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Teresa Lencastre

A subida do nível do mar afeta Portugal?

9 Nov 2024 - 10:00
Se a erosão e as inundações costeiras são efeitos que já há muito se fazem sentir em certos locais do litoral, no futuro poderão ser aos milhares os portugueses afetados e até locais icónicos, como o Terreiro do Paço, em Lisboa, correm o risco de ficar submersos durante parte do ano.
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O nível médio do mar (NNM) em Portugal subiu 23 centímetros desde o início do século passado. Quem o garante é Carlos Antunes, especialista em engenharia geoespacial da Faculdade de Ciências de Lisboa (FCUL). E ainda que os impactos sejam na sua maioria “impercetíveis” para a generalidade da população, há efeitos já bem visíveis, como o desgaste e recuo da linha de costa.

“Parte da erosão costeira – 10 a 20% – que se verifica atualmente pode dever-se à subida do NMM, que se sobrepõe ao défice sedimentar, isto é, a perda de areia que chega naturalmente às praias”, esclarece o professor ao Green eFact.

Além disso, o investigador também associa as “inundações costeiras esporádicas”, provocadas por marés altas, à subida do NMM, nomeadamente em zonas do Algarve, Vila Franca de Xira e em localidades da Ria de Aveiro, onde se somam “galgamentos costeiros”, ou seja, invasões de água do mar impulsionadas por tempestades.

“Verifica-se uma intensificação e aumento de frequência das inundações e galgamentos costeiros em situações extremas, bem como uma intensificação da erosão costeira nalguns troços da costa de baixo arenoso e elevada energia associada a temporais”, esclarece.

O investigador português Carlos Antunes associa as “inundações costeiras esporádicas”, provocadas por marés altas, à subida do NMM, nomeadamente em zonas do Algarve, Vila Franca de Xira e em localidades da Ria de Aveiro.

Em relação ao futuro, as projeções também são pouco animadoras, pois de acordo com o simulador SNM Portugal, criado pelo próprio Carlos Antunes, em conjunto com Carolina Rocha e Cristina Catita, em 2050, o NMM terá subido 44 centímetros em relação ao início do século passado. E em 2100 o cenário será ainda pior, com a subida a situar-se nos 115 centímetros.

Premiada pela Ordem dos Engenheiros, esta ferramenta avalia a vulnerabilidade costeira de Portugal continental através de um conjunto de mapas. A aplicação também estima que, até 2050, a subida do NMM vai afetar mais de 230 mil portugueses e perto de 88 mil edifícios ao longo da costa portuguesa. Até 2100, o valor sobe para cerca de 387 mil habitantes e 130 mil edifícios impactados.

“As zonas estuarinas e lagunares que estão sob a influências das marés, e logo vulneráveis à subida do NMM, são as de maior risco”, refere Carlos Antunes. Incluem a ria de Aveiro, a zona de Lisboa, o estuário do Tejo e Setúbal e, mais a sul, o Parque Natural da Ria Formosa, assim como a área de Vila Real de Santo António e Monte Gordo.

Ou seja, zonas icónicas de Portugal, como o Terreiro do Paço e “outros locais baixos e rasos dos estuários e rias”, podem ficar submersos durante parte do ano, em período de maré cheia.

Dentro de poucas décadas, zonas icónicas de Portugal, como o Terreiro do Paço e “outros locais baixos e rasos dos estuários e rias”, podem ficar submersos durante parte do ano, em período de maré cheia.

Portugal tem sido, aliás, apontado como um país particularmente vulnerável à subida do NMM. Carlos Antunes sublinha que o território continental é uma região de risco, citando “características de uma grande parte da sua costa de baixo-arenoso, e um número considerável de cidades e municípios localizados em estuários e rias”.

Por se tratar de uma “sociedade costeira”, Portugal corre mais riscos de inundações, nomeadamente em zonas urbanas e áreas com infraestruturas críticas junto ao litoral, como “portos, aeroportos e linhas férreas”. Destacam-se ainda “danos ambientais, ao nível da perda de ecossistemas e de serviços ecológicos”, em “locais naturais baixos e rasos, sem qualquer ocupação humana”.

Outro estudo, publicado na revista Scientific Reports, revela que Portugal pode perder até 5% do PIB devido à elevação das águas. A análise avaliou os impactos económicos da subida do nível do mar em 271 regiões europeias, num cenário sem novas medidas de proteção costeira e com emissões elevadas. Numa escala de um a cinco, Portugal integra a segunda posição mais grave.

“O aquecimento global que se faz sentir e as emissões de gases de efeito estufa já consumadas garantem-nos, diz a ciência com elevada certeza, uma subida do NMM até aos próximos 2 a 6 milénios”

Para Carlos Antunes, o aumento do nível médio do mar (NMM) é uma das evidências mais claras do aquecimento global. “Quer as alterações climáticas, quer a subida do NMM são consequência da mesma causa: o aquecimento global causado pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, como o dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso”, explica.

Este fenómeno deve-se principalmente a dois fatores associados ao aumento das temperaturas: a expansão térmica dos oceanos e o degelo das massas de gelo na Antártida, Gronelândia e outros continentes, que contribuem para o aumento do volume dos oceanos.

O investigador sublinha ainda que reverter por completo a subida do NMM “é praticamente impossível”, devido à lentidão da resposta dos oceanos tanto na subida quanto na descida. “O aquecimento global que se faz sentir e as emissões de gases de efeito estufa já consumadas garantem-nos, diz a ciência com elevada certeza, uma subida do NMM até aos próximos 2 a 6 milénios”, afirma.

As projeções mais recentes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indicam que o NMM poderá subir entre 0,3 e 1 metro até 2100.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o NMM tem vindo a aumentar a uma taxa sem precedentes nos últimos 3 mil anos, devido ao aquecimento global provocado pela ação humana.

As projeções mais recentes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indicam que o NMM poderá subir entre 0,3 e 1 metro até 2100, valor que varia em função de diferentes cenários de emissão de gases com efeitos de estufa.

“A subida dos mares é uma crise inteiramente provocada pela humanidade. O mundo tem de atuar e responder ao SOS antes que seja demasiado tarde”, disse recentemente o secretário-geral da ONU, António Guterres, numa conferência de imprensa dedicada ao tema.