De acordo com a Agência Europeia do Ambiente (EEA), organismo da União Europeia responsável pela produção de informação sobre ambiente e clima, os automóveis representaram 72% de todos os passageiros-quilómetro percorridos na União Europeia em 2023, uma medida que combina o número de passageiros transportados com a distância percorrida. Desde 1995, a distância total percorrida de automóvel aumentou cerca de 30%, uma evolução que ajuda a explicar por que razão os transportes continuam a ser um dos setores mais difíceis de descarbonizar. Ou seja, o automóvel continua a dominar a mobilidade europeia.
A Agência Portuguesa do Ambiente (APA), organismo público responsável pela política ambiental nacional e pela elaboração anual do inventário português de emissões, contabiliza as emissões dos transportes no Inventário Nacional submetido às Nações Unidas e à União Europeia. De acordo com a APA, os transportes rodoviários permanecem uma das principais fontes nacionais de gases com efeito de estufa, tornando as deslocações quotidianas uma das áreas onde as escolhas individuais podem contribuir para reduzir emissões.
Perante esta realidade, será relevante deixar o carro em casa apenas alguns dias? Do ponto de vista das emissões, a resposta começa por ser relativamente simples. Num automóvel a gasolina ou gasóleo, cada quilómetro que deixa de ser percorrido evita o combustível que seria queimado nesse trajeto e, consequentemente, as emissões de dióxido de carbono associadas. O benefício acumulado depende da distância evitada, do consumo do veículo e do número de dias em que a substituição ocorre.
De acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente, os transportes rodoviários permanecem uma das principais fontes nacionais de gases com efeito de estufa, tornando as deslocações quotidianas uma das áreas onde as escolhas individuais podem contribuir para reduzir emissões.
A própria EEA considera a mudança de meio de transporte uma das formas de reduzir as emissões do setor. Numa análise sobre a eficiência climática dos diferentes modos de transporte, esta agência concluiu que, no transporte de passageiros, “os automóveis apresentam as emissões mais elevadas por passageiro-quilómetro, juntamente com a aviação”, enquanto comboios, autocarros e outros transportes coletivos são geralmente mais eficientes. Por isso, acrescenta, substituir deslocações de automóvel por autocarro ou comboio “pode ajudar a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa do transporte de passageiros”.
Não é necessário que a mudança ocorra todos os dias para existir um efeito. Se uma pessoa substituir duas das cinco viagens semanais de automóvel para o emprego por uma alternativa de menor intensidade carbónica, as emissões desses percursos deixam de ocorrer ou são substancialmente reduzidas. Repetida durante dezenas de semanas, uma alteração aparentemente pequena transforma-se numa redução regular da distância anual percorrida de automóvel.
O efeito torna-se mais significativo quando deixa de ser analisado apenas à escala individual. O Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), organismo científico das Nações Unidas que avalia a investigação mundial sobre alterações climáticas, inclui as mudanças na procura e nos comportamentos de mobilidade entre as soluções necessárias para reduzir as emissões. No seu Sexto Relatório de Avaliação, estima que a mobilidade ativa, incluindo caminhar e andar de bicicleta, apresenta um potencial de redução entre 2% e 10% das emissões de gases com efeito de estufa dos transportes terrestres até 2050.
Num automóvel a gasolina ou gasóleo, cada quilómetro que deixa de ser percorrido evita o combustível que seria queimado nesse trajeto e, consequentemente, as emissões de dióxido de carbono associadas.
O benefício também depende, porém, da alternativa escolhida. Caminhar ou utilizar uma bicicleta convencional elimina praticamente as emissões diretas do trajeto. Comboios, metropolitanos e autocarros apresentam emissões associadas ao consumo de energia, mas, ao transportarem simultaneamente muitas pessoas, tendem a utilizar menos energia e a emitir menos gases com efeito de estufa por passageiro-quilómetro do que o automóvel. A EEA considera os transportes públicos, em particular o comboio e, em menor grau, o autocarro, as opções motorizadas ambientalmente mais favoráveis.
