Entre cenários científicos e limitações práticas, importa perceber se a eliminação total de petróleo, gás e carvão é uma possibilidade real ou uma meta ainda distante da realidade económica e tecnológica atual. Um dos principais referências científicas em matéria de descarbonização é o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU (IPCC), que no seu último relatório sobre Mitigação das Alterações Climáticas, publicado em 2022, afirma já existirem “opções tecnológicas viáveis em todos os setores para reduzir substancialmente as emissões até 2030”.
O documento acrescenta que muitos dos caminhos para limitar o aquecimento global a 1,5 °C implicam uma redução muito acentuada do uso de combustíveis fósseis, podendo atingir níveis residuais em meados do século. Isto significa que, do ponto de vista técnico, já existem alternativas energéticas (como eletrificação baseada em renováveis, hidrogénio de baixo carbono e maior eficiência energética) capazes de substituir grande parte do uso atual de combustíveis fósseis.
Esta avaliação é reforçada pela Agência Internacional de Energia (IEA), a organização responsável pela análise dos sistemas energéticos globais, que no estudo Net Zero by 2050 apresenta um cenário detalhado para alcançar neutralidade carbónica até meados do século. Segundo o documento, “não são necessários novos projetos de exploração de petróleo e gás nos cenários de emissões líquidas nulas”, sugerindo que a economia global pode, em princípio, operar com uma dependência mínima desses recursos. O relatório descreve um sistema energético assente em eletricidade renovável, armazenamento, redes inteligentes e tecnologias emergentes.
do ponto de vista técnico, já existem alternativas energéticas capazes de substituir grande parte do uso atual de combustíveis fósseis.
Contudo, a possibilidade técnica não equivale à implementação imediata. O próprio IPCC sublinha que alguns setores são particularmente difíceis de descarbonizar, como é o caso da indústria pesada (produção de aço, cimento ou químicos), da aviação ou do transporte marítimo. Nestes casos, as alternativas aos combustíveis fósseis ainda estão em desenvolvimento ou são muito mais caras. “As opções de mitigação estão disponíveis, mas muitas ainda enfrentam barreiras económicas, institucionais e tecnológicas”, o que limita a sua adoção em larga escala no curto prazo, reconhece a organização no relatório antes citado.
Outro aspeto relevante prende-se com a escala do desafio. A economia global atual continua fortemente dependente de combustíveis fósseis, que representam a maior parte do consumo energético mundial. A transição para um sistema sem fósseis exigiria não apenas substituir fontes de energia, mas também transformar infraestruturas, cadeias de abastecimento e padrões de consumo. A IEA reconhece, no mesmo relatório sobre descarbonização, que “a transição para emissões líquidas nulas requer uma transformação sem precedentes do sistema energético global”, envolvendo investimentos maciços e mudanças estruturais profundas.
Além disso, a viabilidade técnica depende da integração de múltiplas tecnologias. A eletrificação direta (por exemplo, através de energias renováveis como solar e eólica) é considerada a via mais eficiente para muitos usos, mas não para todos. Em setores onde a eletrificação é difícil, o hidrogénio de baixo carbono, os biocombustíveis sustentáveis ou a captura e armazenamento de carbono surgem como soluções complementares. Estas tecnologias existem, mas muitas ainda não estão implementadas à escala necessária.
Alguns setores são particularmente difíceis de descarbonizar, como é o caso da indústria pesada, da aviação ou do transporte marítimo, casos em que as alternativas aos combustíveis fósseis ainda estão em desenvolvimento ou apenas são muito mais caras.
Do ponto de vista científico, existe consenso de que uma economia global praticamente sem combustíveis fósseis é tecnicamente possível, mas não inevitável. Depende de decisões políticas, investimentos, inovação tecnológica e cooperação internacional. Como sintetiza o IPCC, “as escolhas feitas nesta década terão impactos significativos na capacidade de limitar o aquecimento global”, sustentando assim que o fator determinante não é apenas tecnológico, mas também político e acima de tudo económico.
Em síntese, a afirmação de que é tecnicamente possível uma economia global sem combustíveis fósseis é verdadeira, mas seriamente condicionada por questões políticas e económicas. A ciência mostra que as tecnologias necessárias existem ou estão em desenvolvimento, e que cenários de neutralidade carbónica são plausíveis. No entanto, a concretização dessa possibilidade exige uma transformação profunda do sistema energético e produtivo global, que vai muito além da simples substituição de fontes de energia. A viabilidade técnica está demonstrada; a viabilidade prática depende das escolhas que vierem a ser feitas nas próximas décadas.