A lógica por detrás desta recomendação é relativamente simples. Durante o verão, uma parte significativa do aquecimento das habitações resulta da radiação solar que entra pelas janelas. Quando a luz solar atravessa o vidro, transforma-se em calor no interior dos compartimentos, contribuindo para o chamado efeito de estufa doméstico. Reduzir essa entrada de radiação significa diminuir a quantidade de calor acumulada dentro da casa e, consequentemente, a necessidade de arrefecimento artificial.
Esta conclusão é sustentada pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos, organismo público responsável pela política energética e investigação científica naquele país, que num guia técnico sobre coberturas de janelas refere que determinados sistemas de sombreamento podem reduzir os ganhos de calor solar através das janelas em até 60%. Segundo o documento, “as células de sombreamento podem reduzir o calor solar indesejado em até 60% durante a estação de arrefecimento”.
Outros laboratórios norte-americanos chegaram a conclusões semelhantes, como se pode ler num estudo realizado pelo Lawrence Berkeley National Laboratory (LBNL), um laboratório público de investigação energética financiado pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos, que tem desenvolvido diversos trabalhos sobre sistemas de sombreamento e eficiência energética em edifícios, no qual os investigadores afirmam que “os dispositivos exteriores de sombreamento são particularmente eficazes na redução das cargas térmicas associadas ao sol, sobretudo em edifícios sujeitos a forte exposição solar”.
Estudos cientifícos comprovaram que “os dispositivos exteriores de sombreamento são particularmente eficazes na redução das cargas térmicas associadas ao sol, sobretudo em edifícios sujeitos a forte exposição solar”.
Contudo, nem todas as persianas ou estores têm o mesmo desempenho. A literatura científica distingue claramente os sistemas exteriores dos interiores. As persianas exteriores impedem que a radiação solar chegue ao vidro, bloqueando o calor antes de este entrar na habitação. Já os estores ou cortinas interiores atuam depois da radiação ter atravessado a janela, sendo por isso menos eficazes. Ainda assim, também contribuem para reduzir o aquecimento dos espaços.
O Pacific Northwest National Laboratory (PNNL), outro laboratório norte-americano especializado em energia e edifícios, salienta num outro estudo que os dispositivos interiores de proteção solar podem reduzir ganhos térmicos e o consumo energético associado ao arrefecimento, além de melhorarem o conforto durante eventos de calor extremo.
A importância do sombreamento também é reconhecida num relatório técnico divulgado através da plataforma BUILD UP, uma iniciativa apoiada pela Comissão Europeia para promover edifícios energeticamente eficientes, sendo sublinhado que o controlo da radiação solar é um elemento essencial para reduzir o sobreaquecimento dos edifícios e limitar a procura de ar condicionado durante os meses mais quentes.
Mais recentemente, outro artigo técnico da mesma plataforma assinala que os sistemas de sombreamento são “essenciais para controlar os ganhos solares e melhorar o conforto dos ocupantes”. O documento acrescenta ainda que estes sistemas permitem reduzir as necessidades de arrefecimento e melhorar o desempenho energético dos edifícios.
Já os dispositivos interiores de proteção solar podem reduzir ganhos térmicos e o consumo energético associado ao arrefecimento, além de melhorarem o conforto durante eventos de calor extremo.
Os benefícios podem ser particularmente relevantes durante ondas de calor. Um estudo publicado em 2024 na revista científica Architecture, analisou o impacto do sombreamento em fachadas expostas ao sol. Os investigadores observaram diferenças de temperatura superficial superiores a 7 °C entre áreas expostas e áreas protegidas do sol durante o verão. Embora o estudo se centre na envolvente do edifício e não diretamente no consumo de energia, os resultados ajudam a ilustrar o papel do sombreamento na redução da carga térmica acumulada pelos edifícios.
Importa, contudo, desfazer um equívoco comum. Fechar as persianas durante o dia não substitui automaticamente o ar condicionado, sobretudo durante períodos de calor intenso. O que faz é reduzir a velocidade a que a casa aquece e limitar os ganhos térmicos provocados pela radiação solar. Quanto maior for a exposição das janelas ao sol, maior tende a ser o benefício. Janelas orientadas a sul e a poente são geralmente as que mais beneficiam desta estratégia.
A evidência sugere também que a eficácia aumenta quando esta medida é combinada com outras soluções passivas, como ventilação noturna, isolamento adequado e utilização de cores claras nas superfícies exteriores. O objetivo não é eliminar completamente a necessidade de arrefecimento mecânico, mas reduzir a sua utilização e, consequentemente, o consumo energético.
Perante os dados disponíveis, a afirmação de que “fechar as persianas durante o dia reduz a necessidade de ar condicionado” pode ser considerada verdadeira. A literatura científica e os relatórios técnicos mostram que limitar a entrada de radiação solar reduz o aquecimento interior dos edifícios, melhora o conforto térmico e pode diminuir o consumo de energia associado ao ar condicionado. Embora a dimensão exata da poupança varie consoante o edifício e o sistema utilizado, o princípio físico é claro: impedir que o calor entre é, regra geral, mais eficiente do que removê-lo depois através de equipamentos de climatização.