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Miguel Judas

As praias portuguesas estão a perder areia devido às alterações climáticas?

31 May 2026 - 10:00
Nos últimos anos, imagens de praias mais estreitas, arribas fragilizadas e galgamentos costeiros tornaram-se frequentes em Portugal. Em muitos casos, as alterações climáticas surgem imediatamente como explicação. Mas será essa relação tão direta?
verdadeiro

Um dos principais mecanismos associados às alterações climáticas é a subida do nível médio do mar e segundo o relatório-síntese mais recente do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), organismo científico das Nações Unidas responsável por avaliar o conhecimento científico sobre o clima, “é inequívoco que as atividades humanas causaram o aquecimento global”. De acordo com o relatório Climate Change 2023: Synthesis Report, o nível médio global do mar continuou a subir de forma acelerada nas últimas décadas devido ao aquecimento dos oceanos e ao degelo de glaciares e mantos de gelo. Esse fenómeno aumenta a erosão costeira e favorece o recuo das praias arenosas em várias regiões do mundo, incluindo Portugal.

Essa subida tem consequências diretas nas praias arenosas. Um estudo publicado em 2020 na revista Nature Climate Change concluiu que, até ao final do século, quase metade das praias arenosas do mundo poderá sofrer recuos significativos devido à subida do nível do mar e ao agravamento da erosão costeira. O trabalho foi conduzido por investigadores do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia, que alertaram que “as praias arenosas estão entre os ecossistemas mais ameaçados pelas alterações climáticas”.

Portugal surge frequentemente identificado como um dos países europeus mais vulneráveis à erosão costeira. A Agência Portuguesa do Ambiente (APA), entidade pública responsável pelas políticas ambientais em Portugal, refere na Estratégia Nacional para a Gestão Integrada da Zona Costeira que uma parte significativa da linha de costa continental portuguesa apresenta problemas de erosão. O documento sublinha também que a subida do nível médio do mar associada às alterações climáticas constitui um fator de agravamento da erosão costeira.

Um estudo publicado em 2023 na revista científica Environments, assegura que a erosão costeira em Portugal resulta de vários fatores combinados.

Contudo, os especialistas sublinham que as alterações climáticas não explicam tudo. Um estudo publicado em 2023 na revista científica Environments, assegura que a erosão costeira em Portugal resulta de vários fatores combinados, incluindo a redução do fornecimento de sedimentos pelos rios, a subida do nível do mar, o aumento da frequência de tempestades e as alterações humanas da linha de costa. O trabalho foi conduzido por investigadores ligados à Universidade de Aveiro e a instituições portuguesas especializadas em ambiente marinho e dinâmica costeira. O estudo refere explicitamente que a região centro de Portugal é uma das áreas europeias mais afetadas pela erosão costeira devido ao défice sedimentar, à subida do nível do mar e ao aumento da frequência de tempestades.

A redução do fornecimento natural de areia ao litoral é um dos aspetos mais frequentemente destacados pelos investigadores. Durante décadas, rios como o Douro, Mondego ou Tejo transportaram sedimentos que ajudavam a alimentar naturalmente as praias portuguesas. A construção de barragens, a artificialização das margens fluviais e diversas obras costeiras reduziram significativamente esse transporte sedimentar. Como resultado, muitas praias deixaram de receber areia suficiente para compensar a erosão natural causada pelas ondas e tempestades.

As alterações climáticas agravam ainda outro fenómeno: a intensificação de episódios extremos associados à agitação marítima. Tempestades mais intensas e a subida gradual do nível do mar aumentam os galgamentos oceânicos, aceleram a destruição de dunas e tornam as praias mais vulneráveis à perda de areia. Em vários troços costeiros portugueses, sobretudo na região Centro e em partes do litoral alentejano, a combinação entre défice sedimentar e maior pressão oceânica tem levado ao recuo progressivo da linha de costa.

A construção de barragens, a artificialização das margens fluviais e diversas obras costeiras reduziram significativamente o transporte sedimentar dos rios para as praias.

Isso não significa que todas as praias portuguesas estejam condenadas a desaparecer. Em várias zonas têm sido realizados projetos de alimentação artificial de praias e recuperação dunar destinados a reduzir a erosão. No entanto, essas soluções exigem manutenção contínua e podem tornar-se cada vez mais difíceis de sustentar tecnicamente à medida que o nível do mar continua a subir.

A afirmação de que “as praias portuguesas estão a perder areia devido às alterações climáticas” é, no essencial, verdadeira, embora incompleta. Se é certo que a ciência mostra que o aquecimento global e a subida do nível do mar estão efetivamente a agravar a erosão costeira em Portugal, o problema resulta também de décadas de intervenção humana nos rios e na faixa litoral, que reduziram o fornecimento natural de sedimentos às praias. Em muitos casos, as alterações climáticas funcionam menos como causa única e mais como um acelerador de desequilíbrios já existentes na costa portuguesa.