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Miguel Judas

A reciclagem das baterias pode reduzir a dependência europeia de minerais críticos?

27 Sep 2026 - 10:00
As baterias são essenciais para os veículos elétricos e o armazenamento de energia, mas a Europa continua fortemente dependente do exterior para obter vários dos minerais necessários ao seu fabrico. Perante uma procura que deverá crescer nas próximas décadas, a reciclagem surge como uma possível fonte doméstica de matérias-primas. Mas será suficiente para reduzir significativamente essa dependência?
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A transição energética está a transformar minerais como o lítio, o níquel, o cobalto e o cobre em recursos estratégicos. São necessários para fabricar baterias de veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia, num mercado cuja expansão deverá aumentar substancialmente a procura de matérias-primas. O problema para a União Europeia é que uma parte importante dessas cadeias de abastecimento se encontra fora das suas fronteiras.

A dependência não se limita à extração, pois o processamento dos minerais e a produção dos materiais utilizados nas baterias também estão geograficamente concentrados. Como a própria Agência Internacional de Energia (IEA) assinala no relatório Global Critical Minerals Outlook 2026, a China representa mais de três quartos da capacidade mundial de pré-tratamento de baterias para reciclagem e cerca de 90% da capacidade de recuperação dos respetivos materiais.

É neste contexto que uma bateria usada deixa de ser apenas um resíduo. O lítio, níquel, cobalto ou cobre que contém podem ser recuperados e regressar à cadeia produtiva, criando uma fonte secundária de matérias-primas dentro das próprias economias consumidoras.

Até ao final de 2027, os processos de reciclagem na União Europeia deverão conseguir recuperar pelo menos 90% do cobalto, cobre, chumbo e níquel e 50% do lítio presentes nos resíduos tratados.

A União Europeia pretende acelerar este processo. O Regulamento Europeu relativo às Baterias e Respetivos Resíduos estabelece regras para todo o ciclo de vida destes produtos e metas específicas para a recuperação dos materiais. Até ao final de 2027, os processos de reciclagem deverão conseguir recuperar pelo menos 90% do cobalto, cobre, chumbo e níquel e 50% do lítio presentes nos resíduos tratados. Em 2031, os valores sobem para 95% nos quatro primeiros materiais e 80% para o lítio.

A Comissão Europeia decidiu, em setembro de 2026, manter estas metas depois de uma avaliação técnica do Centro Comum de Investigação (JRC), o serviço científico da Comissão, ter analisado a evolução das tecnologias, do mercado e da disponibilidade de matérias-primas.

O potencial para diminuir a dependência externa é considerável. Num relatório dedicado à reciclagem dos minerais críticos, a IEA estima que, num cenário de cumprimento dos compromissos climáticos anunciados pelos países, os materiais provenientes de baterias recicladas poderão satisfazer, em 2050, cerca de 30% da procura europeia de lítio e níquel. A proporção é superior à média mundial, estimada em cerca de 20%.

IEA estima que, num cenário de cumprimento dos compromissos climáticos anunciados pelos países, os materiais provenientes de baterias recicladas poderão satisfazer, em 2050, cerca de 30% da procura europeia de lítio e níquel.

A reciclagem apresenta igualmente vantagens ambientais. Segundo a IEA, a produção de minerais reciclados como lítio, níquel e cobalto origina, em média, cerca de 80% menos emissões de gases com efeito de estufa do que a produção dos mesmos materiais a partir da extração mineira. Uma expansão bem-sucedida da reciclagem poderia ainda reduzir, até 2050, a necessidade de desenvolver novas minas em cerca de 40% para cobre e cobalto e 25% para lítio e níquel.

Isso não significa, contudo, que a Europa possa fechar rapidamente o ciclo das baterias. Existe uma limitação física: para reciclar uma bateria é necessário que esta tenha sido, primeiro, produzida e que posteriormente chegue ao fim da vida útil. A procura de minerais está a crescer agora, enquanto grande parte das baterias dos veículos elétricos atualmente em circulação continuará a ser utilizada durante vários anos.

A situação deverá alterar-se progressivamente. Num relatório sobre circularidade das baterias publicado em 2026, a IEA estima que cerca de 1,2 milhões de baterias de veículos elétricos poderão chegar ao fim da vida útil em 2030 e 14 milhões em 2040. Esse fluxo permitirá recuperar quantidades crescentes de materiais já existentes na economia.

Mesmo assim, recuperar os metais não elimina todas as dependências. É necessário recolher e desmontar as baterias, processar os materiais e voltar a transformá-los em componentes adequados ao fabrico de novas células. A China continua a dominar várias destas etapas industriais, pelo que a segurança de abastecimento europeia dependerá também do desenvolvimento de capacidade própria de processamento e fabrico.

Para reciclar uma bateria é necessário que esta tenha sido, primeiro, produzida e que chegue ao fim da vida útil.

A situação atual mostra a distância que ainda falta percorrer. Num relatório especial publicado em 2026 pelo Tribunal de Contas Europeu, instituição independente de auditoria da União Europeia, os dados disponíveis indicavam taxas de reciclagem de 22% para o cobalto e 16% para o níquel, enquanto para o lítio a taxa considerada era ainda de 0%. Estes valores abrangem os materiais na economia europeia em geral e não apenas as baterias, mas ilustram a diferença entre o potencial da circularidade e a realidade atual.

A resposta à pergunta é, portanto, sim: a reciclagem das baterias pode reduzir significativamente a dependência europeia de minerais críticos. Ao recuperar lítio, níquel, cobalto e outros materiais já presentes na economia, diminui a quantidade que terá de ser obtida através de novas minas ou importações e cria uma fonte doméstica de abastecimento.

Mas reduzir a dependência não significa alcançar autossuficiência. Nas próximas décadas, o crescimento da procura continuará a exigir matérias-primas primárias e importações. A reciclagem pode tornar-se uma componente importante da segurança europeia de matérias-primas, mas terá de ser acompanhada pela diversificação dos fornecedores e pelo desenvolvimento de capacidade industrial dentro da própria Europa.