumpram eficazmente esta função, pode ser necessária alguma intervenção humana. “É muito importante que os matos não sejam demasiado altos e envelhecidos, pois perdem valor nutritivo e os animais perdem apetência para os consumir”, explica Filipa Torres.

Quando isso acontece, é necessário renovar a vegetação, o que pode ser feito por corte mecânico ou através de fogo controlado. “No nosso estudo, utilizámos o fogo controlado para este fim e só depois é que os garranos entraram nas parcelas, uns meses depois de a vegetação rebentar. Tratou-se fundamentalmente de manutenção das áreas abertas.”

Devido à sua rusticidade e adaptação a áreas dominadas por arbustos, os garranos consomem este tipo de vegetação, diminuindo a biomassa combustível que, quando muito acumulada, facilita a propagação dos incêndios.

Segundo a Associação de Criadores de Equinos de Raça Garrana (ACERG), existem atualmente em Portugal 1835 éguas e 320 garanhões da raça garrana, todos criados em linha pura, distribuídos por 565 criadores. A associação alerta que a raça se encontra classificada no grau de risco mais elevado de erosão genética entre as raças autóctones, o que representa uma séria ameaça de extinção.

“Os cavalos da raça garrana fazem parte do ecossistema das serras de Portugal, vivendo em regime semisselvagem durante todo o ano, maioritariamente em zonas de baldio, constituindo atualmente a presa preferencial do lobo ibérico”, explicam ao Green eFact José Leite e Susana Lopes, da ACERG.

Os veterinários da associação sublinham que o uso dos garranos na prevenção de incêndios já está em prática em várias regiões do país. Várias entidades, como a Associação Transumância e Natureza e a Empresa Municipal de Ambiente de Cascais têm garranos, “sendo a sua principal missão reduzir o risco de incêndio”.

Outro projeto em que os garranos também estão envolvidos é o da gestão da vegetação sob as linhas de alta tensão da REN, em parceria com a Associação para o Ordenamento da Serra da Cabreira (APOSC) e a Câmara Municipal de Vieira do Minho. 

Outro exemplo é o projeto de gestão da vegetação sob as linhas de alta tensão da REN, em parceria com a Associação para o Ordenamento da Serra da Cabreira (APOSC) e a Câmara Municipal de Vieira do Minho. “Os garranos cumprem a sua função não só de limpeza destes locais, mas também da abertura de carreiros e caminhos e ainda o pisoteio que diminui esta carga arbustiva”, descrevem.

Na Serra da Cabreira vivem atualmente 291 garranos – 263 éguas e 28 garanhões – em liberdade, segundo a ACERG. Estão distribuídos por 25 grupos familiares que ocupam diferentes zonas ao longo de toda a serra.

“A REN está a apoiar a associação na criação de cercados e mangas, na colocação de colares GPS, criação de uma vedação elétrica, bebedouros, criação de um sistema de pastagens melhoradas e plantação de espécies arbustivas autóctones”, adiantam José Leite e Susana Lopes.

Após os grandes incêndios de 2017, o Governo lançou concursos para apoiar os chamados rebanhos de “cabras sapadoras”, compostos por cabras e ovelhas usadas na limpeza de terrenos.

Mas os garranos não são os únicos animais com potencial para ajudar na prevenção de incêndios. É, aliás, “desejável” que outras espécies também o façam, sublinha Filipa Torres.

“Os caprinos, os ovinos e os bovinos também o poderão fazer, sendo desejável que os diferentes animais, que têm características distintas uns dos outros, podendo ser complementares nos diferentes consumos, se revezem para uma utilização diferenciada dos diversos tipos de vegetação”, refere a investigadora.

Em Portugal, cabras e ovelhas inspiraram iniciativas deste tipo. Após os grandes incêndios de 2017, o Governo lançou concursos para apoiar os chamados rebanhos de “cabras sapadoras”, compostos por cabras e ovelhas usadas na limpeza de terrenos.

O programa – que chegou a ser noticiado pelo New York Times – está atualmente a ser revisto pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), para atrair mais candidaturas.

Em Espanha, o projeto “Ramats de Foc”,  na Catalunha, integra rebanhos na gestão florestal, em articulação com bombeiros.

Fora de Portugal, vários países têm seguido o mesmo caminho. Em Espanha, o projeto “Ramats de Foc”,  na Catalunha, integra rebanhos na gestão florestal, em articulação com bombeiros. Outras regiões, como a Andaluzia, as Canárias e Castela-Mancha, também implementaram programas de pastoreio para reduzir o risco de incêndios, alguns dos quais incluem a remuneração dos pastores como reconhecimento do serviço público prestado.

Nos Estados Unidos, a prática também está presente. Na Califórnia, cabras e ovelhas são usadas para abrir corta-fogos em zonas de alto risco, como encostas e áreas próximas de infraestruturas críticas.

O Aeroporto Internacional de São Francisco, por exemplo, tem vindo a contratar cerca de 400 cabras por ano para limpar o perímetro de mato seco, evitando o uso de máquinas em áreas sensíveis, à semelhança do sistema de transporte ferroviário da Bay Area (BART) e do Aeroporto Internacional O’Hare, em Chicago.

Vários estudos demonstram que o pastoreio com grandes herbívoros – como cavalos, cabras ou bisontes – pode reduzir significativamente o risco de incêndios. Ao consumirem a vegetação mais inflamável, estes animais diminuem a carga de combustível e criam manchas de vegetação menos densa, que funcionam como corta-fogos naturais.

Uma dessas investigações, publicada no Journal of Applied Ecology, concluiu que este tipo de pastoreio é particularmente eficaz em áreas rurais abandonadas ou de difícil acesso e recomenda a sua adoção como medida de prevenção de baixo custo.