Os plásticos são omnipresentes no nosso quotidiano devido à sua versatilidade, durabilidade e baixo custo. Mas essas mesmas características também contribuem para o seu impacto ambiental negativo. Estima-se que cerca de 8 milhões de toneladas de plástico entram nos oceanos anualmente, prejudicando a vida marinha e os ecossistemas. Além disso, a produção de plástico – 98% do qual provém de combustíveis fósseis – está na origem de cerca de 10% de todas as emissões mundiais de gases com efeito de estufa.
As alternativas ao plástico são frequentemente apontadas como soluções para este problema. Entre estas incluem-se os bioplásticos (feitos de materiais biodegradáveis ou compostáveis), o vidro, o metal, o papel, o cartão, a madeira ou o bambu. Ao mesmo tempo, vários especialistas sugerem que as vantagens ambientais das alternativas ao plástico não são assim tão evidentes.
Estima-se que cerca de 8 milhões de toneladas de plástico entram nos oceanos anualmente, prejudicando a vida marinha e os ecossistemas.
Um trabalho publicado na revista Resources, Conservation & Recycling, por exemplo, alerta para vários impactos decorrentes da produção dos bioplásticos, incluindo elevadas emissões de CO2, deflorestação e perda de biodiversidade.
“O nosso estudo mostra que uma expansão da produção de base biológica deve ser cuidadosamente avaliada região a região, a fim de compreender os potenciais riscos e compromissos em termos de sustentabilidade”, disse um dos autores do estudo, Neus Escobar, ao ScienceDaily.
A revista Time também põe o dedo na ferida dos bioplásticos. Um artigo intitulado “O segredo sujo das alternativas ao plástico” diz que um dos maiores problemas dos bioplásticos é a sua incapacidade de biodegradação ou compostagem.
“Isto significa que, apesar das melhores intenções dos fabricantes e consumidores, os sacos de plástico supostamente compostáveis e os talheres de utilização única supostamente biodegradáveis podem estar a causar tantos danos climáticos como os plásticos convencionais”, lê-se no artigo.
um dos maiores problemas dos bioplásticos é a sua incapacidade de biodegradação ou compostagem.
Outra investigação, publicada este ano na revista Environmental Science & Technology, sugere que as alternativas ao plástico podem mesmo ser piores do que o próprio plástico em termos de emissões de gases com efeitos de estufa.
O estudo analisou os plásticos e os seus substitutos em várias aplicações, incluindo embalagens, construção, automóvel, têxteis e bens de consumo duradouros, e concluiu que o vidro ou o metal, por exemplo, consomem mais energia do que o plástico durante a sua produção.
“Estes resultados demonstram que é necessário ter cuidado ao formular políticas ou intervenções para reduzir a utilização de plástico, de modo a não conduzir inadvertidamente a uma mudança para alternativas não plásticas com emissões de gases com efeitos de estufa mais elevadas”, lê-se na análise.
“Para a maioria dos produtos de plástico, o aumento da eficiência da utilização do plástico, o prolongamento do seu tempo de vida, o aumento das taxas de reciclagem e a melhoria da recolha de resíduos seriam mais eficazes para reduzir as emissões”, acrescentam os investigadores.
Para a associação ambientalista Zero, “o mais importante é combater a lógica dos produtos descartáveis”.
A solução para o problema dos plásticos não passa pela sua substituição por estas alternativas, reforça a ZERO. Em declarações ao Green eFact, Susana Fonseca, vice-presidente da associação ambientalista, explica que o mais importante é combater a lógica dos produtos descartáveis.
“A questão principal não é se devemos procurar alternativas para um ou outro material, mas como é que podemos mudar o sistema, de forma a depender menos de produtos descartáveis e assentar mais em prevenção, redução e reutilização”, diz Susana Fonseca, que é também investigadora de pós-doutoramento na área da Sociologia do Ambiente.
“Quando procuramos alternativas a um material, não questionamos o modelo que está na base do consumo tão elevado desse mesmo material. Desta forma, acabamos por olhar para um outro material como alternativa. Mas como iremos manter a necessidade em termos de quantidades, estaremos, no essencial, a transferir impactos de um lado para o outro”, alerta.
Os produtos descartáveis são a tipologia de plástico com a qual se tem “maior contacto” no dia-a-dia.
Susana Fonseca admite que os plásticos têm uma presença “muito marcada” no quotidiano das pessoas, nomeadamente nas roupas, nos equipamentos eletrónicos, nos carros ou em objetos domésticos.
Ainda assim, a especialista reforça que os produtos descartáveis são a tipologia de plástico com a qual se tem “maior contacto” no dia a dia e dá conta de um “maior poder de agir” no que toca a esses mesmos produtos.
“Assim, a melhor forma de evitar a poluição por plásticos é evitar a produção de tantas embalagens descartáveis”, reitera. E, para isso, há vários comportamentos que as pessoas podem adotar.
Em primeiro lugar, refere a investigadora, importa exercer dois direitos previstos na lei: “levar os seus próprios recipientes, sacos, embalagens quando vai às compras – take-away, charcutaria, padaria, etc. – e pedir água da torneira quando vai a um restaurante, em alternativa às bebidas embaladas”.
Susana Fonseca apela ainda a que as pessoas usem garrafas de água reutilizáveis no dia a dia e optem por comprar a granel, levando as suas próprias embalagens.
Comprar produtos com excesso de embalamento é algo a evitar. Por outro lado, os consumidores também podem “fazer pressão sobres as marcas que insistem nessa prática, por exemplo, através das linhas de apoio ao cliente”.
Privilegiar embalagens reutilizáveis “sempre que estas estejam disponíveis” e “pressionar os retalhistas para que tenham maior oferta nesta área” são outros conselhos deixados pela investigadora.
E até mesmo “na área da menstruação, pode-se optar por soluções reutilizáveis, como o copo menstrual”, enquanto nos têxteis basta apenas “comprar menos e preferir sempre fibras naturais”, conclui.