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Miguel Judas

O bloqueio de Ormuz aumenta as emissões globais de CO₂?

3 May 2026 - 10:00
Com o bloqueio do Estreito de Ormuz a prolongar-se há várias semanas, na sequência do agravamento do conflito de Estados Unidos e Israel com o Irão, o impacto no abastecimento energético global também já há muito se faz sentir. Entre navios retidos, rotas desviadas e preços em subida, cresce também a preocupação com as consequências ambientais desta crise.
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O bloqueio do Estreito de Ormuz, na sequência do conflito de Estados Unidos e Israel com o Irão deixou de ser um cenário hipotético para se tornar uma realidade com impacto direto nos mercados energéticos globais. Nas últimas semanas, o tráfego marítimo nesta via estratégica – por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial – sofreu uma quebra acentuada ou mesmo interrupções quase totais, com navios retidos ou forçados a inverter rota. Perante este contexto, surge uma questão central do ponto de vista ambiental: estará este bloqueio a provocar um aumento das emissões globais de dióxido de carbono (CO₂)?

Segundo os dados da U.S. Energy Information Administration, o organismo público norte-americano responsável pela análise de mercados energéticos, o Estreito de Ormuz é um dos principais pontos de estrangulamento do comércio mundial de energia, com cerca de 20% do petróleo global a transitar por esta rota. E uma perturbação nesta escala traduz-se imediatamente em menor oferta disponível e aumento de preços, como se confirmou nas últimas semanas.

O Estreito de Ormuz é um dos principais pontos de estrangulamento do comércio mundial de energia, com cerca de 20% do petróleo global a transitar por esta rota.

Contudo, um choque desta natureza não tem um efeito automático nas emissões globais, como sublinha a Agência Internacional de Energia (AIE) no seu último relatório sobre Eficiência Energética, publicado em 2025, os aumentos abruptos no preço da energia tendem a reduzir a procura e que, ao mesmo tempo, “o progresso da eficiência energética está a acelerar”. Em termos práticos, o bloqueio do estreito de Ormus poderá significar menos utilização de combustíveis fósseis e, portanto, uma redução temporária das emissões.

No entanto, este efeito é apenas uma parte da equação. De acordo com o Relatório para a Mitigação das Alterações Climáticas, publicado em 2022 pelo Painel Intergovernamental para Alterações Climáticas, as emissões dependem do tipo de energia utilizada e não apenas da quantidade consumida. Ou seja, “as emissões estão diretamente ligadas ao uso de combustíveis fósseis nos sistemas energéticos” e mudanças súbitas no abastecimento podem levar à substituição por fontes mais intensivas em carbono, alertam os peritos do organismo da ONU responsável pelas avaliações globais sobre alterações climáticas.

Esse fenómeno já foi observado em crises energéticas recentes, como salienta um relatório sobre emissões globais, igualmente publicado pela AIE, segundo o qual os aumentos no preço do gás natural levaram alguns países a recorrer mais ao carvão, contribuindo para o aumento das emissões. Como refere o documento, “a substituição do gás por carvão em vários mercados foi um fator importante no crescimento das emissões”. Este precedente é particularmente relevante no contexto atual, uma vez que um bloqueio prolongado de Ormuz pode levar a escolhas semelhantes, sobretudo em economias mais dependentes de combustíveis fósseis.

Em crises energéticas recentes, os aumentos no preço do gás natural levaram alguns países a recorrer mais ao carvão, contribuindo para o aumento das emissões.

Por outro lado, há também efeitos em sentido contrário, como defende a Comissão Europeia em estratégias como o plano REPowerEU, ao afirmar que choques no fornecimento de combustíveis fósseis podem acelerar a transição energética, incentivando investimentos em renováveis e maior eficiência. Estes efeitos, contudo, tendem a materializar-se no médio prazo, não tendo impacto imediato nas emissões globais.

Do ponto de vista científico, o consenso é que o impacto do bloqueio do Estreito de Ormuz nas emissões de CO₂ é incerto e depende de fatores concorrentes. Se o efeito dominante for a redução da procura devido ao aumento de preços, as emissões podem diminuir temporariamente. Se, pelo contrário, houver substituição por combustíveis mais poluentes, como o carvão, as emissões podem aumentar. E se a crise acelerar a transição energética, o impacto poderá ser neutro ou até positivo a longo prazo.

Assim, a afirmação de que “o bloqueio de Ormuz aumenta as emissões globais de CO₂” é enganadora. A evidência disponível não sustenta uma relação direta e automática. O que está em curso é um choque energético com eventuais efeitos ambíguos: pode reduzir consumo, mas também pode incentivar substituições mais poluentes. Em última análise, as emissões globais continuam a depender sobretudo de fatores estruturais como o mix energético, as políticas climáticas ou a evolução tecnológica e não apenas de um único evento geopolítico, por mais disruptivo que seja.