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Miguel Judas

“O número de mortes causadas por desastres naturais está a aumentar?”

15 Feb 2026 - 10:00
A perceção de que o número de mortes provocadas por desastres naturais está sempre a aumentar é recorrente sempre que uma catástrofe ocupa os noticiários. Mas os dados históricos globais mostram uma realidade mais complexa. A evolução das vítimas mortais depende não só da intensidade dos fenómenos naturais, mas também da preparação das sociedades, dos sistemas de alerta e da capacidade de resposta das autoridades.
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Uma das bases de dados mais utilizadas a nível internacional é a EM-DAT – Emergency Events Database, criada e mantida pelo Centre for Research on the Epidemiology of Disasters (CRED), um centro de investigação da Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, especializado em saúde pública e impactos de desastres. Segundo a análise de longo prazo apresentada pelo CRED, o número anual de mortes por desastres naturais tem mostrado uma tendência geral de diminuição ao longo do século XX e início do XXI, apesar de grandes variações entre anos marcados por eventos extremos de grande escala. Isto significa que, embora certos anos registem tragédias com muitas vítimas, a tendência de fundo não é de crescimento contínuo das mortes a nível global.

Esta leitura é confirmada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), a agência da ONU responsável pela cooperação científica internacional em matérias de meteorologia e clima, que no seu relatório Atlas of Mortality and Economic Losses from Weather, Climate and Water Extremes (1970–2019) sublinha como “o número de mortes registadas diminuiu ao longo das décadas, apesar do aumento do número de desastres registados”, devido a uma melhoria significativa nos sistemas de alerta precoce e na gestão do risco. Esta organização acrescenta ainda que, na década de 1970, a média anual de mortes por desastres meteorológicos, climáticos e hídricos ultrapassava as 50 mil, enquanto na década de 2010 esse valor desceu para menos de 20 mil por ano.

Sergundo a Agência Meteorológica Mundial, na década de 1970, a média anual de mortes por desastres meteorológicos, climáticos e hídricos ultrapassava as 50 mil, enquanto na década de 2010 esse valor desceu para menos de 20 mil por ano.

O Gabinete das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNDRR), organismo intergovernamental que coordena a implementação do Quadro de Sendai para a Redução do Risco de Desastres, apresenta conclusões semelhantes. No relatório Human Cost of Disasters, esta agência afirma que “o número de pessoas afetadas por desastres aumentou, mas a mortalidade relativa tem diminuído graças a melhorias na preparação e nos sistemas de aviso”. Em termos simplistas, pode-se concluir que mais pessoas vivem hoje em zonas de risco, mas a probabilidade de morrer num desastre é, em média, menor do que há algumas décadas.

Do ponto de vista científico, o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), o órgão científico da ONU que reúne investigadores de todo o mundo e cuja missão é avaliar o conhecimento sobre alterações climáticas, alerta no relatório do Grupo de Trabalho II do Sexto Relatório de Avaliação que o aquecimento global está a aumentar a frequência e intensidade de certos fenómenos extremos, como ondas de calor e precipitação intensa. No entanto, o IPCC também refere que os impactos humanos dependem fortemente da vulnerabilidade social e da capacidade de adaptação, notando que “a redução do risco de desastres e os sistemas de alerta precoce têm sido eficazes na diminuição da mortalidade em muitos contextos”.

Isto ajuda a explicar porque é que, mesmo com sinais de agravamento de alguns extremos climáticos, o número global de mortes não segue uma trajetória simples de subida. Catástrofes históricas como os grandes ciclones do Bangladesh nos anos 1970 causaram centenas de milhares de mortes, enquanto eventos semelhantes hoje, embora ainda devastadores, tendem a provocar menos vítimas graças a evacuações atempadas e melhores previsões meteorológicas.

Em Portugal, o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge tem documentado um excesso de mortalidade associado a ondas de calor, lembrando assim, mais uma vez, que o impacto dos extremos térmicos se faz sentir sobretudo entre as camadas mais vulneráveis da população.

No caso de Portugal, os dados também refletem esta complexidade. A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), organismo público português responsável pela coordenação da proteção civil, tem sublinhado em relatórios e balanços operacionais que a melhoria dos sistemas de aviso à população e dos planos de emergência tem reduzido o número de vítimas mortais em cheias e tempestades, comparativamente a décadas anteriores.

Ainda assim, fenómenos como ondas de calor continuam a representar um risco significativo, conforme sustenta o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), ao documentar excessos de mortalidade associados a ondas de calor, lembrando assim, mais uma vez, que o impacto dos extremos térmicos se faz sentir sobretudo entre as camadas mais vulneráveis da população.

A nível europeu, a Agência Europeia do Ambiente (EEA) estima que as ondas de calor já são responsáveis por dezenas de milhares de mortes adicionais em anos extremos, mesmo em países com sistemas de saúde desenvolvidos. Estes números mostram que a redução global da mortalidade por desastres não elimina riscos crescentes associados a certos fenómenos agravados pelas alterações climáticas.

Mesmo assim, a afirmação de que “o número de mortes por desastres naturais está a aumentar” não é, à escala global e de longo prazo, sustentada pelos dados históricos. As estatísticas mostram antes uma tendência de diminuição da mortalidade, graças a melhores sistemas de previsão, alerta e resposta. No entanto, esta evolução positiva convive com novos desafios: o aumento da exposição populacional e o agravamento de alguns extremos climáticos significam que, sem investimento contínuo em adaptação e proteção civil, os ganhos alcançados podem ser postos em causa.