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Miguel Judas

Comprar produtos em segunda mão reduz a pegada ambiental?

20 Sep 2026 - 10:00
Comprar roupa, móveis ou equipamentos eletrónicos em segunda mão parece uma escolha ambientalmente evidente, pois prolonga a vida dos produtos, evita resíduos e reduz a necessidade de fabricar novos bens. A investigação realizada até agora confirma que a reutilização pode diminuir o consumo de matérias-primas e as emissões, mas há uma condição essencial: comprar usado tem de evitar, efetivamente, uma compra nova.
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Grande parte da pegada ambiental dos bens que utilizamos surge antes de estes chegarem às nossas mãos. A extração de matérias-primas, a transformação dos materiais e o fabrico dos produtos consomem energia e recursos e originam emissões de gases com efeito de estufa. Manter um produto em circulação durante mais tempo permite, pelo menos em teoria, distribuir esse impacto por um período de utilização maior e evitar a produção de um substituto.

É um dos princípios fundamentais da economia circular e a investigação disponível confirma o seu potencial. Uma revisão publicada em 2026 pela Agência Europeia do Ambiente (EEA), organismo da União Europeia que fornece informação científica e técnica sobre ambiente e clima, analisou estudos recentes sobre a capacidade das estratégias de economia circular para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. A pesquisa inicial identificou mais de 460 trabalhos publicados entre 2020 e março de 2025, dos quais 131 foram selecionados para uma análise mais aprofundada.

As conclusões mostram um potencial significativo, embora muito variável. As medidas aplicadas durante a utilização dos produtos, entre as quais se encontram a reutilização e o prolongamento da vida útil, apresentaram nos estudos analisados um potencial médio de redução das emissões na ordem dos 40%. A própria agência alerta, contudo, para as grandes diferenças metodológicas entre os trabalhos e para a impossibilidade de aplicar este valor automaticamente a qualquer produto ou comportamento.

A reutilização e o prolongamento da vida útil dos produtos, apresentaram, nos estudos analisados pela Agência Europeia do Ambiente, um potencial médio de redução das emissões na ordem dos 40%.

A questão decisiva está precisamente no que acontece quando um objeto usado encontra um novo proprietário. Para existir uma redução efetiva da pegada ambiental, não basta prolongar a vida desse objeto: é necessário perceber se a sua compra evita a produção e o consumo de um produto novo.

Uma revisão sistemática publicada também este ano no Journal of Industrial Ecology analisou 247 estudos sobre a capacidade da reciclagem, reutilização e partilha de produtos para reduzir o consumo de recursos. Em 55% dos trabalhos foram encontradas poupanças, enquanto 19% indicaram efeitos negativos, 25% apresentaram resultados mistos e apenas 1% não encontrou qualquer efeito. A conclusão geral é favorável à circularidade, mas revela uma limitação importante, a de que um produto usado não substitui necessariamente um produto novo na proporção de um para um.

Dos 247 estudos, 174 quantificaram este chamado efeito de substituição. Metade encontrou níveis considerados baixos pelos autores. Em alguns trabalhos analisados, por exemplo, a venda de dez peças de roupa em segunda mão evitava a compra de apenas quatro ou cinco peças novas, enquanto dez livros usados substituíam apenas um ou dois livros novos. Em toda a revisão, somente oito resultados indicavam uma substituição perfeita, na qual cada unidade reutilizada ou reciclada evitava uma unidade equivalente de produção convencional.

A conclusão geral é favorável à circularidade, mas revela uma limitação importante, a de que um produto usado não substitui necessariamente um produto novo na proporção de um para um.

A roupa permite perceber bem o problema, como o demonstrou um estudo realizado por investigadores da Universidade Técnica da Dinamarca já em 2010, que analisou a reutilização de t-shirts de algodão e calças de mistura de poliéster e algodão. Com base em inquéritos a consumidores e numa análise de ciclo de vida, os investigadores estimaram que a compra de 100 peças em segunda mão poderia evitar a aquisição de 60 a 85 peças novas, dependendo do mercado considerado. Neste cenário, os impactos da recolha, triagem e transporte da roupa usada eram reduzidos quando comparados com os benefícios obtidos através da produção que deixava de ser necessária.

