Durante anos, a sardinha tornou-se um símbolo dos desafios da gestão das pescas em Portugal. A quebra acentuada da biomassa observada nas primeiras décadas deste século levou à imposição de restrições severas às capturas e alimentou a ideia de que a sobrepesca seria a principal responsável pela crise da espécie. Mas o que dizem os dados científicos mais recentes? Entre quotas, alterações climáticas, disponibilidade de alimento e ciclos naturais do oceano, a realidade revela-se mais complexa do que uma simples relação entre excesso de pesca e escassez de peixe.
A principal fonte científica utilizada para avaliar a situação da sardinha ibérica é o Conselho Internacional para a Exploração do Mar (ICES), organismo científico intergovernamental sediado na Dinamarca que presta aconselhamento independente aos governos europeus sobre a gestão sustentável dos recursos marinhos. No seu parecer mais recente sobre a sardinha das águas atlânticas ibéricas, o ICES mantém uma avaliação cautelosa do stock, mas reconhece sinais de recuperação após vários anos de forte controlo das capturas. Esta evolução coincide com a implementação de planos de gestão conjuntos entre Portugal e Espanha e com uma redução significativa da mortalidade por pesca.
Na Península Ibérica, as capturas chegaram a ultrapassar as 216 mil toneladas anuais no início da década de 1980, lavando a que stock entrasse num período prolongado de baixa produtividade a partir dos anos 2000.
O papel da sobrepesca no declínio histórico da sardinha é difícil de contestar. O plano plurianual de gestão da sardinha ibérica, elaborado pelas autoridades portuguesas e espanholas recorda que as capturas chegaram a ultrapassar as 216 mil toneladas anuais no início da década de 1980 e que o stock entrou num período prolongado de baixa produtividade a partir dos anos 2000. O mesmo documento refere ainda que a mortalidade por pesca atingiu níveis incompatíveis com a recuperação da biomassa e que foi necessário impor períodos de defeso prolongados e limites rigorosos às capturas para inverter a tendência.
Também várias organizações não-governamentais alertaram para o problema, como sublinhava um artigo publicado em 2019 pela organização internacional de conservação marinha Oceana, fundada nos Estados Unidos e dedicada à proteção dos oceanos através de investigação científica e da defesa de políticas de proteção marinha, ao recordar que a sardinha ibérica se encontrava abaixo dos limites biológicos de segurança desde 2009.
Segundo várias ONGs, a sardinha ibérica encontra-se abaixo dos limites biológicos de segurança desde 2009.
Contudo, os próprios cientistas sublinham que a pesca não explica tudo. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), organismo público português responsável pela investigação marinha e monitorização dos recursos pesqueiros, tem defendido que a dinâmica da sardinha resulta da interação entre a atividade pesqueira e fatores ambientais. Na informação disponibilizada no seu site, este instituto refere que o stock ibérico atravessa períodos de maior e menor produtividade associados também ao sucesso do recrutamento, isto é, à sobrevivência dos juvenis que entram na população adulta.
Esta questão é particularmente importante porque a sardinha é uma espécie muito dependente das condições oceanográficas. A temperatura da água, a disponibilidade de plâncton e a intensidade dos fenómenos de afloramento costeiro influenciam diretamente a sobrevivência das larvas e dos juvenis. O próprio ICES reconheceu, numa avaliação do stock solicitada por Portugal em 2025, que a população ibérica permanece condicionada por um contexto de produtividade relativamente baixa quando comparado com períodos históricos mais favoráveis.
A sardinha é uma espécie muito dependente das condições oceanográficas, que influenciam diretamente a sobrevivência das larvas e dos juvenis da espécie.
Nos últimos anos, vários trabalhos científicos têm igualmente relacionado a evolução da sardinha ibérica com alterações climáticas e mudanças nos ecossistemas marinhos, devido ao facto da espécie ocupar uma posição central na cadeia alimentar, servindo de alimento a aves marinhas, mamíferos marinhos e espécies comerciais de maior dimensão. Esta importância ecológica é destacada por um projeto científico apoiado pelo Marine Stewardship Council (MSC), organização internacional sem fins lucrativos sediada no Reino Unido e dedicada à promoção da pesca sustentável, que classifica a sardinha como uma espécie-chave dos ecossistemas marinhos ibéricos.
Assim, quando se pergunta se a sobrepesca é a principal ameaça à sardinha portuguesa, a resposta mais rigorosa é que foi uma das principais ameaças e continua a ser um risco relevante, mas já não pode ser considerada a única explicação nem, necessariamente, a mais importante para o futuro da espécie. Os dados disponíveis mostram que as restrições impostas desde meados da década passada contribuíram para a recuperação do stock, demonstrando que a pressão pesqueira pode ser controlada através da gestão. Em contrapartida, fatores ambientais como a temperatura do oceano, a produtividade biológica e os efeitos das alterações climáticas são muito mais difíceis de prever ou corrigir.
A sobrevivência desta espécie já não depende apenas de sabermos quantos peixes são capturados, mas também e cada vez mais, da capacidade do ecossistema marinho continuar a produzir novas gerações de sardinha num oceano em rápida transformação.