Uma das fontes mais citadas na narrativa que de que o continente asiático é o maior poluidor dos oceanos foi publicada em 2017 na revista Environmental Science & Technology. Segundo um estudo liderado pelo cientista alemão Christian Schmidt para a American Chemical Society, uma organização ligada à Universidade de Nova Iorque, que apoia a investigação científica na área da química, seriam dez os rios que transportariam a maioria do plástico de origem fluvial para o mar.
“Mais de 90 % das entradas de plástico fluvial nos oceanos provêm de apenas dez rios”, pode ler-se no artigo, sendo oito situados na Ásia e dois em África. Ou seja, em regiões densamente povoadas e com gestão de resíduos bastante limitada. Este resultado foi amplamente interpretado como prova de que a poluição oceânica seria essencialmente asiática.
Investigações posteriores, no entanto, refinaram de forma significativa esta estimativa, como aconteceu com um estudo global desenvolvido em 2021 pela ONG holandesa sem fins lucrativos The Ocean Clean Up, que desenvolve tecnologias avançadas para remover a poluição por plástico dos oceanos e rios e cujo objetivo principal é limpar a “Grande Ilha de Lixo do Pacífico”, utilizando barreiras flutuantes para recolher resíduos e visando remover 90% do plástico flutuante até 2040.
De acordo com este estudo, publicado na Science Advances, são mais de mil os rios que contribuem para cerca de 80 % das emissões fluviais de plástico para o oceano, distribuídos por todos os continentes. Os autores observam mesmo que “as emissões de plástico para o oceano são generalizadas globalmente e não dominadas por um pequeno número de rios”. E embora muitos dos maiores fluxos individuais ocorram na Ásia, o fenómeno é global, envolvendo bacias hidrográficas em África, América Latina e até Europa.
De acordo com um estudo da ONG holandesa Ocean Cleanup, são mais de mil os rios que contribuem para cerca de 80 % das emissões fluviais de plástico para o oceano, distribuídos por todos os continentes.
O relatório Global Plastics Outlook da OCDE também confirma esta leitura mais abrangente, demonstrando que a geração de resíduos plásticos é fortemente correlacionada com os níveis de consumo – e não apenas com a gestão de resíduos. Aliás, segundo a OCDE, os denominados países de alto rendimento, sobretudo na América do Norte e na Europa, geram muito mais resíduos plásticos per capita do que a maioria dos países asiáticos. O documento indica ainda que os países da OCDE, apesar de concentrarem apenas cerca de 9 % da população mundial, são responsáveis por aproximadamente metade dos resíduos plásticos gerados no planeta.
Outra dimensão frequentemente ignorada é a do comércio internacional de resíduos. Durante décadas, grandes quantidades de resíduos plásticos gerados em países desenvolvidos foram exportadas para países asiáticos para reciclagem ou eliminação. O relatório Global Waste Trade do Programa das Nações Unidas para o Ambiente documenta que, antes das restrições chinesas de 2018, a China recebia cerca de metade do plástico exportado mundialmente.
O relatório nota que “os fluxos de resíduos seguem frequentemente dos países de alto rendimento para países com menor capacidade de gestão”, o que significa que parte da poluição observada na Ásia tem origem em consumo externo.
Apesar da perceção geral de que a Ásia é o principal continente responsável pelo lixo nos oceanos, os dados compilados pela Agência Europeia do Ambiente mostram uma realidade mais complexa.
Apesar da perceção geral de que a Ásia é o principal continente responsável pelo lixo nos oceanos, os dados compilados pela Agência Europeia do Ambiente (AEA), no relatório Da fonte ao mar – A história oculta do lixo marinho, mostram uma realidade mais complexa. O documento indica que, embora vários rios asiáticos transportem grandes quantidades de resíduos plásticos para o mar – como é o caso do rio Yangtzé na China ou do Ganges na Índia –, a poluição marinha global não pode ser atribuída a um único continente.
A própria AEA volta a lembrar que os países da OCDE geram cerca de metade dos resíduos plásticos globais, evidenciando que a maior parte do lixo plástico não está confinada a qualquer região específica.
Além disso, cerca de 80 % do lixo marinho europeu tem origem terrestre, com predominância de pequenas embalagens e resíduos de uso diário, o que mais uma vez mostra que os padrões de consumo e a gestão de resíduos, e não apenas a localização geográfica, são determinantes para a poluição.
Ou seja, que a poluição marinha é um fenómeno global, envolvendo tanto países asiáticos como europeus e norte-americanos, não se podendo portanto afirmar que a Ásia seja, isoladamente, “o maior poluidor dos oceanos”.