Os períodos de calor intenso são frequentemente associados a um aumento da presença de mosquitos e ao risco de doenças como a dengue, a chikungunya ou o Zika. A relação existe, mas não é automática: as temperaturas elevadas podem acelerar o desenvolvimento de algumas espécies invasoras e prolongar a sua atividade, embora uma onda de calor excessiva, sobretudo quando acompanhada por seca, também possa reduzir temporariamente as populações. A disponibilidade de água, a humidade, a duração do episódio e as características de cada espécie são determinantes.
Entre os mosquitos invasores que suscitam maior preocupação na Europa encontra-se o Aedes albopictus, conhecido como mosquito-tigre-asiático. Originário do Sudeste Asiático, adaptou-se a ambientes urbanos e suburbanos e espalhou-se através do comércio internacional, em particular pelo transporte de pneus usados, plantas ornamentais e veículos. O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), agência pública da União Europeia sediada responsável pela vigilância das doenças transmissíveis, refere que o sucesso da invasão resulta de uma combinação entre “plasticidade ecológica, capacidade competitiva, globalização, aumento do comércio e das viagens, falta de vigilância e ausência de controlo eficaz”. O calor é, portanto, apenas uma parte do problema.
A temperatura influencia todas as fases do ciclo de vida destes insetos. Os ovos eclodem na presença de água, as larvas desenvolvem-se em pequenos recipientes, sarjetas, pneus, vasos ou depósitos de rega, e os adultos tornam-se geralmente mais ativos à medida que o ambiente aquece. Segundo o ECDC, temperaturas mais elevadas aceleram o desenvolvimento larvar, podendo aumentar o número de adultos e favorecer novas gerações durante a mesma estação. Para o Aedes albopictus, o intervalo próximo dos 25 a 30 graus Celsius é considerado particularmente favorável ao desenvolvimento. A abundância sazonal depende, porém, “da temperatura e da disponibilidade de alimento e água numa determinada área geográfica”. Sem água acumulada, o calor não basta para produzir uma proliferação significativa.
A abundância sazonal de mosquitos depende, segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças, “da temperatura e da disponibilidade de alimento e água numa determinada área geográfica”.
Uma revisão sistemática e meta-análise sobre os efeitos da temperatura nos mosquitos vetores da dengue, realizada em 2022 por investigadores de universidades e instituições científicas da Malásia e da Tailândia, reuniu resultados experimentais sobre Aedes aegypti e Aedes albopictus. A análise mostra que o aquecimento, dentro de determinados limites, reduz o tempo necessário para a passagem de ovo a adulto e pode aumentar a frequência das picadas e a reprodução. O efeito não cresce indefinidamente: acima do intervalo térmico adequado, a sobrevivência diminui, os adultos vivem menos tempo e ovos ou larvas podem morrer. A resposta à temperatura tem, assim, a forma de uma curva, com benefícios até um ponto ótimo e efeitos negativos quando o calor se torna extremo.
Esta distinção é especialmente importante quando se fala de ondas de calor. Um estudo publicado em 2024 no Journal of the Royal Society Interface, revista científica da Royal Society, uma prestigiada instituição académica britânica fundada no século XVII, analisou o efeito de tendências prolongadas de aquecimento e de episódios curtos de calor extremo sobre o mosquito-tigre em Itália. O modelo foi calibrado com 12 anos de dados recolhidos em armadilhas de ovos na região da Emília-Romanha. Os autores verificaram que, dependendo do clima local, “as ondas de calor podem aumentar ou reduzir as populações do vetor e, em alguns locais, diminuir temporariamente o número de mosquitos”. Após essa quebra, pode ocorrer uma recuperação rápida da população quando as temperaturas regressam a valores favoráveis.
O mesmo trabalho estimou que a época anual de atividade do Aedes albopictus tem-se prolongado em Itália entre meia semana e três semanas por década. Este resultado ajuda a separar dois fenómenos frequentemente confundidos. O aquecimento climático gradual tende a tornar regiões anteriormente frias mais adequadas e a alargar a estação reprodutiva. Uma onda de calor isolada pode ter um efeito variável: favorece o mosquito quando eleva temperaturas moderadas para valores próximos do ótimo, mas pode prejudicá-lo quando ultrapassa os seus limites fisiológicos ou seca os locais de reprodução.
Períodos quentes intercalados com precipitação, rega frequente ou armazenamento doméstico de água criam recipientes onde as larvas se desenvolvem.
A chuva e o comportamento humano também modificam a resposta. Períodos quentes intercalados com precipitação, rega frequente ou armazenamento doméstico de água criam recipientes onde as larvas se desenvolvem. Em contrapartida, calor prolongado e ausência de água podem eliminar esses habitats. Há ainda situações em que a seca leva as populações a guardar água em bidões, baldes e outros recipientes sem proteção, criando artificialmente novos criadouros. Por isso, duas ondas de calor com temperaturas semelhantes podem produzir resultados opostos em cidades diferentes.
Em Portugal, o risco deixou de ser meramente hipotético. O relatório de 2025 da Rede de Vigilância de Vetores, REVIVE, coordenada pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, laboratório público português dedicado à investigação, vigilância epidemiológica e apoio às políticas de saúde, registou Aedes albopictus em 28 concelhos, contra 20 no ano anterior. A espécie tinha sido detetada pela primeira vez no Norte em 2017, no Algarve em 2018, no Alentejo em 2022, na região de Lisboa em 2023 e no Centro em 2024. O Aedes aegypti, outro mosquito invasor capaz de transmitir dengue, Zika e chikungunya, permanece presente na Madeira desde 2005.
Em 2025 a espécie Aedes albopictus foi registada em 28 concelhos portugueses, contra 20 no ano anterior.
Esta expansão territorial não pode ser atribuída apenas às ondas de calor. A introdução em novos locais ocorre sobretudo através do transporte de ovos e exemplares em mercadorias ou veículos. As condições meteorológicas determinam depois se a população consegue sobreviver, reproduzir-se e atravessar o inverno. O ECDC identifica as temperaturas médias anuais e de inverno como alguns dos principais limites à expansão europeia do mosquito-tigre e admite que verões progressivamente mais quentes e secos possam até reduzir a adequação climática em partes do sul da Europa, ao mesmo tempo que favorecem o avanço para regiões setentrionais.
A afirmação de que as ondas de calor favorecem a proliferação de mosquitos invasores é apenas parcialmente verdadeira e portanto imprecisa. O calor pode acelerar o desenvolvimento, aumentar a atividade e prolongar a estação de reprodução quando as temperaturas permanecem dentro de um intervalo favorável e existe água disponível. Não significa, contudo, que todos os episódios extremos provoquem um aumento das populações. Ondas de calor muito intensas ou associadas a seca podem até reduzir a sobrevivência e eliminar criadouros. A expansão observada em Portugal resulta não de uma única causa, mas sim da interação entre clima, disponibilidade de água, urbanização, transportes e capacidade de adaptação das espécies.