Circula nas redes sociais uma denominada “Declaração Mundial sobre o Clima”, assinada por mais de 1 600 alegados cientistas, entre os quais dois prémios Nobel, que afirma “não existir consenso científico sobre o aquecimento global resultar da ação humana”. Uma alegação negada não só pela ciência como pela aparente ligação à indústria petrolífera da entidade promotora do estudo, a Fundação de Inteligência Climática, sediada na Holanda.
Tem o pomposo nome de “Declaração Mundial sobre o Clima” e apresenta como garantia uma lista de mais de 1 600 investigadores de todo o mundo, incluindo dois Prémios Nobel, para afirmar que “não existe qualquer emergência climática”. O documento foi publicado em 2020 pela Fundação de Inteligência Climática (Clintel), uma organização sediada na Holanda e fundada por Guus Berkhout e Marcel Crok, respetivamente um geofísico aposentado ex-colaborador da petrolífera Shell e um jornalista.
Apesar de se apresentar como uma “fundação independente”, duas reportagens publicadas na Holanda, uma delas pela estação pública de televisão e rádio KRO-NCVR, demonstraram ligações entre a organização e a indústria petrolífera, prontamente negadas pela Clintel.
É um resumo deste texto que há pouco mais de um ano começou a circular pelas redes sociais, dando um suposto suporte científico a todas as teorias negacionistas e conspirativas, defensoras da inexistência de uma emergência climática e da responsabilidade humana nas cada vez mais evidentes alterações climáticas.
Um olhar mais em detalhe à lista de signatários, porém, revela que tal suporte não será, afinal, assim tão sólido. Segundo uma investigação da Agência France Press (AFP) “poucas das pessoas que assinaram o documento são cientistas da área” e “alguns têm vínculos com a indústria petrolífera e organizações negacionistas em relação ao aquecimento global”.
As assinaturas mais valiosas seriam as de dois cientistas galardoados com um Nobel, o noruegês Ivar Giaever, em 1973, “pelo trabalho sobre supercondutores”, e o americano John Clauser, em 2022, pelas suas “experiências com fotões emaranhados, estabelecendo a violação das desigualdades do Teorema de Bell” e pelo pioneirismo no que diz respeito à “ciência da informação quântica”. A nenhum dos dois, porém, é conhecido qualquer artigo sobre ciência climática.
Ainda de acordo com a AFP, “apenas dez dos signatários se apresentaram como climatologistas ou cientistas do clima”, ou seja, menos de 1 por cento do total, embora alguns se autodenominem “especialistas em paleoclimatologia e ciências atmosféricas”.
A lista inclui ainda 40 geofísicos, mais de uma centena de geólogos e cerca de duas centenas de engenheiros das mais diversas áreas, além de vários matemáticos e médicos. Há também pescadores, pilotos de avião, músicos, advogados e até um sommelier, bem como alguns representantes sindicais de trabalhadores do setor da energia.
Entre os signatários, sete são portugueses: um engenheiro químico, um cientista farmacêutico, um “empreendedor” nas áreas da energia e da mobilidade elétrica, um investigador agrário, um professor de engenharia eletrónica e informática, um engenheiro mecânico e professor de matemática e ainda uma cientista (na verdade americana), apresentada como uma das responsáveis pelo Portuguese Sea Level Project, uma organização sediada na Virgínia, que segundo o site jornalístico canadiano DeSmog, especializado em ação climática, terá ligações à CO2 Coalition, uma organização de lobby pelas energias fósseis.

Em suma, a referida declaração afirma “não haver qualquer consenso científico de que o ser humano é culpado pelo aquecimento global” até porque “o clima tem sofrido diversas variações desde sempre, com fases frias e quentes que se alternam naturalmente”.
A alegada “base científica” para estas conclusões cai no entanto por terra quando comparada com a do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), que reuniu 721 especialistas sobre o clima, oriundos de 90 países, que resultou no Sexto Relatório de Avaliação, publicado em três partes, cada uma com 3 mil páginas, entre agosto de 2021 e abril de 2022. É considerado a avaliação mais completa feita até hoje pelo conhecimento científico sobre alterações climáticas, e as conclusões não deixam qualquer dúvida: há uma evidência “inequívoca” de que o aquecimento do clima é resultante da ação humana, em especial a relacionada com a queima de combustíveis fósseis.
Um outro estudo da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado em abril deste ano, adverte que os últimos oito anos foram os mais quentes já registados, com o aumento do nível do mar e o aquecimento dos oceanos a atingir novos recordes. Segundo esta agência da ONU, “o agravamento das mudanças climáticas trouxe também mais secas, inundações e ondas de calor para várias partes do mundo, ameaçando vidas e meios de subsistência”.
A OMM destaca assim “a importância de investir no monitoramento climático e nos sistemas de alerta precoce para ajudar a mitigar os impactos humanitários do clima extremo”. O relatório também aponta que, atualmente, a tecnologia torna a transição para a energia renovável “mais barata e mais acessível que nunca”. E esse será um passo imprescindível para alterar a atual situação, pois, ainda segundo este documento, “as concentrações dos três principais gases do efeito estufa, que retêm o calor na atmosfera – dióxido de carbono, metano e óxido nitroso – atingiram níveis recordes em 2021 – o último ano com dados consolidados disponíveis – havendo indicações de um aumento contínuo em 2022.
Tudo isto contraria, portanto, a intitulada “Declaração Mundial sobre o Clima”, com bases científicas bastante aquém dos estudos acima citados. Além de ter poucos signatários ligados à área do clima, alguns têm até claras ligações à indústria petrolífera, o que segundo a tabela de fact-check do Green eFact a torna num documento “impreciso”.