Há todavia situações em que a diferença diminui. Um automóvel elétrico alimentado por eletricidade de baixa intensidade carbónica apresenta emissões de utilização muito inferiores às de um veículo a combustão. E a ocupação também conta, uma vez que quatro pessoas num único automóvel repartem as emissões da viagem entre mais passageiros, enquanto um veículo utilizado apenas pelo condutor apresenta um desempenho pior por passageiro. Distância, tecnologia do veículo, combustível e ocupação impedem que exista um valor universal para as emissões evitadas ao deixar o carro em casa.
A redução das emissões de CO2 também não é o único benefício. O transporte rodoviário continua a ser uma importante fonte de poluição atmosférica. Segundo a EEA, os transportes foram responsáveis por 57,3% das emissões de óxidos de azoto (NOx) da União Europeia em 2023. Estas emissões são particularmente relevantes nas cidades porque ocorrem junto ao solo e perto das zonas onde vive e trabalha grande parte da população.
Os progressos tecnológicos têm no entanto reduzido significativamente alguns destes poluentes. Ainda de acordo com os dados da EEA, entre 1990 e 2023, as emissões de NOx provenientes dos transportes diminuíram 53% na União Europeia, enquanto as partículas PM2,5 caíram 59%. Mas há uma componente que não desaparece com a eletrificação: o desgaste dos pneus, travões e pavimento. Em 2023, estas fontes não associadas aos gases de escape já representavam 77% das emissões de PM10 e 60% das PM2,5 provenientes do transporte rodoviário. Um automóvel elétrico pode não emitir gases pelo escape, mas continua a produzir este tipo de partículas.
O benefício também depende da alternativa escolhida. Caminhar ou utilizar uma bicicleta convencional elimina praticamente as emissões diretas do trajeto.
Deixar o carro parado pode ainda contribuir para diminuir outros impactos menos associados às alterações climáticas. A Agência Europeia do Ambiente identifica o tráfego rodoviário como uma das principais fontes de ruído ambiental na Europa e salienta que a expansão das infraestruturas rodoviárias contribui para a fragmentação dos habitats naturais. Uma redução generalizada da dependência do automóvel pode, por isso, produzir benefícios que ultrapassam as emissões evitadas numa deslocação individual.
Existe, finalmente, uma questão de escala. Um único condutor que deixe o automóvel em casa duas vezes por semana não produzirá uma alteração mensurável nas emissões de uma cidade. Mas o impacto das escolhas de mobilidade resulta precisamente da sua repetição por milhares ou milhões de pessoas. A EEA alerta que o aumento do volume de transporte tem contrariado parte dos ganhos obtidos através de veículos mais eficientes. Entre 2000 e 2019, por exemplo, as emissões dos automóveis de passageiros na UE aumentaram 5,8%, apesar das melhorias na eficiência dos motores e da utilização crescente de biocombustíveis. A agência identifica o aumento das distâncias percorridas como a principal explicação para esta evolução.
A alegação é, portanto, verdadeira. Deixar o carro em casa apenas alguns dias por semana reduz efetivamente o impacto ambiental das deslocações, sobretudo quando um automóvel a combustão utilizado por uma única pessoa é substituído por caminhada, bicicleta ou transporte coletivo. O benefício individual pode ser relativamente pequeno em cada viagem, mas acumula-se ao longo do ano e aumenta substancialmente quando o mesmo comportamento é adotado por muitas pessoas.
Isso não significa que todas as alternativas produzam a mesma redução nem que prescindir ocasionalmente do automóvel seja suficiente para resolver o problema das emissões dos transportes. Mas a evidência científica não sustenta a ideia de que uma mudança parcial é irrelevante. Neste caso, deixar o carro em casa dois ou três dias por semana não é apenas um gesto simbólico, pois reduz efetivamente os quilómetros percorridos, o combustível consumido e as emissões associadas à mobilidade.