O mesmo princípio aplica-se a produtos tecnologicamente muito diferentes. Um outro estudo, publicado este ano na revista científica Communications Earth & Environment, analisou o mercado norte-americano de smartphones usados e concluiu que a segunda mão aumenta em cerca de 17% o tempo médio total de utilização dos aparelhos e reduz em 15% a procura de novos equipamentos. Mas encontrou também um resultado revelador: cada transação de um smartphone usado evita, em média, apenas 0,40 novos aparelhos.

Os investigadores calcularam ainda que os smartphones que passam por vários utilizadores permanecem em utilização 1,8 vezes mais tempo do que aqueles que seguem um percurso linear e apresentam uma pegada de carbono anual 34% inferior. No entanto, quase metade do benefício potencial da reutilização é anulada porque a existência de um mercado de revenda também incentiva alguns consumidores a conservarem os equipamentos durante menos tempo antes de os substituírem.

No caso dos smartphones, quase metade do benefício potencial da reutilização é anulada porque a existência de um mercado de revenda, em segunda mão, também incentiva alguns consumidores a conservarem os equipamentos durante menos tempo.

É aqui que entra o chamado “efeito de ricochete”, em que uma opção que torna o consumo mais barato ou eficiente pode desencadear comportamentos que anulam parte dos benefícios ambientais inicialmente obtidos. E as vendas em segunda mão não escapam a este fenómeno.

Um produto usado é frequentemente bastante mais barato do que o equivalente novo. Se alguém comprar um casaco em segunda mão em vez daquele que compraria novo, prolongar a sua utilização durante anos e não alterar outros hábitos de consumo, o benefício ambiental é relativamente claro. Mas a situação muda se o preço inferior levar a comprar três casacos em vez de um ou a substituir peças com maior frequência.

E há ainda um segundo efeito. O dinheiro poupado não desaparece e pode ser utilizado para comprar outros produtos ou serviços que também têm uma pegada ambiental. Um outro estudo publicado também em 2026, na revista Resources, Conservation and Recycling, analisou precisamente este fenómeno, designando-o por “paradoxo da circularidade”. A reutilização pode evitar emissões ao substituir produção nova, mas parte do dinheiro libertado pela aquisição de produtos mais baratos pode financiar consumo adicional.

Os próprios investigadores fazem uma ressalva importante: as estimativas apresentadas são ilustrativas e não correspondem a emissões diretamente medidas. O estudo mostra sobretudo por que razão é insuficiente calcular os benefícios da segunda mão partindo do princípio de que cada produto reutilizado representa automaticamente um produto novo que deixou de ser fabricado.

A reutilização pode evitar emissões ao substituir produção nova, mas parte do dinheiro libertado pela aquisição de produtos mais baratos pode financiar consumo adicional.

Nem todos os produtos apresentam também a mesma relação entre produção e utilização. Prolongar a vida de roupa, móveis ou muitos equipamentos eletrónicos pode evitar uma parte relevante do impacto associado ao fabrico. Noutros bens, sobretudo quando os modelos mais recentes são substancialmente mais eficientes durante a utilização, conservar indefinidamente um equipamento antigo pode não ser sempre a solução ambientalmente mais favorável. Transporte, reparação, consumo energético e destino final devem igualmente entrar na análise.

A evidência disponível sustenta, portanto, a ideia de que comprar produtos em segunda mão reduz geralmente a pegada ambiental, mas não o faz de forma automática. O benefício é maior quando a compra substitui efetivamente a aquisição de um produto novo e quando o objeto permanece em utilização durante mais tempo. Pelo contrário, diminui se os preços mais baixos estimularem um maior número de compras, uma substituição mais frequente dos produtos ou outros consumos.

Ou seja, a segunda mão pode reduzir a procura de matérias-primas, a produção de novos bens e as respetivas emissões, além de prolongar a vida dos produtos. Mas a dimensão dessa vantagem depende menos da simples passagem de um objeto para um novo proprietário do que daquilo que essa reutilização consegue evitar. Comprar usado só é ambientalmente mais vantajoso quando isso significa comprar menos vezes.