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Teresa Lencastre

A maioria dos países tem boa qualidade do ar?

4 May 2025 - 09:00
A esmagadora maioria da população mundial respira ar poluído. A conclusão é de um novo relatório que alerta que mais de 90% dos países não cumprem as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a qualidade do ar. Estima-se que a poluição do ar cause perto de 5,7 milhões de mortes por ano. Em Portugal, nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, a situação também preocupa.
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A OMS define valores máximos para vários poluentes que afetam diretamente a saúde humana. Entre eles estão as partículas finas em suspensão no ar – as chamadas PM2.5 e PM10 – que, por serem inaladas, podem atingir os pulmões e provocar doenças graves, como problemas respiratórios, acidentes vasculares cerebrais e cancro.

Também o dióxido de azoto (NO₂), associado ao tráfego automóvel e à atividade industrial, o monóxido de carbono (CO), resultante sobretudo da combustão incompleta, e o ozono ao nível do solo (O₃), que se forma com o calor e a poluição, têm limites definidos devido aos seus efeitos nocivos, nomeadamente sobre o sistema cardiovascular e respiratório.

Para avaliar o cumprimento dessas diretrizes, a empresa suíça IQAir, especializada em sistemas de qualidade do ar, analisou dados de partículas finas PM2.5 recolhidos em quase nove mil localidades, distribuídas por 138 países. Os resultados constam do seu World Air Quality Report 2024, que se centra exclusivamente neste tipo de poluente, considerado um dos mais prejudiciais para a saúde. A concentração média anual de PM2.5 foi usada como referência, tendo como limite o valor recomendado pela OMS de 5 microgramas por metro cúbico.

Apenas sete países conseguiram manter-se dentro desse valor: Austrália, Bahamas, Barbados, Estónia, Grenada, Islândia e Nova Zelândia. No resto do mundo, 91% dos países avaliados ultrapassaram os níveis considerados seguros.

“A poluição do ar continua a ser uma ameaça crítica tanto para a saúde humana como para a estabilidade ambiental, mas vastas populações permanecem alheias aos níveis de exposição a que estão sujeitas”, afirma Frank Hammes, CEO da IQAir, em comunicado.

91% dos países avaliados no World Air Quality Report 2024, um estudo realizado pela empresa suíça IQAir, ultrapassaram os níveis considerados seguros.

Entre os países mais poluídos em 2024 estão o Chade, o Bangladesh, o Paquistão, a República Democrática do Congo e a Índia. No Chade, por exemplo, a concentração média de PM2.5 no ar é 18 vezes superior ao valor recomendado pela OMS, segundo o relatório. A cidade mais poluída do mundo é Byrnihat, na Índia. No lado oposto, Mayaguez, em Porto Rico, regista o ar mais limpo do planeta.

Portugal também surge entre os países com níveis de poluição acima dos recomendados – e não é só o relatório da IQAir que o aponta. Num estudo publicado em fevereiro na Scientific Reports, o investigador Ediclê Duarte analisou dados entre 2011 e 2020 e concluiu que as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto “apresentaram níveis médios anuais de PM10 e NO₂ acima dos valores recomendados pela OMS”.

“Portugal tem uma posição relativamente favorável em comparação com muitos países, especialmente fora dos centros urbanos”, admite o especialista. “No entanto, nas grandes cidades como Lisboa e Porto, a situação é mais crítica, principalmente devido às emissões veiculares, que continuam a ser a principal fonte de poluição atmosférica.”

O investigador alerta para os efeitos na saúde, em especial na mortalidade. “Certos poluentes atmosféricos estão associados a aumentos significativos na mortalidade por doenças do coração e dos pulmões, especialmente durante os meses mais frios”, afirma. No Porto, dá conta de “uma tendência estatisticamente significativa de aumento da mortalidade” entre 2011 e 2020.  “[É] algo que nos preocupa especialmente pelo seu impacto sobre populações urbanas vulneráveis.”

Apesar da situação favorável de Portugal, em Lisboa e no Porto “a situação é mais crítica” devido às emissões dos veículos automóveis.

Ediclê Duarte alerta ainda para o impacto das alterações climáticas na poluição do ar. Fenómenos como ondas de calor, incêndios florestais e transporte de poeiras do Saara estão a tornar-se mais frequentes e intensos, agravando o problema.

Perante isto, o investigador defende “políticas públicas mais direcionadas à redução da poluição atmosférica, com foco não apenas em picos diários, mas também em padrões mensais”. Entre as medidas que propõe estão planos regionais mais eficazes, melhor transporte público, restrições ao tráfego e mais vegetação nas cidades.

Também os cidadãos têm um papel importante. “Cada pessoa pode contribuir reduzindo o uso do carro particular, optando por meios de transporte sustentáveis”, sugere. “Evitar a queima de resíduos e reduzir o uso de lenha em dias frios (…) também faz diferença, especialmente no inverno.”

Um relatório recente do Banco Mundial estima que a poluição do ar seja responsável por 5,7 milhões de mortes por ano, sobretudo por doenças respiratórias e cardiovasculares.

Além da IQAir, outras organizações têm alertado para este problema. Num relatório recente, o Banco Mundial estima que a poluição do ar seja responsável por 5,7 milhões de mortes por ano, sobretudo por doenças respiratórias e cardiovasculares. Além disso, provoca perdas económicas equivalentes a cerca de 5% do PIB global, devido a impactos na saúde, produtividade e esperança média de vida. A OMS, por sua vez, tem dito frequentemente que 99% da população mundial respira ar poluído.

Entretanto, a monitorização global da qualidade do ar perdeu recentemente uma ferramenta importante. Um programa dos Estados Unidos que fornecia dados a partir de sensores em embaixadas e consulados foi suspenso, “devido a restrições de financiamento”.

“Vai ter um impacto significativo em África, porque, muitas vezes, estas são as únicas fontes de dados de monitorização da qualidade do ar em tempo real disponíveis ao público”, avisa Christi Chester-Schroeder, da IQAir, citada pela Reuters.

O corte orçamental, noticiado pela primeira vez pelo New York Times, é um dos muitos a ocorrer sob a presidência de Donald Trump, cuja administração tem vindo a desprivilegiar iniciativas ambientais e climáticas.