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Miguel Judas

É vantajoso reduzir a temperatura do frigorífico quando o calor aumenta?

19 Apr 2026 - 10:00
Com a chegada da primavera e a subida gradual das temperaturas, muitos consumidores procuram formas simples de reduzir o consumo de energia em casa. Entre conselhos informais e dicas partilhadas online, há quem defenda que baixar a temperatura do frigorífico pode ajudar a poupar eletricidade. Mas será mesmo assim? Entre eficiência energética e segurança alimentar, a resposta poderá não ser tão intuitiva quanto parece.
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A ideia de que reduzir a temperatura do frigorífico pode gerar poupança energética tornou-se comum em conselhos de consumo doméstico, sobretudo numa altura do ano em que o calor aumenta e os equipamentos de refrigeração trabalham com maior intensidade. Uma das principais referências nesta matéria é a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (AFSA), a agência da União Europeia responsável pela avaliação científica de riscos alimentares e pela definição de orientações baseadas em evidência.

Num parecer científico sobre controlo de temperatura na cadeia alimentar, esta entidade sublinha que a temperatura de refrigeração doméstica deve ser mantida “a 5 °C ou inferior” para limitar o crescimento de microrganismos patogénicos. Traduzindo diretamente o documento, “temperaturas acima de 5 °C podem permitir a multiplicação de bactérias, aumentando o risco para a saúde pública”.

Este limite não é arbitrário, pois resulta de estudos microbiológicos que demonstram como pequenas variações de temperatura têm impacto significativo na segurança dos alimentos, especialmente produtos frescos e prontos a consumir. Tal como também se pode ler num conjunto de orientações públicas sobre segurança alimentar, disponível no sítio oficial da Comissão Europeia, onde é mais uma vez sublinhado que “a temperatura do frigorífico deve ser mantida a 5 °C ou inferior, de forma a limitar o crescimento de microrganismos patogénicos”.

 

Segundo a Comissão Europeia, “a temperatura do frigorífico deve ser mantida a 5 °C ou inferior, de forma a limitar o crescimento de microrganismos patogénicos”.

Do ponto de vista energético, a questão também tem sido analisada por organismos como a Agência Internacional da Energia, organização intergovernamental que produz relatórios técnicos sobre eficiência energética e consumo global de energia. Num relatório sobre eficiência de equipamentos domésticos publicado em 2023, esta agência explica que o consumo de energia de um frigorífico está diretamente relacionado com a diferença entre a temperatura interior definida e a temperatura ambiente. Em termos simples, quanto mais baixa for a temperatura programada no frigorífico, maior será o esforço do compressor e, consequentemente, maior o consumo elétrico.

Este princípio é também confirmado pela Comissão Europeia, através da sua política de ecodesign e rotulagem energética estabelece parâmetros de eficiência para eletrodomésticos. Na documentação técnica associada ao regulamento de eficiência de frigoríficos, é indicado que o desempenho energético é otimizado dentro de intervalos de temperatura padrão (tipicamente entre 3 °C e 5 °C para o compartimento de refrigeração). Valores inferiores implicam portanto maior consumo, sem ganhos funcionais relevantes.

Assim, o facto essencial a reter é que reduzir a temperatura do frigorífico não poupa energia – aumenta-a. Em contexto de primavera, quando a temperatura ambiente sobe, o frigorífico já necessita de mais energia para manter o interior frio; baixar ainda mais o termóstato agrava esse esforço. Do ponto de vista técnico, a forma mais eficaz de poupar energia passa por manter a temperatura dentro do intervalo recomendado, garantir boa ventilação do equipamento, evitar aberturas frequentes da porta e não introduzir alimentos quentes no interior.

Reduzir para valores muito inferiores, como 1 °C ou 2 °C, não elimina totalmente os microrganismos nem melhora significativamente a conservação, mas aumenta o consumo energético.

Mas a questão não é apenas energética. Existe um limite abaixo do qual a redução de temperatura deixa de trazer benefícios adicionais de segurança alimentar. A EFSA é clara ao afirmar que manter o frigorífico abaixo de 5 °C é suficiente para controlar a maioria dos riscos microbiológicos em ambiente doméstico. Reduzir para valores muito inferiores, como 1 °C ou 2 °C, não elimina totalmente os microrganismos nem melhora significativamente a conservação, mas aumenta o consumo energético e pode afetar a qualidade de certos alimentos, como frutas e vegetais sensíveis ao frio.

Importa ainda considerar que muitos frigoríficos domésticos apresentam variações internas de temperatura, pelo que o valor programado nem sempre corresponde ao valor real em todas as zonas do equipamento. Estudos citados pela EFSA indicam que, em condições reais de uso, a temperatura média de frigoríficos domésticos na Europa pode ultrapassar os 5 °C, sobretudo devido a má regulação ou sobrecarga. Isso significa que o problema mais comum não é uma temperatura demasiado baixa, mas sim demasiado elevada – o que reforça a importância de ajustar corretamente o termóstato, em vez de o reduzir indiscriminadamente.

Em síntese, a afirmação de que “reduzir a temperatura do frigorífico na primavera poupa energia” é falsa, conforme o demonstram dados de entidades científicas e institucionais. Pelo contrário, as temperaturas mais baixas aumentam o consumo elétrico e, ao mesmo tempo, não trazem benefícios proporcionais para a conservação dos alimentos quando estas já se encontram dentro dos limites recomendados.

O equilíbrio eficaz situa-se assim entre eficiência energética e segurança alimentar, mantendo sempre o frigorífico entre 3 °C e 5 °C, conforme recomendado pela EFSA, para garantir proteção contra riscos microbiológicos e ao mesmo tempo evitar o desperdício de energia.