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Bernardo Simões de Almeida

As palhinhas de plástico não causam danos à biodiversidade marinha, como afirmou Donald Trump?

20 Apr 2025 - 09:00
Nos últimos anos, as palhinhas de plástico tornaram-se um símbolo da luta contra a poluição dos oceanos, levando a proibições e restrições em vários países. No entanto, o debate voltou a ganhar destaque recentemente após declarações de Donald Trump, que minimizou o combate à poluição dos oceanos e o impacto que o plástico tem na biodiversidade.
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As declarações proferidas no dia da assinatura da ordem executiva, que obrigará ao uso das palhinhas de plástico, demonstram de uma forma clara a posição do presidente americano relativamente às consequências ambientais deste produto. “Não acho que o plástico vá afetar muito um tubarão, visto que eles vão mastigando tudo pelo oceano,” afirmou então o atual presidente dos Estados Unidos da América.

Mas será que esta posição tem fundamento? As palhinhas de plástico realmente representam um problema ambiental significativo ou, como diz a administração liderada por Trump, não constituem um perigo real?

De acordo com a ONG americana Pacific Whale Foundation, por altura do primeiro mandato de Donald Trump, eram utilizadas 500 milhões de palhinhas de plástico de uso único por dia, o suficiente para encher 125 autocarros de escola a cada 24 horas.

Segundo a mesma fonte, as populares palhinhas são um dos 10 produtos mais vezes encontrados nas limpezas das praias em todo o mundo. Além disso, têm muito pouca possibilidade de reciclagem e são utilizados apenas uma vez, o que aumenta exponencialmente ao seu potencial poluidor.

Por altura do primeiro mandato de Donald Trump, eram utilizadas 500 milhões de palhinhas de plástico de uso único por dia, o suficiente para encher 125 autocarros de escola a cada 24 horas.

Para além da poluição, o uso das palhinhas de plástico, sobretudo em locais expostos à luz do sol, faz com que estas se decomponham em microplásticos.

No caso específico das palhinhas, esta decomposição liberta substâncias como o polipropileno, espuma plástica ou poliestireno. Esta última substância contém estireno, que de acordo com um estudo levado a cabo pela Agência Internacional para a Investigação do Cancro levanta sérias preocupações para a saúde humana.

João Pequeno, investigador do MARE-Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, afirma que esta política de Donald Trump “pode levar a uma generalização de recuos idênticos face a outros produtos de plástico”.

Diz o investigador que “desconsiderar o impacte ambiental mais amplo dos plásticos não só minimiza e desacredita a realidade desta crise global, como segue um padrão preocupante, já traçado pela abordagem desta administração, de desvalorizar as crises ambientais, tendo em conta decisões anteriores como a retirada dos EUA do Acordo de Paris”.

O uso das palhinhas de plástico, sobretudo em locais expostos à luz do sol, faz com que estas se decomponham em microplásticos.

João Pequeno assevera ainda que “as negociações em curso para o Tratado da ONU sobre os Plásticos – já marcadas pela forte influência das indústrias dos plásticos, dos químicos e dos combustíveis fósseis – correm o risco de ficarem ainda mais enfraquecidas com a adoção de posturas como a da administração Trump”.

Neste contexto, políticas como a Ordem Executiva 14208, que se centram no recuo de medidas anteriormente adotadas, com a consequência do retorno de plásticos de uso único (neste caso, as palhinhas), podem não só desviar a atenção da questão muito mais complexa e urgente da poluição por plásticos e das suas amplas consequências ambientais, sociais e económicas, como abrir o caminho para a tomada de outras ações que irão agravar ainda mais a tripla crise planetária que a humanidade causou e com a qual terá de lidar: a poluição, as alterações climáticas e a perda de biodiversidade.

O investigador aponta ainda que são inúmeros os estudos que demonstram a ameaça dos plásticos (como é o caso das palhinhas) para a biodiversidade marinha. De acordo com João Pequeno, a ingestão destes plásticos pode causar “danos físicos e efeitos toxicológicos devido aos aditivos químicos, como o bisfenol A e os ftalatos”.

As populares palhinhas são um dos 10 produtos mais vezes encontrados nas limpezas das praias em todo o mundo.

Miguel Silveira, biólogo marinho e co-fundador da MadeInSea, uma empresa de produção de sal sustentável, também questiona a existência dos plástico de uso único: “o conceito os plásticos de uso único é um pouco absurdo. Afinal, se precisamos de uma ferramenta por apenas alguns minutos, porquê optar por fazê-la num material que permanecerá infinitamente no ambiente”?

No caso das palhinhas, realça, este absurdo é ainda maior: “precisamos sequer de palhinhas? Salvo em condições muito excecionais relacionadas com problemas de saúde ou alguma outra condição limitante, penso que não.”

Patrícia Carvalho, coordenadora do Pacto Português para os Plásticos, afirma que as palhinhas de plásticos fazem parte da lista de plásticos considerados problemáticos e/ou desnecessários pela organização.

“As palhinhas de plástico de uso único fazem parte desta listagem por não serem reutilizáveis, recicláveis (efetivamente) ou compostáveis; por poderem ser evitadas ou utilizadas outras reutilizáveis e por terem alta probabilidade de serem colocadas nos resíduos indiferenciados ou acabarem a poluir o meio ambiente”, alerta.

As palhinhas de plástico de uso único são também 1 dos 10 itens mais encontrados nas praias da União Europeia e que constavam nos itens do Artigo 5.º Diretiva (UE) 2019/904 – Diretiva SUP, com proibição de colocação no mercado desde 3 de julho de 2021.