Quando alguém inicia um filme ou uma série numa plataforma de streaming, os dados não chegam diretamente de uma espécie de nuvem imaterial. O conteúdo encontra-se armazenado e processado em servidores, passa por redes de distribuição de conteúdos, atravessa a infraestrutura da Internet e só então chega finalmente ao router e ao equipamento do utilizador. Todas estas etapas necessitam de eletricidade e, dependendo da forma como essa eletricidade é produzida, originam emissões de gases com efeito de estufa.
A Agência Internacional de Energia (IEA), organização intergovernamental que analisa os mercados e as políticas energéticas mundiais, identifica precisamente o streaming de vídeo entre os serviços responsáveis pelo rápido crescimento do tráfego de dados. Centros de dados e redes de transmissão precisam de funcionar continuamente para assegurar esses serviços, embora os progressos na eficiência dos equipamentos tenham permitido que o consumo de eletricidade cresça bastante menos depressa do que o volume de informação transmitida.
Esta distinção é importante porque durante vários anos circularam estimativas que atribuíam ao streaming uma pegada climática extremamente elevada. Numa análise especificamente dedicada a verificar algumas dessas estimativas, a IEA concluiu que determinados cálculos sobrestimavam consideravelmente o consumo de energia das redes e dos centros de dados. Um dos erros consistia em assumir uma relação praticamente direta entre a quantidade de dados transmitidos e a eletricidade necessária para os transportar.
A investigação científica mais recente reforça esta ideia, como o atesta um estudo publicado em 2024 no Journal of Industrial Ecology, revista científica internacional dedicada à análise dos fluxos de energia e materiais associados às atividades económicas, no qual se concluiu que o consumo energético das redes não aumenta proporcionalmente à quantidade de dados transmitida. Grande parte da infraestrutura permanece ligada e consome eletricidade independentemente de estar a transportar um volume ligeiramente maior ou menor de informação. Por esse motivo, os autores consideram insuficiente calcular a pegada de um serviço digital simplesmente multiplicando os gigabytes utilizados por um valor fixo de energia.
A Agência Internacional de Energia identifica o streaming de vídeo entre os serviços responsáveis pelo rápido crescimento do tráfego de dados.
Isso não significa que o streaming seja ambientalmente neutro. Uma das análises mais detalhadas sobre o assunto foi realizada pelo Carbon Trust (organização independente britânica especializada na descarbonização de empresas e governos), em colaboração com investigadores da Universidade de Bristol e empresas do setor audiovisual. O estudo estimou que uma hora de vídeo a pedido na Europa originava, em média, cerca de 55 gramas de CO2 equivalente, considerando centros de dados, transmissão pela Internet, router e equipamento utilizado pelo espectador.
Estes números devem no entanto ser interpretados com cautela, uma vez que o cálculo foi realizado com dados referentes a 2020 e a pegada depende fortemente da intensidade carbónica da eletricidade de cada país. À medida que a produção elétrica incorpora uma maior proporção de fontes de baixo carbono, as emissões associadas ao funcionamento dos equipamentos diminuem. Ainda assim, o estudo permite perceber onde se concentra o impacto.
E a resposta pode ser surpreendente, pois os principais responsáveis não são necessariamente os centros de dados. Segundo o Carbon Trust, o equipamento utilizado pelo espectador representava mais de metade das emissões associadas a uma hora de streaming na Europa. A televisão era particularmente importante devido ao seu consumo elétrico e ao tamanho crescente dos ecrãs. A IEA chegou a uma conclusão semelhante, estimando que os dispositivos dos utilizadores representavam cerca de 72% da energia consumida durante o streaming de vídeo, contra 23% atribuídos à transmissão de dados e apenas 5% aos centros de dados.
O equipamento utilizado representava mais de metade das emissões associadas a uma hora de streaming na Europa, sendo a televisão particularmente importante devido ao seu consumo elétrico e ao tamanho crescente dos ecrãs.
