Os tubarões e as raias têm um papel vital no equilíbrio e produtividade dos ecossistemas marinhos, ocupando frequentemente lugares de topo nas cadeias alimentares. De acordo com a ANP|WWF, são “guardiões do oceano”, uma vez que estruturam e conectam comunidades marinhas, aumentam a biodiversidade e até beneficiam os chamados stocks comerciais explorados pelas comunidades piscatórias.
“Como predadores, os tubarões e raias ajudam a controlar as populações de presas”, explica Ana Henriques, técnica de oceanos e pescas da ANP|WWF, ao Green eFact. “A sua presença regula a abundância de outras espécies” e, pelo contrário, a sua ausência faz com que as populações das presas cresçam “descontroladamente”, provocando “desequilíbrios nos ecossistemas marinhos” e “danificando os habitats”.
Apesar da sua importância ecológica, “os tubarões e raias são dos grupos mais ameaçados” do planeta.
Apesar da sua importância ecológica, “os tubarões e raias são dos grupos mais ameaçados” do planeta. Um estudo publicado em 2021 na revista Current Biology atualizou o estatuto destas espécies, a par das quimeras, na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e concluiu que mais de um terço está em risco de extinção devido à sobrepesca. A poluição e as alterações climáticas também são apontadas como fatores de risco.
Ana Henriques culpa a “a falta de regulamentação a nível das pescas e um comércio pouco transparente” e reforça que “algumas populações, especialmente as espécies de mar alto”, já diminuíram mais de 70%, devido à sua “sobre-exploração”, como concluído numa investigação publicada em 2021 na revista Nature.
“Algumas populações, especialmente as espécies de mar alto”, já diminuíram mais de 70%, devido à sua “sobre-exploração”.
Depois de capturadas, estas espécies entram num sistema de comércio global “opaco e difícil de seguir”, passando por “diferentes etapas de transformação”, diz a especialista. “A carne de tubarão e raia é a forma mais comum de consumo na alimentação humana”, mas os animais capturados também têm outros destinos.
“Cada vez mais, estão também a ser incorporados produtos à base de tubarões e raias na alimentação animal (…) e noutros produtos processados como cosméticos e suplementos alimentares.” São exemplos disso os cremes à base de óleo de fígado de tubarão, ou os suplementos que utilizam condroitina e glucosamina, muitas vezes provenientes das cartilagens destes animais.
“O consumo da carne de tubarão e raia aumentou significativamente nas últimas décadas e o valor do comércio de carne – 2,6 mil milhões de dólares – é atualmente muito maior do que aquele atribuído às barbatanas – 1,5 mil milhões de dólares”, acrescenta a técnica da ANP|WWF.
Cada vez mais estão também a ser incorporados produtos à base de tubarões e raias na alimentação animal e noutros produtos processados como cosméticos e suplementos alimentares.
Além do impacto ambiental, o consumo de tubarões e raias também pode ser nocivo para a saúde humana. Por outro lado, “muitas vezes” os consumidores não têm consciência de que usam produtos derivados destes animais, avisa Ana Henriques.
“Os níveis de poluentes orgânicos persistentes encontrados nessas espécies e, em particular, de metais pesados como o mercúrio, excedem os limites seguros estabelecidos para consumo humano” alerta.
Somam-se ainda impactos económicos para o próprio setor das pescas. De acordo com a ANP|WWF, a menor presença destes animais no mar desestabiliza as cadeias alimentares e afeta negativamente as populações de espécies que são importantes para a pesca comercial.
“Aos níveis atuais – estima-se que cerca de 80 milhões de tubarões e raias sejam retirados nos nossos oceanos todos os anos – esta economia está condenada ao colapso, já que as características biológicas de muitas destas espécies não permitem uma exploração a esta escala”, diz Ana Henriques.
Portugal alberga uma vasta diversidade destes animais, incluindo cerca de 117 espécies de tubarões, raias e quimeras – quase 90% do total encontrado no território europeu.
Apesar de ser pouco conhecida, esta temática tem especial relevância no contexto português. Nem todos sabem, mas Portugal alberga uma vasta diversidade destes animais, incluindo cerca de 117 espécies de tubarões, raias e quimeras – quase 90% do total encontrado no território europeu. Ao mesmo tempo, diz a ANP|WWF, é o segundo maior exportador mundial de carne de tubarão e o sexto maior importador de carne de raia.
“Esta é uma realidade muito pouco falada, o que faz com que, quando surgem notícias de que estes animais dão à costa ou se aproximam de praias, haja uma grande surpresa, e até receio ou medo, da parte dos cidadãos”, observa Ana Henriques.
As espécies de tubarões mais icónicas em Portugal, são o tubarão-azul (tintureira), o tubarão-martelo ou o tubarão-anequim (mako). Estes animais vivem em alto mar, longe das praias, o que pode ajudar a explicar o seu distanciamento do imaginário da população portuguesa. Ainda assim, a sua presença na gastronomia nacional é comum. São exemplos disso o cação ou a tintureira.
Dado o impacto negativo do consumo de tubarões e raias, a solução passa por aumentar a consciencialização, promover o conhecimento sobre o tema e pressionar os governos por uma regulamentação mais eficaz e transparente, considera a ANP|WWF.
Segundo a ANP|WWF, “Portugal é o segundo maior exportador mundial de carne de tubarão e o sexto maior importador de carne de raia”.
Ana Henriques apela ao “conhecimento, consciencialização, reivindicação, regulamentação” e defende que “os consumidores devem ser parte ativa da solução”. A leitura cuidadosa dos rótulos de alimentos e cosméticos é uma forma simples, mas eficaz, de evitar produtos que contenham esqualeno de origem animal, por exemplo.
Por outro lado, “a pressão para uma melhor rotulagem e transparência no mercado é também fundamental, assim como a promoção de regulamentações pesqueiras mais rigorosas”. A especialista considera que “a responsabilidade não poderá estar, nunca, só do lado do consumidor e diz que “na dúvida, mais vale não consumir e procurar alternativas”.
A ANP|WWF oferece um guia prático que ajuda os consumidores a evitar o consumo de tubarões e raias, destacando a importância de procurar alternativas mais sustentáveis. Optar por produtos que garantam a proteção dos ecossistemas, como os de origem vegetal ou de marcas com políticas claras e transparentes, é um passo importante para preservar estas espécies.