voltar

Miguel Judas

A maior parte do desperdício alimentar acontece nos supermercados?

1 Mar 2026 - 10:00
A ideia de que a maior parte do desperdício alimentar acontece nos supermercados está profundamente enraizada no imaginário público, alimentada por imagens de produtos descartados em lojas ou armazéns. No entanto, os dados científicos e estatísticos disponíveis na União Europeia e em Portugal mostram uma realidade distinta desta perceção.
falso

A principal referência estatística europeia sobre esta temática é o sistema de monitorização do desperdício alimentar do Eurostat, o gabinete oficial de estatísticas da União Europeia. Segundo esta base de dados, em 2022 os agregados familiares foram responsáveis por 53% do desperdício alimentar total na UE, enquanto o comércio a retalho (que inclui supermercados) representou apenas cerca 8%.

O próprio Eurostat esclarece que “os agregados familiares geram mais de metade do desperdício alimentar total na UE”, uma conclusão que contraria a perceção de que a maior parte do problema ocorre na fase de venda ao consumidor. A distribuição do desperdício ao longo da cadeia alimentar mostra que, depois das casas (53%), surgem a transformação industrial (19%), a restauração (10%), a produção primária (10%) e só depois o retalho (8%).

Esta tendência é consistente com as avaliações globais da UNEP, o Programa das Nações Unidas para o Ambiente. Segundo o relatório Food Waste Index 2024, o desperdício doméstico domina o total mundial, com “os agregados familiares a representarem a maior parte do desperdício alimentar em quase todas as regiões”. De acordo com o estudo e em média global, cerca de 60 % do desperdício ocorre em casa, com o retalho a representar uma parcela muito menor.

Segundo o Eurostat, os agregados familiares são responsáveis por 53% do desperdício alimentar na UE.

Em Portugal, os dados disponíveis seguem o mesmo padrão. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, a estimativa de desperdício alimentar total ascendia, em 2023, a cerca de 1,93 milhões de toneladas anuais em todo o território nacional, sendo a maior parte igualmente gerada no consumo final doméstico, com 1,29 mil milhões de toneladas.

A razão para esta discrepância entre perceção pública e dados estatísticos prende-se com vários fatores comportamentais e estruturais. Nos supermercados, as perdas alimentares de facto existem (por exemplo, produtos fora de prazo ou danificados), mas são relativamente limitadas devido a sistemas de gestão de stocks, descontos de fim de validade e doação alimentar. Já no contexto doméstico, o desperdício resulta sobretudo de compras excessivas, má gestão de alimentos perecíveis, confusão entre datas de validade e de consumo preferencial e sobras não consumidas.

A Comissão Europeia sublinha igualmente em orientações oficiais que o desperdício doméstico está fortemente ligado a comportamentos de consumo. Em documentos sobre prevenção do desperdício alimentar, a Comissão observa que “o desperdício alimentar ao nível do consumidor é impulsionado por hábitos de compra, planeamento insuficiente e compreensão limitada das datas de rotulagem”.

 

Apesar dos supermercados influenciarem os padrões de consumo, os dados mostram que a maior parte do desperdício ocorre após a compra.

Isto não significa que o retalho alimentar não tenha responsabilidade, pois os supermercados influenciam padrões de consumo através de promoções, calibres estéticos e embalagens. No entanto, os dados mostram que, em termos quantitativos, a maior parte do desperdício ocorre após a compra. Ou seja, mesmo que todo o desperdício do retalho fosse eliminado, a maioria do problema persistiria no consumo doméstico.

Assim, a afirmação de que “a maior parte do desperdício alimentar acontece nos supermercados” não é sustentada pelos dados disponíveis, que convergem numa conclusão clara: o principal local de desperdício alimentar é o agregado familiar. A perceção pública tende a sobrevalorizar perdas visíveis no retalho, mas a evidência científica indica que o combate ao desperdício depende sobretudo de mudanças nos comportamentos, seja no momento da compra, no armazenamento e no consumo em casa.