Assim, ver exatamente o mesmo filme num smartphone, num computador portátil ou numa televisão de grandes dimensões não produz necessariamente o mesmo consumo. O Carbon Trust estimou que uma televisão de 50 polegadas consumia aproximadamente cem vezes mais eletricidade do que um smartphone durante a reprodução de um vídeo. O tamanho e a eficiência do equipamento podem, portanto, ser mais relevantes para a pegada individual do que a quantidade de dados transmitidos.
Também a resolução merece alguma atenção. É intuitivo pensar que assistir a um filme em 4K deve consumir muito mais energia do que fazê-lo em definição standard, porque o volume de dados transmitido é bastante superior. Mas o Carbon Trust verificou que reduzir a qualidade de HD para SD provocava apenas uma pequena diminuição das emissões totais numa ligação fixa. A razão volta a estar na infraestrutura: routers, redes e muitos equipamentos permanecem em funcionamento e consomem energia mesmo quando transportam menos dados.
Tal não significa que a resolução seja sempre irrelevante. Um estudo publicado em 2024 no Journal of Industrial Ecology concluiu por seu lado que aumentar a resolução de vídeo pode elevar o consumo total de energia, alertando simultaneamente para as limitações dos cálculos baseados apenas na energia por gigabyte. A tecnologia de acesso, o dispositivo, a eficiência da rede e a forma como o conteúdo é codificado condicionam o resultado.
A escala é outro elemento essencial. Algumas dezenas de gramas de CO2 associadas a uma hora de vídeo constituem uma pegada reduzida quando comparada com muitas atividades quotidianas. Mas o streaming é utilizado por milhares de milhões de pessoas e durante muitas horas. A IEA considera que o crescimento do vídeo online, dos videojogos na nuvem e de outros serviços intensivos em dados continuará a aumentar fortemente a procura de tráfego nas redes. Mesmo quando cada unidade de dados se torna mais eficiente, o crescimento do consumo pode absorver parte desses ganhos.
Ver exatamente o mesmo filme num smartphone, num computador portátil ou numa televisão de grandes dimensões não produz necessariamente o mesmo consumo.
Há ainda impactos que ultrapassam a eletricidade consumida durante a transmissão. Televisões, smartphones, computadores, routers e servidores precisam de ser fabricados, o que implica extração de minerais, utilização de materiais, energia industrial e transporte. Prolongar a vida útil dos equipamentos pode, por isso, ser ambientalmente tão ou mais relevante do que pequenas alterações na utilização quotidiana do streaming. O próprio Carbon Trust salienta que a sua estimativa de 55 gramas por hora dizia respeito essencialmente às emissões operacionais e não representava toda a pegada de ciclo de vida dos equipamentos envolvidos.
No caso da música, o consumo tende a ser menor do que no vídeo, sobretudo porque o volume de dados transmitido é muito inferior e pode ser utilizado um equipamento de baixo consumo, como um smartphone. Ainda assim, também não é nulo: servidores, redes, router e dispositivo continuam a necessitar de eletricidade. Quanto maior for o número de horas de utilização, maior será o efeito acumulado.
A alegação de que o streaming também polui é assim verdadeira, embora a sua dimensão seja frequentemente mal interpretada. Ver filmes, séries ou vídeos e ouvir música online implica consumo de eletricidade e emissões associadas à infraestrutura digital e aos equipamentos utilizados. Mas as melhores estimativas disponíveis não sustentam a ideia de que cada hora de streaming tenha uma pegada climática particularmente elevada quando comparada com muitas outras atividades quotidianas.
Mais importante ainda, os centros de dados não são necessariamente os principais responsáveis pelo impacto de cada sessão. O dispositivo utilizado, a duração do consumo e a origem da eletricidade podem ter um peso maior. A natureza digital do streaming não o torna ambientalmente invisível, mas também não justifica algumas das estimativas alarmistas que durante anos circularam sobre a sua pegada de carbono.