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Teresa Lencastre

As vespas asiáticas chegaram a Portugal por intervenção humana?

14 May 2024 - 09:00
Presume-se que as vespas asiáticas chegaram a Portugal por intervenção humana, ainda que de forma involuntária. A comunidade científica acredita que entraram em território nacional num carregamento de madeira oriundo de França e descarregado no porto de Viana de Castelo.
verdadeiro

França terá sido, aliás, a primeira paragem da vespa asiática (Vespa velutina) na Europa. Acredita-se que a espécie nativa do sudeste asiático foi introduzida no continente pela primeira vez através do transporte marítimo, provavelmente em cargas de mercadorias vindas da China.

Em Portugal, A comunidade científica acredita que entraram através de um carregamento de madeira oriundo de França e descarregado no porto de Viana de Castelo. “A invasão foi detetada em 2011, pelo que terá acontecido um pouco antes”, esclarece o investigador Rui Rebelo, professor do Departamento de Biologia Animal da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Tratando-se de uma espécie invasora, a sua presença em Portugal tem múltiplas consequências. Em entrevista ao Green eFact, Rui Rebelo alerta que os impactos “estão a aumentar à medida que a espécie aumenta a sua distribuição para sul, assim como a sua abundância nos locais já invadidos”.

“O mais grave de todos é sem dúvida o aumento de casos fatais entre humanos. Os casos são raros e dependem muito da vulnerabilidade das pessoas à ferroada”, refere o professor e investigador do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais.

A vespa asiática destaca-se pela sua cor predominantemente preta com cabeça laranja e faixas laranja nas últimas secções do abdómen. Mede entre 17 e 32 milímetros.

Quem trabalha no campo está particularmente exposto ao risco de ser picado. Além disso, a gravidade da picada é maior entre quem é alérgico às toxinas produzidas pela vespa.

“Na verdade, [a picada da vespa asiática] não é mais fatal que a picada da vespa normal, e os casos [fatais] conhecidos referem-se a pessoas que são alérgicas. O problema é que a maior parte das pessoas não sabe se é ou não alérgica, e a existência de mais uma espécie na natureza que pode picar aumenta a probabilidade de picada”, esclarece Rui Rebelo.

Se uma pessoa for picada não só por uma, mas por várias vespas, o cenário é ainda pior. “Individualmente, cada picada é tão perigosa como a de uma vespa nativa”, esclarece Rui Rebelo, “mas os enxames de vespa asiática podem ser muito maiores que os das vespas nativas”. Por causa disso, o ataque por um enxame de vespas asiáticas representa um risco acrescido.

O bútio-vespeiro é um dos poucos predadores dos ninhos de vespas asiáticas existentes na Península Ibérica.

O segundo grande impacto da presença da vespa asiática em Portugal acontece na apicultura, diz o especialista, já que a espécie é uma predadora da abelha melífera (Apis mellifera), responsável pela produção de mel.

“Um enxame de vespas pode caçar muitas abelhas numa altura do ano em que as colmeias deveriam estar a produzir mel. Os apicultores portugueses, assim como os de outras regiões invadidas pela vespa, reportam diminuições na produção de mel depois da chegada da espécie”, refere Rui Rebelo.

Os ataques das vespas asiáticas às abelhas melíferas têm sido observados pelos especialistas e descritos com muito detalhe. O National Geographic escreve que “são uma presa tão abundante e fácil para elas como as ovelhas para os lobos” e que “costumam atacá-las quando regressam do campo carregadas de néctar e pólen”.

“Nesse momento são a presa ideal: as vespas asiáticas caçam-nas e, segurando-se num ramo, desfazem-nas até ficarem com a parte mais nutritiva, o tórax, que trituram para as larvas ávidas”, sublinha o documento.

Uma das melhores formas de distinguir a vespa asiática é olhando para as patas, que são amarelas nas extremidades, ao passo que as da europeia são pretas.

A necessidade de controlar a espécie levou a que fosse desenvolvido o “Plano de Ação para a Vigilância e Controlo da Vespa velutina em Portugal”. No documento, lê-se que que além de representar um risco para a segurança dos cidadãos e para a apicultura, a presença da vespa asiática também tem impactos na produção agrícola, “pelo efeito indireto” da “diminuição da atividade polinizadora das abelhas”, e no ambiente.

“É uma espécie não indígena, predadora natural das abelhas e outros insetos, o que pode eventualmente originar a médio prazo impactos significativos na biodiversidade, em particular nas espécies de vespas nativas e nas populações de outros insetos”, refere o plano.

Ao Green eFact, Rui Rebelo diz que “o ideal seria de facto erradicá-la”. Ainda assim, o especialista dá conta de “poucos casos de sucesso” e diz que têm acontecido em ilhas, como Maiorca ou o Reino Unido.

“A verdade é que me parece que a espécie veio para ficar. Tal como com outros riscos, depois da fase do alarme há que aprender a viver com esta nova ameaça e quais as precauções a tomar para diminuir ao máximo a vulnerabilidade”, sustenta o especialista.

Em primeiro lugar, esclarece que uma “vespa asiática sozinha não tenta atacar, nem mesmo quando é enxotada suavemente, como o que acontece com as ‘nossas’ vespas”. Rui Rebelo também afasta a possibilidade de uma investida por “pequenos grupos” e sublinha que “os ataques acontecem quando o ninho é atacado”.

“Infelizmente, algumas vezes os ninhos são feitos em locais baixos, como arbustos, ou até debaixo da terra. Isso leva a que o contacto involuntário com os ninhos possa acontecer. Se acontecer, sugiro a fuga imediata para longe”, aconselha.

De acordo com o investigador, se descobrirem um ninho, as pessoas devem notificar as autoridades. Trata-se de “um processo que exige muitos cuidados e que não deve ser tentado por ninguém sem formação específica”.

A situação pode ser reportada no site stopvespa.icnf.pt ou através da linha SOS Ambiente e Território – o 808 200 520.