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Miguel Judas

O risco de incêndios extremos está a aumentar em Portugal?

9 Aug 2026 - 10:00
Os incêndios que têm devastado diferentes regiões do país nos últimos anos alimentaram a ideia de que Portugal enfrenta um risco crescente de fogos extremos. As alterações climáticas são frequentemente apontadas como a principal explicação, mas até que ponto essa relação é confirmada pela ciência? E que influência têm outros fatores, como a gestão da paisagem, a ocupação do território ou a acumulação de combustível vegetal?

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Em Portugal, a evolução recente confirma que o problema não reside necessariamente num crescimento contínuo do número de ocorrências de incêndio. Aliás, segundo o Relatório de Atividades de 2025 do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR), o país registou 8252 incêndios rurais, o terceiro valor mais baixo desde 2001 e cerca de 16% inferior à média observada entre 2018 e 2024. Apesar disso, apenas 44 incêndios foram responsáveis por cerca de 91% da área ardida nacional. Ou seja, os números mostram como um conjunto reduzido de ocorrências, quando coincide com condições especialmente adversas, pode concentrar a quase totalidade dos danos.

O mesmo relatório indica que 2025 foi o quinto ano meteorologicamente mais severo desde 2001 e registou 29 dias consecutivos classificados com perigo de incêndio “Máximo”, “Extremo” ou “Excecional”. Esta combinação ajuda a perceber por que razão a redução do número de ignições não elimina a possibilidade de épocas muito destrutivas. O desafio está cada vez mais associado à capacidade de prevenir e enfrentar um pequeno número de incêndios de grande dimensão, elevada intensidade e comportamento extremo.

Esta concentração dos danos não é exclusiva de 2025. Um estudo publicado em 2024 na revista científica Fire, baseado na evolução da atividade dos incêndios em Portugal continental, mostra que quase metade da área ardida analisada se concentrou apenas nos anos de 2003, 2005 e 2017. Em contrapartida, o número de incêndios registado nesses três anos representou uma parcela bastante menor do total. A área queimada pode, portanto, aumentar de forma abrupta durante períodos excecionais, sem que exista uma subida proporcional do número de ocorrências.

Um relatório da OCDE concluiu que concluiu que o agravamento do risco de incêndio em Portugal resulta da interação entre alterações climáticas, mudanças no uso do solo, transformação da cobertura vegetal e práticas insuficientes de gestão da paisagem.

Para compreender esta aparente contradição, é necessário distinguir as ignições do comportamento adquirido pelo fogo depois de começar. Num relatório dedicado a Portugal, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) concluiu que o agravamento do risco resulta da interação entre alterações climáticas, mudanças no uso do solo, transformação da cobertura vegetal e práticas insuficientes de gestão da paisagem.

O abandono rural ocorrido ao longo das últimas décadas reduziu a presença de áreas agrícolas e florestas geridas, permitindo a acumulação de vegetação inflamável e aumentando a continuidade do combustível. Ao mesmo tempo, as ondas de calor e as secas diminuem a humidade da vegetação, tornando-a mais suscetível à ignição e à propagação das chamas. Condições de vento forte, baixa humidade atmosférica e temperaturas elevadas podem depois acelerar o fogo e dificultar a intervenção dos meios de combate.

A importância da meteorologia foi também analisada por investigadores do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, da Universidade de Coimbra e da Universidade NOVA de Lisboa. O estudo sobre as condições meteorológicas associadas aos grandes incêndios ocorridos em Portugal entre 1980 e 2018 identificou episódios extremos em 2003, 2005 e 2017 e relacionou os acontecimentos de 2017 com circunstâncias atmosféricas particularmente invulgares. O incêndio de Pedrógão Grande, em junho desse ano, foi influenciado pela interação entre sistemas convectivos e as frentes de fogo, enquanto os incêndios de outubro ocorreram depois de um período seco prolongado e apresentaram velocidades de propagação excecionais.

O incêndio de Pedrógão Grande, em junho de 2017, foi influenciado pela interação entre sistemas convectivos e as frentes de fogo, enquanto os de outubro desse ano ocorreram depois de um período seco prolongado e apresentaram velocidades de propagação excecionais.

Isto não significa que a meteorologia seja o único fator determinante. A quantidade, a disposição e a continuidade da vegetação condicionam a energia libertada e a facilidade com que as chamas atravessam a paisagem. A topografia, a existência de povoações dispersas, a acessibilidade dos meios de socorro e o tipo de ocupação do solo também influenciam as consequências de cada ocorrência. O fogo resulta, assim, da conjugação entre condições meteorológicas, combustível disponível, características do território e atividade humana.

É por essa razão que a gestão da paisagem ocupa um lugar central na redução do risco. O relatório da OCDE refere que Portugal tem procurado diminuir a quantidade e a continuidade do combustível através de fogo controlado, faixas de gestão e mosaicos de parcelas tratadas à escala da paisagem. O documento considera igualmente necessárias a recuperação de atividades agrícolas e pastoris, a gestão ativa dos terrenos abandonados e a criação de paisagens menos contínuas e homogéneas. Estas medidas não impedem todas as ignições, mas podem limitar a velocidade de propagação e a intensidade atingida pelo fogo.

As alterações climáticas acrescentam uma dificuldade crescente a este processo. Uma revisão publicada na revista Annals of Forest Science, que analisou 23 estudos sobre a evolução futura do risco de incêndio no sul da Europa, conclui que o perigo meteorológico e a área ardida deverão aumentar ao longo deste século devido ao aquecimento global. Os autores salientam, contudo, que a dimensão dessa evolução continuará também dependente da disponibilidade de combustível, das respostas da vegetação, da gestão da paisagem e da atividade humana.

Para Portugal, as projeções reunidas pela OCDE apontam para um aumento do número de dias com perigo elevado ou extremo e para o prolongamento da época de incêndios.

Para Portugal, as projeções reunidas pela OCDE apontam para um aumento do número de dias com perigo elevado ou extremo e para o prolongamento da época de incêndios. Nas zonas mais vulneráveis, esta poderá crescer cerca de um mês até 2040. A presença mais frequente de vegetação seca durante períodos quentes e ventosos aumenta a probabilidade de um incêndio ultrapassar a capacidade de controlo, mas não determina antecipadamente quantas ignições ocorrerão nem qual será a área ardida em cada ano.

A alegação de que o risco de incêndios extremos está a aumentar em Portugal é assim verdadeira. A investigação científica e os dados oficiais mostram que Portugal enfrenta condições cada vez mais favoráveis ao desenvolvimento de incêndios extremos, impulsionadas pelo aumento das temperaturas, pelas secas mais frequentes e prolongadas e pelo alargamento da época de incêndios. No entanto, a evolução destes fenómenos não depende apenas das alterações climáticas, pois a quantidade e continuidade da vegetação, a gestão da paisagem, a ocupação do território, as ignições e a capacidade de prevenção e combate continuam a desempenhar um papel determinante na forma como cada incêndio evolui e nos impactos que provoca.