Uma das avaliações científicas mais abrangentes sobre a evolução das populações de polinizadores foi elaborada pela Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES), um órgão independente apoiado pelas Nações Unidas, criado em 2012 para fortalecer a interface entre ciência e política na conservação da biodiversidade. No relatório internacional sobre polinizadores e polinização, publicado em 2016, os autores concluem que existem sinais claros de declínio em várias regiões industrializadas. Segundo o documento, “muitas abelhas e borboletas selvagens têm vindo a diminuir em abundância, ocorrência e diversidade à escala local e regional no Noroeste da Europa e na América do Norte”.
O mesmo relatório indica que esses declínios estão associados a fatores como mudanças no uso do solo, intensificação agrícola, pesticidas, espécies invasoras e alterações climáticas.
Os estudos europeus de monitorização de borboletas apontam para tendências semelhantes. A Agência Europeia do Ambiente, que acompanha há décadas as populações de borboletas em prados europeus através do indicador “European Grassland Butterfly Index”, tem documentado uma redução acentuada das populações desde o final do século XX. De acordo com a AEA, “entre 1991 e 2023 o índice de 17 espécies típicas de borboletas de prados na União Europeia diminuiu cerca de 50%”.
A AEA sublinha que as borboletas são particularmente úteis como indicadores da saúde dos ecossistemas, porque respondem rapidamente a alterações no ambiente. Por isso, a tendência observada nas borboletas é frequentemente interpretada como um sinal de mudanças mais amplas na biodiversidade dos insetos. A redução de quase metade das populações desde 1990 indica assim, para esta agência, “uma perda dramática de biodiversidade nas paisagens agrícolas europeias”.
De acordo com a Agência Europeia do Ambiente, “entre 1991 e 2023 o índice de 17 espécies típicas de borboletas de prados na União Europeia diminuiu cerca de 50%”.
Para as abelhas, a situação é mais complexa porque existem cerca de 20 mil espécies no mundo e os dados de monitorização são menos sistemáticos. Ainda assim, as avaliações científicas existentes indicam que muitas espécies selvagens estão sob pressão. O já citado relatório do IPBES refere que, em várias regiões, as populações de abelhas diminuíram ou contraíram a sua área de distribuição ao longo do último século, especialmente em áreas altamente industrializadas.
Os estudos académicos recentes reforçam esta preocupação, como confirma um artigo de revisão científica do Departamento de Ciência e Sustentabilidade dos Ecossistemas da Universidade do Colorado, publicado em 2023, que analisou mais de uma centena de estudos para concluir que os diferentes grupos de polinizadores, incluindo abelhas e borboletas, mostram sinais consistentes de declínio associados sobretudo à alteração do uso do solo e às mudanças climáticas.
Apesar destas tendências gerais, os cientistas alertam para limitações importantes nos dados. O próprio relatório do IPBES observa que a evidência global permanece incompleta e que “os dados para outras regiões e para muitos grupos de polinizadores são atualmente insuficientes para se chegar a uma conclusão geral”, pois em em alguns locais ou espécies específicas, as populações podem manter-se estáveis ou até aumentar temporariamente, dependendo de fatores como o clima de cada ano ou a momentânea disponibilidade de habitats.
As populações de abelhas diminuíram ou contraíram a sua área de distribuição ao longo do último século, especialmente em áreas altamente industrializadas.
Em resumo, a afirmação de que hoje há menos polinizadores do que no passado é globalmente consistente com a literatura científica, sobretudo na Europa e na América do Norte, com monitorizações de longo prazo a mostrarem declínios significativos em borboletas e sinais semelhantes em várias espécies de abelhas. No entanto, os investigadores sublinham que os dados não são completos para todas as regiões ou grupos de insetos, e que as tendências podem variar entre espécies e habitats.
Ou seja, a evidência científica disponível indica que muitas populações de polinizadores diminuíram nas últimas décadas, mas a magnitude e extensão desse declínio variam consoante a região e a espécie estudada.