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Miguel Judas

A Europa está a aquecer mais depressa do que o resto do mundo?

5 Jul 2026 - 10:00
As sucessivas ondas de calor que têm atingido a Europa voltaram a colocar as alterações climáticas no centro do debate público. Entre temperaturas recorde, secas prolongadas e incêndios florestais, multiplicam-se as afirmações sobre a forma como o continente está a responder ao aquecimento global. Mas haverá fundamento científico para dizer que a Europa aquece mais depressa do que o resto do mundo ou trata-se apenas de uma perceção alimentada pelos fenómenos extremos dos últimos anos?
verdadeiro

A principal fonte para esta avaliação é o relatório sobre o Estado do Clima Europeu 2024, produzido pelo Copernicus, o serviço científico da União Europeia operado pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo, uma organização intergovernamental sediada no Reino Unido, em colaboração com a Organização Meteorológica Mundial, a agência das Nações Unidas responsável pela coordenação internacional de dados meteorológicos e climáticos. Este relatório afirma que, “desde a década de 1980, a Europa tem aquecido duas vezes mais depressa do que a média global, tornando-se o continente que aquece mais rapidamente no planeta”.

Esta conclusão é reforçada pelo próprio Copernicus numa análise técnica sobre por que razão a Europa aquece tão depressa. Segundo esse documento, a Europa já aqueceu cerca de 2,5 °C face aos níveis pré-industriais, enquanto o aquecimento global médio se situa em torno de 1,4 °C. A diferença não significa que as alterações climáticas atuem de forma isolada sobre a Europa, mas sim que o aquecimento global se manifesta de forma desigual no planeta.

Desde a década de 1980, a Europa tem aquecido duas vezes mais depressa do que a média global, tornando-se o continente que aquece mais rapidamente no planeta.

Uma das razões é geográfica, pois como a Europa tem uma elevada proporção de território continental, a terra aquece mais depressa do que os oceanos. O Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas, organismo científico das Nações Unidas que sintetiza o conhecimento climático global, explica no sexto relatório de avaliação que “as áreas terrestres aquecem mais rapidamente do que a superfície dos oceanos”. Como a Europa é maioritariamente composta por massa terrestre, responde mais rapidamente ao aumento das concentrações de gases com efeito de estufa.

Outro fator é a proximidade ao Ártico, a região do planeta que aquece mais depressa. O IPCC refere que “o Ártico aquece mais do que outras regiões” e o Copernicus sublinha que partes do norte da Europa estão diretamente expostas a esta amplificação polar. A diminuição da neve e do gelo reduz o albedo, isto é, a capacidade da superfície refletir radiação solar. Com menos neve, mais energia é absorvida pelo solo e pela vegetação, intensificando o aquecimento.

Há ainda um fator menos intuitivo: a melhoria da qualidade do ar. Durante décadas, a poluição atmosférica por aerossóis refletiu parte da radiação solar, exercendo um efeito temporário de arrefecimento. Com a redução dessas partículas na Europa, resultado de políticas ambientais e de controlo da poluição, esse efeito diminuiu. O Copernicus identifica a “redução da poluição atmosférica” como um dos fatores que contribuem para o aquecimento mais rápido do continente. Isto não significa que a poluição fosse benéfica, mas mostra que a atmosfera europeia mais limpa deixou de mascarar parcialmente o aquecimento provocado pelos gases com efeito de estufa.

A diminuição da neve e do gelo também reduz a capacidade da superfície refletir a radiação solar.

A Agência Europeia do Ambiente, organismo público da União Europeia responsável por monitorizar o estado do ambiente europeu, também confirma esta tendência no indicador Global and European temperatures, ao mostrar que as temperaturas europeias têm aumentado mais rapidamente do que a média mundial, com os anos mais recentes a concentrarem muitos dos maiores desvios térmicos registados no continente.

Importa, contudo, evitar uma leitura simplista, uma vez que a Europa não aquece de forma uniforme. O relatório do Copernicus indica que o aquecimento é mais rápido em algumas zonas do leste e centro da Europa e no Ártico europeu, enquanto outras regiões apresentam variações diferentes. Além disso, o aquecimento médio anual não se traduz sempre da mesma forma: pode manifestar-se em ondas de calor mais frequentes, noites tropicais, secas, perda de neve, recuo dos glaciares ou aumento da temperatura do mar.

 

Segundo a Agência Europeia do Ambiente, as temperaturas europeias têm aumentado mais rapidamente do que a média mundial, com os anos mais recentes a concentrarem muitos dos maiores desvios térmicos registados no continente.

A afirmação de que “a Europa está a aquecer mais depressa do que o resto do mundo” é portanto verdadeira. Os dados oficiais do Copernicus, da Organização Meteorológica Mundial, da Agência Europeia do Ambiente e do IPCC convergem na mesma conclusão: desde a década de 1980, o continente europeu aquece a uma velocidade superior ao dobro da média global. A explicação resulta de uma combinação de fatores físicos e geográficos, incluindo a predominância de massa terrestre, a influência do Ártico, a diminuição da cobertura de neve, alterações na circulação atmosférica e a redução dos aerossóis.

Conclui-se assim que a Europa não é apenas uma região afetada pelas alterações climáticas, sendo também uma das zonas do mundo onde o aquecimento se manifesta de forma mais acelerada e visível. As ondas de calor atuais devem ser entendidas nesse contexto mais amplo: não são apenas episódios isolados, mas antes sinais de uma tendência climática já bem documentada pela ciência.