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Miguel Judas

Mais de mil cientistas garantem que o aquecimento global não existe?

30 Dec 2023 - 08:51
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Circula nas redes sociais uma denominada “Declaração Mundial sobre o Clima”, assinada por mais de 1 600 alegados cientistas, entre os quais dois prémios Nobel, que afirma “não existir consenso científico sobre o aquecimento global resultar da ação humana”. Uma alegação negada não só pela ciência como pela aparente ligação à indústria petrolífera da entidade promotora do estudo, a Fundação de Inteligência Climática, sediada na Holanda.
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Tem o pomposo nome de “Declaração Mundial sobre o Clima” e apresenta como garantia uma lista de mais de 1 600 investigadores de todo o mundo, incluindo dois Prémios Nobel, para afirmar que “não existe qualquer emergência climática”. O documento foi publicado em 2020 pela Fundação de Inteligência Climática (Clintel), uma organização sediada na Holanda e fundada por Guus Berkhout e Marcel Crok, respetivamente um geofísico aposentado ex-colaborador da petrolífera Shell e um jornalista.

Apesar de se apresentar como uma “fundação independente”, duas reportagens publicadas na Holanda, uma delas pela estação pública de televisão e rádio KRO-NCVR, demonstraram ligações entre a organização e a indústria petrolífera, prontamente negadas pela Clintel.

É um resumo deste texto que há pouco mais de um ano começou a circular pelas redes sociais, dando um suposto suporte científico a todas as teorias negacionistas e conspirativas, defensoras da inexistência de uma emergência climática e da responsabilidade humana nas cada vez mais evidentes alterações climáticas.

Um olhar mais em detalhe à lista de signatários, porém, revela que tal suporte não será, afinal, assim tão sólido. Segundo uma investigação da Agência France Press (AFP) “poucas das pessoas que assinaram o documento são cientistas da área” e “alguns têm vínculos com a indústria petrolífera e organizações negacionistas em relação ao aquecimento global”.

A Declaração Mundial sobre o Clima afirma “não haver qualquer consenso científico de que o ser humano é culpado pelo aquecimento global”

As assinaturas mais valiosas seriam as de dois cientistas galardoados com um Nobel, o noruegês Ivar Giaever, em 1973, “pelo trabalho sobre supercondutores”, e o americano John Clauser, em 2022, pelas suas “experiências com fotões emaranhados, estabelecendo a violação das desigualdades do Teorema de Bell” e pelo pioneirismo no que diz respeito à “ciência da informação quântica”. A nenhum dos dois, porém, é conhecido qualquer artigo sobre ciência climática.

Ainda de acordo com a AFP, “apenas dez dos signatários se apresentaram como climatologistas ou cientistas do clima”, ou seja, menos de 1 por cento do total, embora alguns se autodenominem “especialistas em paleoclimatologia e ciências atmosféricas”.

A lista inclui ainda 40 geofísicos, mais de uma centena de geólogos e cerca de duas centenas de engenheiros das mais diversas áreas, além de vários matemáticos e médicos. Há também pescadores, pilotos de avião, músicos, advogados e até um sommelier, bem como alguns representantes sindicais de trabalhadores do setor da energia.

Entre os signatários, sete são portugueses: um engenheiro químico, um cientista farmacêutico, um “empreendedor” nas áreas da energia e da mobilidade elétrica, um investigador agrário, um professor de engenharia eletrónica e informática, um engenheiro mecânico e professor de matemática e ainda uma cientista (na verdade americana), apresentada como uma das responsáveis pelo Portuguese Sea Level Project, uma organização sediada na Virgínia, que segundo o site jornalístico canadiano DeSmog, especializado em ação climática, terá ligações à CO2 Coalition, uma organização de lobby pelas energias fósseis.

 

De acordo com uma investigação da AFP, “apenas dez dos signatários se apresentaram como climatologistas ou cientistas do clima”, ou seja, menos de 1 por cento do total, embora alguns se autodenominem “especialistas em paleoclimatologia e ciências atmosféricas”.

Em suma, a referida declaração afirma “não haver qualquer consenso científico de que o ser humano é culpado pelo aquecimento global” até porque “o clima tem sofrido diversas variações desde sempre, com fases frias e quentes que se alternam naturalmente”.

A alegada “base científica” para estas conclusões cai no entanto por terra quando comparada com a do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), que reuniu 721 especialistas sobre o clima, oriundos de 90 países, que resultou no Sexto Relatório de Avaliação, publicado em três partes, cada uma com 3 mil páginas, entre agosto de 2021 e abril de 2022. É considerado a avaliação mais completa feita até hoje pelo conhecimento científico sobre alterações climáticas, e as conclusões não deixam qualquer dúvida: há uma evidência “inequívoca” de que o aquecimento do clima é resultante da ação humana, em especial a relacionada com a queima de combustíveis fósseis.

Um outro estudo da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado em abril deste ano, adverte que os últimos oito anos foram os mais quentes já registados, com o aumento do nível do mar e o aquecimento dos oceanos a atingir novos recordes. Segundo esta agência da ONU, “o agravamento das mudanças climáticas trouxe também mais secas, inundações e ondas de calor para várias partes do mundo, ameaçando vidas e meios de subsistência”.

A OMM destaca assim “a importância de investir no monitoramento climático e nos sistemas de alerta precoce para ajudar a mitigar os impactos humanitários do clima extremo”. O relatório também aponta que, atualmente, a tecnologia torna a transição para a energia renovável “mais barata e mais acessível que nunca”. E esse será um passo imprescindível para alterar a atual situação, pois, ainda segundo este documento, “as concentrações dos três principais gases do efeito estufa, que retêm o calor na atmosfera – dióxido de carbono, metano e óxido nitroso – atingiram níveis recordes em 2021 – o último ano com dados consolidados disponíveis – havendo indicações de um aumento contínuo em 2022.

Tudo isto contraria, portanto, a intitulada “Declaração Mundial sobre o Clima”, com bases científicas bastante aquém dos estudos acima citados. Além de ter poucos signatários ligados à área do clima, alguns têm até claras ligações à indústria petrolífera, o que segundo a tabela de fact-check do Green eFact a torna num documento “impreciso”.

 

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