Um dos impactos das caminhadas na natureza mais estudados é o chamado “trampling”, ou pisoteio da vegetação e do solo causado pelo uso recreativo de trilhos.
Uma revisão sistemática amplamente citada, elaborada pelo Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido, um instituto de investigação independente focado em ciência ambiental, biodiversidade e ecossistemas terrestres e de água doce, que analisou centenas de estudos experimentais sobre o tema, chegou à conclusão que “o pisoteio da vegetação resultante das caminhadas recreativas pode afetar negativamente habitats naturais, levando à perda de cobertura vegetal e à degradação das comunidades de plantas”.
A análise sintetizou resultados de dezenas de experiências de campo e concluiu que os diferentes tipos de vegetação têm níveis muito distintos de resistência e capacidade de recuperação após o pisoteio.
Outros estudos confirmam que o impacto pode ser significativo, sobretudo em ecossistemas frágeis. Um exemplo é um ensaio de campo elaborado liderado por cientistas ligados à Academia de Ciências Eslovaca em parceria com diversas universidades da Europa Central e outras instituições públicas dedicadas à investigação em ecologia e conservação de habitats.
No estudo, realizado nos Alpes dos Cárpatos (Montes Tatras), os investigadores submeteram parcelas de vegetação alpina a diferentes níveis de pisoteio. Os resultados mostram que o aumento da intensidade de passagem de caminhantes levou a uma “diminuição significativa da cobertura vegetal e da abundância de líquenes e musgos”, organismos particularmente sensíveis à perturbação humana. Os autores acrescentam ainda que “as comunidades vegetais alpinas podem necessitar de vários anos para recuperar após episódios de pisoteio”, sublinhando a vulnerabilidade destes habitats.
Estudos realizados no terreno chegaram à conclusão que “o pisoteio da vegetação resultante das caminhadas recreativas pode afetar negativamente habitats naturais, levando à perda de cobertura vegetal e à degradação das comunidades de plantas”.
A compactação do solo é outro efeito documentado. Um estudo realizado pelo departamento de engenharia ambiental da Universidade de Nigde, na Turquia, analisou os efeitos de diferentes níveis de pisoteio humano num parque natural nas montanhas de Aladag, também na Turquia, com os resultados a demonstraram que o aumento da intensidade de passagem de visitantes elevou significativamente a resistência do solo à penetração e reduziu a sua porosidade.
Segundo os autores, “a cobertura relativa da vegetação diminuiu significativamente após níveis mais elevados de pisoteio”, demonstrando que o uso recreativo pode alterar tanto a vegetação como as propriedades físicas do solo.
Investigação mais recente tem analisado também o efeito dos equipamentos utilizados em caminhadas. Um artigo publicado no ano passado na revista Environmental Challenges avaliou como diferentes tipos de equipamento como bastões de caminhada ou os tipos de calçado, influenciam a erosão dos trilhos. O estudo, realizado por investigadores universitários japoneses especializados em geomorfologia e ciência do solo, concluiu que “o tráfego pedestre constitui um fator significativo de erosão da superfície do solo ao longo dos trilhos”, podendo determinados equipamentos aumentar a dispersão lateral do solo e acelerar a degradação do caminho.
O impacto das caminhadas depende sobretudo da intensidade de uso, da fragilidade do ecossistema e da gestão dos trilhos.
Isto não significa no entanto que caminhar seja necessariamente incompatível com a conservação da natureza, porque como estes estudos também concluíram, o impacto depende sobretudo da intensidade de uso, da fragilidade do ecossistema e da gestão dos trilhos.
Além disso, as características das comunidades vegetais são determinantes para a sua capacidade de resistir e recuperar do pisoteio. Em muitos casos, a criação de trilhos bem definidos e a limitação do acesso a áreas sensíveis permitem reduzir significativamente os efeitos ecológicos.
Assim, a ideia de que as caminhadas têm impacto ambiental “insignificante” não é totalmente correta. A evidência científica mostra que o uso recreativo pode alterar a vegetação, compactar o solo e acelerar processos de erosão, sobretudo em habitats sensíveis. Ao mesmo tempo, quando bem gerida, a atividade pode coexistir com a conservação da natureza. Como demonstram décadas de investigação em ecologia recreativa, o impacto das caminhadas depende menos do simples ato de caminhar e mais de como, onde e com que intensidade as pessoas utilizam os trilhos.