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Miguel Judas

O mundo está mais perto de cumprir as metas climáticas previstas no Acordo de Paris?

4 Jan 2026 - 10:00
À entrada de um novo ano, regressa a pergunta que define a urgência climática global: vamos ainda a tempo de inverter o aumento da temperatura global até aos 1,5 °C considerados um limite seguro pela comunidade científica? As promessas políticas acumulam-se, mas os relatórios mais recentes mostram que o caminho entre os compromissos e a realidade permanece ainda demasiado longo.
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Uma das principais fontes para dar resposta a esta questão é o Emissions Gap Report, um documento produzido anualmente pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP), a agência das Nações Unidas responsável por coordenar a política ambiental global e apoiar países na implementação de ações climáticas. Segundo o relatório mais recente, divulgado já este ano, nem mesmo com todas as Contribuições Nacionalmente Determinadas (os compromissos de redução de emissões voluntários apresentados pelos países) implementadas na íntegra, o mundo deixa de estar a caminho de um aquecimento de 2,3–2,5 °C acima dos níveis pré-industriais no final deste século. Ou seja, muito acima dos 1,5 °C considerados um limite seguro pela comunidade científica no Acordo de Paris.

Este pequeno abrandamento nas projeções de aquecimento em relação às edições anteriores do relatório reflete, em parte, apenas ajustes metodológicos e não ganhos substanciais na política climática. A própria UNEP explica que “as atualizações metodológicas representam cerca de 0,1 °C da melhoria”, mas também que “a retirada prevista de um grande país como os Estados Unidos do Acordo de Paris pode eliminar esse ganho”. A conclusão é que as promessas têm feito pouca diferença prática, com a distância entre o que foi prometido e o que é necessário a permanecer enorme.

Mesmo que todos os compromissos nacionais fossem cumpridos, o mundo ainda estaria a emitir cerca de 26–29 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalentes (GtCO₂e) a mais do que o aceitável em 2030.

Este cenário é corroborado por outra fonte independente de avaliação climática, o Climate Action Tracker (CAT), um consórcio científico internacional associado ao Climate Analytics (com sede na Alemanha) e ao NewClimate Institute (com sede nos Países Baixos). Ao comparar as emissões esperadas segundo políticas e compromissos atuais com as trajetórias compatíveis com os objetivos de 1,5 °C, o CAT conclui que mesmo que todos os compromissos nacionais fossem cumpridos, o mundo ainda estaria a emitir cerca de 26–29 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalentes (GtCO₂e) a mais do que o aceitável em 2030, e que um desvio semelhante persistiria ainda em 2035.

Apesar de estas projeções poderem parecer um sinal de alguma aproximação às metas, por serem mais otimistas que cenários de anos anteriores, é crucial notar que tal não significa que o objetivo de 1,5 °C esteja ao alcance, como é reconhecido pelo secretariado da Convenção‑Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), a agência internacional das Nações Unidas responsável por coordenar a política climática global e avaliar os compromissos nacionais. De acordo com o mais recente Relatório de Síntese das Contribuições Nacionalmente Determinadas, divulgado em outubro por esta agência, “as novas NDCs mostram uma redução projetada das emissões de gases com efeito de estufa de cerca de 17 % abaixo dos níveis de 2019 até 2035. Um avanço, mas ainda insuficiente para conter o aquecimento dentro de um limite seguro”.

O mesmo relatório salienta que os sucessivos atrasos na implementação ou políticas insuficientes continuam a condicionar negativamente o trajeto global, sublinhando que apenas reduções de emissões muito mais rápidas e profundas permitirão aproximar o mundo das metas climáticas definidas no Acordo de Paris.

A trajetória atual ainda aponta para um aumento substancial da temperatura média global, muito acima do limite de 1,5 °C.

Estas conclusões alinham-se também com a análise da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económicos (OCDE), uma instituição pública internacional com sede em França que reúne países industrializados para análise de políticas públicas. No seu relatório Climate Action Monitor de 2025, a OCDE enfatiza que muitos países não estão no bom caminho nem para cumprir as suas metas nacionais de 2030, apontando uma discrepância entre as emissões atuais e as trajetórias necessárias para atingir os objetivos acordados.

Uma análise mais técnica dos orçamentos de carbono – a quantidade total de dióxido de carbono que ainda pode ser emitida antes de se ultrapassar um determinado limite de aquecimento – reforça esta avaliação pessimista. Um estudo académico publicado em 2025 sobre a disponibilidade de dados de emissões, através da plataforma Climate TRACE, destaca a rapidez com que o mundo se aproxima do fim do orçamento de carbono compatível com 1,5 °C. A investigação, que sintetiza dados globais detalhados de emissões, sublinha a importância de dados fiáveis para orientar políticas eficazes, indicando assim que a atual trajetória de emissões continua a ultrapassar os limites seguros.

Segundo a OCDE, muitos países não estão no bom caminho nem para cumprir as suas metas nacionais de 2030, apontando uma discrepância entre as emissões atuais e as trajetórias necessárias para atingir os objetivos acordados.

No entanto e conforme assinala o UNEP, mesmo uma trajetória que ultrapasse temporariamente os 1,5 °C pode ser “limitada e temporária”, se houver cortes de emissões rápidos e profundos posteriores, reduzindo a dependência de tecnologias de remoção de carbono ainda incertas. Esta esperança depende todavia de uma ação política tão imediata quanto profunda, algo que, até agora, as políticas nacionais e as NDCs atualizadas ainda não refletem de forma convincente.

Em suma, embora haja sinais de algum progresso nas promessas climáticas internacionais, a evidência de relatórios oficiais e análises independentes não sustenta a alegação de que o mundo esteja agora no caminho certo para cumprir as metas climáticas globais. A trajetória atual ainda aponta para um aumento substancial da temperatura média global, muito acima do limite de 1,5 °C. Apenas com reduções de emissões sem precedentes e políticas mais ambiciosas será possível aproximar-se da meta climática consensual internacional.