Um dos trabalhos mais citados sobre o papel das aranhas nos ecossistemas é um estudo publicado na revista The Science of Nature por uma equipa internacional liderada por Martin Nyffeler, investigador associado à Universidade de Basileia, na Suíça, que estima que as aranhas consomem anualmente entre 400 e 800 milhões de toneladas de presas a nível global. Segundo os autores, “as aranhas são predadores importantes em praticamente todos os ecossistemas terrestres”, desempenhando um papel relevante na regulação de populações de insetos. Esta função ecológica é significativa, sobretudo porque muitas das presas incluem espécies que podem ser pragas agrícolas ou vetores de doenças.
Este papel de controlo biológico é também destacado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), ao sublinhar em diversos relatórios que os predadores naturais, incluindo aranhas, contribuem para reduzir a necessidade de pesticidas, ajudando a manter equilíbrios ecológicos nos sistemas agrícolas, o que tem impacto indireto na produção alimentar e, por consequência, na sociedade humana.
Estudos comprovam que “as aranhas são predadores importantes em praticamente todos os ecossistemas terrestres”, desempenhando um papel relevante na regulação de populações de insetos.
Contudo, afirmar que as aranhas são “fundamentais para a vida humana” pode ser uma extrapolação excessiva. A ciência não demonstra que a sobrevivência humana dependa diretamente da existência de aranhas, mas sim que estas fazem parte de redes ecológicas complexas que sustentam serviços dos ecossistemas. Como enfatiza a Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre a Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas, organismo associado às Nações Unidas, no seu relatório global sobre biodiversidade, os ecossistemas funcionam através de interdependências entre múltiplas espécies e portanto “a perda de biodiversidade compromete o funcionamento dos ecossistemas e os serviços que estes prestam às pessoas”, incluindo regulação de pragas, polinização e ciclos de nutrientes. Neste contexto, as aranhas contribuem para esses serviços, mas não são isoladamente determinantes.
Do ponto de vista científico, a importância das aranhas deve ser entendida sobretudo em termos de função ecológica. Ao controlarem populações de insetos, ajudam a evitar desequilíbrios que poderiam afetar culturas agrícolas ou aumentar a presença de organismos nocivos. No entanto, esses efeitos fazem parte de sistemas redundantes: outros predadores, como aves, anfíbios ou insetos, também desempenham funções semelhantes. Isto significa que, embora a sua ausência tivesse impactos ecológicos relevantes, não existe evidência de que levaria diretamente ao colapso das condições necessárias à vida humana.
Embora a ausência das aranhas tivesse impactos ecológicos relevantes, não existe evidência de que levaria diretamente ao colapso das condições necessárias à vida humana.
Além disso, estudos ecológicos indicam que a resiliência dos ecossistemas depende da diversidade de espécies e não de uma única em particular. A literatura científica mostra que a perda de um grupo de espécies pode, em muitos casos, ser parcialmente compensada por outros organismos que desempenham funções semelhantes, embora isso possa alterar o equilíbrio do ecossistema. Esta ideia, conhecida como “redundância funcional”, é demonstrada em estudos experimentais, como o realizado em 2016 por investigadores em ecologia chineses e americanos, publicado na revista Soil Biology and Biochemistry, ao demonstrar que variações na presença de aranhas não afetaram significativamente processos como a decomposição, porque outras espécies assumiram funções semelhantes no sistema.
Em paralelo, uma revisão científica associada a investigação académica em ecologia e biodiversidade, realizada em 2023 por investigadores alemães e espanhóis, sintetizou múltiplos estudos e concluiu que muitos ecossistemas apresentam uma relação de “saturação”, em que diferentes espécies podem cumprir papéis ecológicos equivalentes no funcionamento global do sistema. Em conjunto, estes resultados mostram que as aranhas têm um papel relevante nos ecossistemas, mas não são indispensáveis por si só para o funcionamento geral dos sistemas naturais.
Em síntese, a afirmação de que “as aranhas são fundamentais para a vida humana” é parcialmente verdadeira, mas simplificada em excesso. A evidência científica mostra que as aranhas desempenham um papel relevante nos ecossistemas, especialmente no controlo de insetos, contribuindo indiretamente para a agricultura e para o equilíbrio ambiental. No entanto, não há dados que sustentem que a sobrevivência humana dependa diretamente delas de forma exclusiva. O que é fundamental para a vida humana não é uma espécie isolada, mas sim o funcionamento integrado dos ecossistemas – e, nesse sistema, as aranhas são uma peça importante, mas não única nem indispensável por si só.