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Teresa Lencastre

O gás natural tem impactos sobre a saúde e o meio ambiente?

23 Nov 2024 - 04:36
Vários estudos alertam para os impactos do uso de gás natural nas cozinhas, não só para a saúde humana, mas também para o ambiente. Outras vozes contrariam esse discurso, reforçando que se trata de uma alternativa mais limpa do que outros combustíveis fósseis.
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Entre os diversos trabalhos sobre esta matéria, vale a pena referir um estudo da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, publicado na revista Environmental Science & Technology, que alerta para os riscos ambientais e para a saúde decorrentes do uso do gás natural nas cozinhas.

A investigação diz diferenciar-se de estudos anteriores, por abordar não só as emissões de poluentes durante a combustão, mas também as que ocorrem quando os aparelhos estão desligados. Os autores sugerem que os fogões a gás natural contribuem mais para a crise climática do que se imagina, uma vez que produzem metano – “um potente gás com efeito de estufa” – mesmo quando não estão a ser usados.

“As fugas de metano dos fogões dentro das casas dos EUA têm o mesmo impacto climático que cerca de 500 mil automóveis a gasolina e os fogões podem expor as pessoas a poluentes que provocam doenças respiratórias”, lê-se em nota de imprensa da universidade.

Segundo uma investigação da Universidade de Stanford, nos EUA, “as fugas de metano dos fogões dentro das casas dos EUA têm o mesmo impacto climático que cerca de 500 mil automóveis a gasolina”.

Outro estudo vai mais longe, explorando a ligação entre o uso de gás nas cozinhas e a mortalidade. O trabalho, publicado no mês passado pela Universidade Jaume I, em Espanha, estima que os aparelhos a gás estão a contribuir para a morte prematura de cerca de 40 mil europeus por ano.

Em Portugal, contabilizam-se 105 óbitos prematuros anuais, ainda que o país não figure entre os mais afetados. O problema está na exposição ao dióxido de azoto (NO2), emitido durante a combustão.

“Já em 1978, soubemos pela primeira vez que a poluição por NO2 é muitas vezes maior nas cozinhas que utilizam gás do que nos fogões elétricos. Mas só agora conseguimos calcular o número de vidas que estão a ser ceifadas”, afirma a autora principal, Juana Maria Delgado-Saborit, citada em comunicado.

“A extensão do problema é muito pior do que pensávamos, com a nossa modelação a sugerir que uma casa média em metade da Europa ultrapassa os limites da Organização Mundial de Saúde (OMS). A poluição do ar exterior constitui a base para essas infrações, mas são os fogões a gás que empurram as casas para a zona de perigo”, explica.

Com base em dados recolhidos no Porto e em Aveiro, um estudo realizado pela Universidade Fernando Pessoa reitera que a presença de gás natural nas cozinhas está associada a uma maior exposição ao NO2 em espaços fechados”.

Investigadores em Portugal também têm explorado este tema. É o caso de Nelson Barros, da Universidade Fernando Pessoa, que publicou, em setembro deste ano, um artigo sobre o uso doméstico de gás natural na revista Applied Sciences. Com base em dados recolhidos no Porto e em Aveiro, o estudo reitera que a presença de gás natural nas cozinhas está associada a uma maior exposição ao NO2 em espaços fechados.

“Os resultados revelam que a exposição média diária ao NO2 é mais elevada nos lares de Aveiro, uma cidade menos poluída, onde o gás natural é habitualmente utilizado para cozinhar do que nas casas da cidade do Porto onde, tradicionalmente a prática culinária é apoiada em fogões e fornos elétricos”, diz o investigador ao Green eFact.

Para Nelson Barros, a investigação expõe um paradoxo com “implicações políticas significativas”: cidades com melhor qualidade do ar exterior, como Aveiro, podem ter residentes mais expostos à poluição em ambientes internos do que cidades mais poluídas ao ar livre, como o Porto. Por esse motivo, diz o investigador, é necessária a adoção de políticas focadas não só na poluição exterior, mas também na contaminação interior.

Um relatório da consultora ambiental Catalyst Environmental Solutions sugere por outro lado que não é propriamente o combustível que polui o ar interior, mas antes o tipo de alimento cozinhado.

Outros estudos, contudo, contrariam a ideia de que o gás natural é perigoso. Um relatório da consultora ambiental Catalyst Environmental Solutions, por exemplo, sugere que não é propriamente o combustível que polui o ar interior, mas antes o tipo de alimento cozinhado. Além disso, defende que a ventilação adequada é eficaz para mitigar os riscos para a saúde.

“Embora relatos recentes na comunicação social sugiram que estudos estão a demonstrar, cada vez mais, uma ligação entre cozinhar a gás e doenças respiratórias, a nossa análise desses e de outros estudos não apoia essa narrativa”, diz Dan Tormey, principal autor do relatório, em nota de imprensa.

“Concluímos que o conjunto de investigações sobre a prática de cozinhar e a qualidade do ar interior destaca a importância de uma ventilação adequada, independentemente de se utilizar um fogão elétrico ou a gás.”

Outro estudo, publicado na revista Global Epidemiology, aborda a ligação entre cozinhar a gás e problemas respiratórios em crianças, questionando a robustez das evidências científicas disponíveis. A investigação inclui uma revisão de múltiplos estudos e dá conta de limitações metodológicas, que comprometem a fiabilidade das conclusões.

“A nossa avaliação sistemática (…) revela que uma grande parte dos estudos realizados até à data está sujeita a múltiplas fontes de enviesamento e imprecisão”, escrevem os autores.

Outro estudo, publicado na revista Global Epidemiology, aborda a ligação entre cozinhar a gás e problemas respiratórios em crianças, questionando a robustez das evidências científicas disponíveis.

Já a Floene – descrita no próprio site como “a maior rede de distribuição de gás em Portugal” – assegura que “a adesão à rede de gás natural é uma das soluções de energia mais seguras para as famílias portuguesas”. Em declarações ao Green eFact, a empresa demarca-se das distribuidoras de gás engarrafado, que comercializam botijas de gás de petróleo liquefeito (GPL) e não gás natural canalizado.

“As instalações de gás natural passam por uma rigorosa inspeção de toda a instalação (…) o que reforça a segurança da mesma. Ao contrário do que acontece com todas as instalações de gás engarrafado, que não passam por este controle de segurança”, refere uma fonte oficial da Floene.

Por outro lado, a distribuidora garante oferecer “uma alternativa mais limpa” do que outros combustíveis fósseis: “ao ligarmos à rede um cliente que consome gás de garrafa, estamos a reduzir já hoje 16% de emissões de carbono, sendo este um primeiro passo muito importante para a descarbonização da economia.”

A mesma fonte defende que a “combustão de gás natural não apresenta riscos para a saúde”, sendo “necessário o cumprimento de todas as normas e especificações técnicas” de instalação, incluindo requisitos de ventilação dos espaços e a correta manutenção e utilização dos equipamentos de queima, como esquentadores, caloríferos ou fogões.

Questionada sobre o controlo de NO2 nas cozinhas dos portugueses, a Floene responde que “os operadores da rede de distribuição cumprem todos os requisitos regulamentares e legais” e que não está “previsto neste enquadramento a monitorização ou auditoria sobre os níveis de NO2 nas casas dos clientes”.