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Miguel Judas

A energia nuclear é mais perigosa que as outras fontes de energia?

29 Mar 2026 - 10:00
A perceção pública sobre a energia nuclear tende muitas vezes a centrar‑se nos acidentes graves de Chernobyl e Fukushima, alimentando a ideia de que a energia nuclear é intrinsecamente mais perigosa do que outras formas de produção de energia. Porém, ao comparar os riscos associados a diferentes fontes de energia com medidas normalizadas por unidade de eletricidade produzida, a avaliação científica fornece outra perspetiva.
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Um dos indicadores amplamente utilizados para comparar a segurança de diferentes tecnologias é o número de mortes atribuíveis por unidade de energia gerada, normalmente expresso em mortes por terawatt-hora (TWh) de eletricidade produzida. Segundo os dados compilados e divulgados pela plataforma Our World in Data, que agrega evidência de estudos científicos e relatórios históricos sobre mortalidade e riscos de diversas fontes energéticas, a energia nuclear tem uma taxa de mortes por TWh muito inferior à associada aos combustíveis fósseis.

A análise mostra que fontes como carvão e petróleo podem causar dezenas de mortes por TWh, enquanto a energia nuclear se situa na casa dos centésimos de mortes por TWh, um valor comparável ou inferior ao de muitas renováveis. Estes valores consideram acidentes, doenças associadas à poluição do ar e outros riscos ao longo do ciclo de vida das tecnologias, e são um método padronizado para comparação global de segurança entre fontes.

Ainda segundo a Our World in Data, “a energia nuclear resulta em cerca de 99,9 % menos mortes do que o carvão, 99,8 % menos do que o petróleo e 97,6 % menos do que o gás natural” em termos de energia produzida, o que indica um impacto mais reduzido sobre a saúde humana em comparação com os combustíveis fósseis, geradores de grandes quantidades de poluição atmosférica.

segundo a Our World in Data, “a energia nuclear resulta em cerca de 99,9 % menos mortes do que o carvão, 99,8 % menos do que o petróleo e 97,6 % menos do que o gás natural” em termos de energia produzida.

Uma síntese dos dados históricos sugere que, mesmo incluindo acidentes graves, a taxa de mortalidade da energia nuclear por TWh produzido está frequentemente listada na faixa muito baixa, por exemplo abaixo de 0,1 mortes por TWh, enquanto carvão e petróleo dominam os valores mais altos com dezenas de mortes por TWh.

Estes números não ignoram completamente os acidentes nucleares. Eles incorporam dados de eventos como Chernobyl, na União Soviética, em 1986, que resultou em dezenas de mortes imediatas e milhares de casos de cancro da tiroide associáveis a exposição radioativa em crianças, e Fukushima, Japão, em 2011, onde as consequências diretas da radiação foram consideradas limitadas após estudos de agências como o Comité Científico das Nações Unidas sobre os Efeitos das Radiações Atómicas (UNSCEAR), que concluiu que casos de doença atribuíveis diretamente à radiação não foram claramente identificados.

Importa também considerar riscos e impactos indiretos. A poluição atmosférica resultante da queima de combustíveis fósseis é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos maiores fatores de risco ambiental para a saúde humana, relacionada com doenças respiratórias e cardiovasculares que matam milhões de pessoas todos os anos. A energia nuclear, em contraste, não produz emissões de poluentes atmosféricos no processo de geração de eletricidade, como afirma um artigo da Escola de Clima da Universidade de Columbia, nos EUA.

Ocorrido em 1986, o acidenta na central nuclear de Chernobyl, na antiga União Soviética, foi o mais grave da história, com consequências que perduram até hoje.

No entanto, a discussão não se esgota em taxas de mortalidade por TWh. Existem outros riscos e preocupações associados à energia nuclear, como a gestão a longo prazo de resíduos radioativos, a necessidade de segurança rigorosa e os custos elevados de construção e desmantelamento das centrais. Estes fatores influenciam perceções e decisões políticas, mas não se traduzem diretamente em fatalidades por unidade de energia produzida – o critério usado nas comparações globais de segurança.

Em suma, a afirmação de que “a energia nuclear é mais perigosa do que outras fontes de energia” não se sustenta quando comparada com dados normalizados por energia produzida. Segundo estimativas reconhecidas por fontes como o Our World in Data e análises comparativas globais, a energia nuclear está entre as formas de geração de eletricidade com menor taxa de mortes por unidade de energia produzida, muito abaixo das fontes fósseis tradicionais e comparável às energias renováveis em termos de mortalidade direta associada à produção.

Isto significa que, em termos de riscos para a saúde humana por unidade de eletricidade gerada, a energia nuclear não é intrinsecamente a opção mais perigosa e, pelo contrário, até pode ser considerada uma das mais seguras.