De acordo com o relatório sobre a qualidade do ar na Europa, publicado em 2024 pela Agência Europeia do Ambiente (EEA), o organismo da União Europeia responsável pela monitorização do estado do ambiente os episódios de calor intenso e elevada radiação solar favorecem a formação de ozono ao nível do solo. Segundo este documento, “as concentrações de ozono são geralmente mais elevadas durante períodos de tempo quente e ensolarado”. Esta relação é particularmente importante porque o ozono troposférico não é emitido diretamente para a atmosfera. Forma-se através de reações químicas entre poluentes provenientes do tráfego, da indústria e de outras atividades humanas quando estes são expostos à luz solar e a temperaturas elevadas.
Ou seja, embora o calor não produza poluentes por si só, as condições meteorológicas associadas às ondas de calor favorecem a formação e acumulação de determinados contaminantes atmosféricos, em particular o ozono troposférico, um dos poluentes mais problemáticos durante os meses quentes. Ao contrário do ozono estratosférico, que forma a camada de ozono responsável por filtrar parte da radiação ultravioleta, o ozono troposférico é considerado um poluente atmosférico nocivo para a saúde humana e para os ecossistemas.
Embora o calor não produza poluentes por si só, as condições meteorológicas associadas às ondas de calor favorecem a formação e acumulação de determinados contaminantes atmosféricos, em particular o ozono troposférico
A Organização Mundial da Saúde (OMS) inclui mesmo o ozono entre os principais poluentes atmosféricos que afetam a saúde. Nas suas diretrizes globais sobre qualidade do ar, a agência das Nações dedicada à saúde pública global alerta que a exposição a concentrações elevadas de ozono está associada a problemas respiratórios, agravamento da asma e aumento da mortalidade prematura. A OMS refere que “a exposição ao ozono está associada a efeitos adversos na saúde respiratória”, mesmo em níveis inferiores aos observados durante alguns episódios de verão.
A relação entre ondas de calor e ozono é também acompanhada pelo Copernicus, o Programa Europeu de Observação da Terra da União Europeia, que em vários relatórios sazonais disponíveis no seu site oficial documenta que os episódios de calor extremo estão frequentemente associados a aumentos das concentrações de ozono em várias regiões da Europa. Durante os verões mais quentes dos últimos anos, os cientistas observaram que as massas de ar quente e estagnado favoreceram a acumulação de poluentes e a formação acelerada de ozono, conduzindo a níveis elevados de exposição da população.
A OMS alerta que a exposição a concentrações elevadas de ozono está associada a problemas respiratórios, agravamento da asma e aumento da mortalidade prematura.
Mas porque razão para as ondas de calor favorecem estes episódios? A explicação está na combinação de vários fatores atmosféricos. Em primeiro lugar, as temperaturas elevadas aceleram as reações químicas responsáveis pela formação do ozono. Em segundo lugar, os dias mais quentes tendem a apresentar maior intensidade de radiação solar, fornecendo a energia necessária para essas reações. Finalmente, muitas ondas de calor estão associadas a condições anticiclónicas, com vento fraco e atmosfera estável, dificultando a dispersão dos poluentes. O resultado é uma maior acumulação de substâncias precursoras do ozono e uma produção mais intensa deste poluente.
A literatura científica confirma esta ligação. Um estudo de revisão publicado em 2020 na revista científica Atmosphere, conclui que as alterações climáticas e o aumento da frequência de ondas de calor podem contribuir para episódios mais frequentes de poluição por ozono em várias regiões do mundo. Os autores observam que “temperaturas mais elevadas promovem a formação fotoquímica de ozono”, aumentando o risco de exceder os limites recomendados para proteção da saúde.
Diversos estudos científicos confirmam que as alterações climáticas e o aumento da frequência de ondas de calor podem contribuir para episódios mais frequentes de poluição por ozono em várias regiões do mundo.
Os efeitos não se limitam às pessoas. A própria Agência Europeia do Ambiente refere que o ozono troposférico provoca danos na vegetação e afeta a produtividade agrícola. Segundo a EEA, este poluente continua a representar uma das principais ameaças atmosféricas aos ecossistemas europeus, apesar das melhorias observadas nas emissões de vários poluentes ao longo das últimas décadas. Isto significa que os impactos das ondas de calor na qualidade do ar têm também uma dimensão económica e ambiental.
Importa, contudo, sublinhar que as ondas de calor não aumentam necessariamente todos os tipos de poluição atmosférica. Poluentes como as partículas finas podem ser influenciados por múltiplos fatores, incluindo incêndios florestais, transporte de poeiras ou emissões industriais. A ligação mais robusta e consistentemente documentada pela ciência é a que existe entre calor extremo, radiação solar intensa e aumento das concentrações de ozono troposférico.
Perante a evidência disponível, a afirmação de que “as ondas de calor agravam a poluição do ar” pode ser considerada verdadeira. O consenso científico expresso por organismos como a Agência Europeia do Ambiente, a Organização Mundial da Saúde e o programa Copernicus demonstra que o calor extremo cria condições favoráveis à formação e acumulação de ozono troposférico, um poluente associado a impactos significativos na saúde humana e nos ecossistemas. Em consequência, os períodos de calor intenso não representam apenas um risco térmico, mas também um risco acrescido relacionado com a qualidade do ar que respiramos.