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Bernardo Simões de Almeida

A Carne criada em laboratório é uma opção sustentável e nutritiva?

9 Mar 2024 - 09:00
Sendo o consumo da proteína animal cada vez mais uma preocupação, tanto a nível da sustentabilidade ambiental como nutricional, a carne criada em laboratório – ou cultivada, como também é conhecida – tem ganho algum destaque como uma solução tão nutritiva quanto ecológica. Mas será mesmo assim?
impreciso

Segundo a agência FAO (Food and Agriculture Organization), as práticas derivadas do consumo de carne são responsáveis por mais de sete giga-toneladas do carbono emitido globalmente, o que se traduz em cerca de 14% do total de emissões produzidas a cada ano.

Porém, o consumo de carne, leite e ovos fornece cerca de 34% de toda a proteína ingerida pelo Homem. Tal significa, segundo a ONG americana Human Society, que “cerca de 92,2 biliões de animais são criados, mantidos e abatidos, anualmente, para saciar o consumo humano.

De acordo um estudo publicado na Spring Nature, o consumo regular de carne tem também consequências para a saúde humana, especialmente se esta for processada. Segundo os investigadores, que trabalharam com uma amostra de 475 mil pessoas, “apenas 70g de carne vermelha não processada aumenta o risco de diabetes em cerca de 30%”. De acordo com as mesmas conclusões, o consumo de carne está também relacionado com “o aumento do tecido adiposo, a obesidade e doença do refluxo gastroesofágico”.

Não é assim de estranhar que, nos últimos anos, a carne criada em laboratório, ou cultivada, nome pelo qual é mais conhecida, tenha ganho algum destaque como solução, tanto para as necessidades nutricionais de uma população em constante crescimento como em termos de pegada ecológica.

A carne cultivada é produzida através da extração de células-tronco retiradas dos músculos de animais diversos. Posteriormente, já no laboratório, estas células são cultivadas de modo a formarem um produto similar à carne tradicional.

A carne cultivada é produzida através da extração de células-tronco retiradas dos músculos de animais diversos.

São várias as vantagens da produção desta proteína, como a eliminação do abate de animais ou as más condições em que são mantidos. Com a eliminação do abate, também o uso de solo e da massa terrestre diminuiria drasticamente, o que resultaria na mitigação da desflorestação e das emissões carbónicas. Finalmente, o uso de água potável também diminuiria, uma vez que seriam necessários menos animais para se produzir carne cultivada.

Rafael Pinto, policy manager do European Vegetarian Union considera portanto a produção de carne cultivada como uma alternativa viável: “O desenvolvimento de carne cultivada é uma das oportunidades mais significativas para reduzir o impacto climático e ecológico da alimentação, além de contribuir para o bem-estar animal”.

E embora lembre que “opções vegetais tradicionais como as leguminosas tenham menor impacto ambiental, a carne cultivada produzida com energia renovável pode reduzir drasticamente as emissões e o uso de água, quando comparada com a carne tradicional”.

Além disso, defende, “reduz significativamente a área agrícola necessária, disponibilizando terrenos para a biodiversidade, restauro da natureza ou produção de outras culturas que contribuem para a soberania alimentar”.

Ou seja, “não só é vantajosa para o ambiente e para os animais, como também cria novos empregos verdes e abre novas possibilidades de desenvolvimento económico.”

As células extraídas são cultivadas em laboratório de modo a formarem um produto similar à carne tradicional.

Porém, o processo de cultivo desta proteína também não será isento de pegada carbónica. Um estudo, efetuado em abril do ano passado, por investigadores da Universidade da Califórnia mas ainda a carecer de peer-review, incidiu sobre o uso de energia e emissões carbónica durante o ciclo de vida da carne cultivada e demonstrou como as técnicas utilizadas para a multiplicação das células-tronco são similares às que as empresas de biotecnologia usam para a criação de produtos farmacêuticos.

A análise concluiu ainda que a contribuição de um 1 kg desta proteína para o aquecimento global é potencialmente 25 vezes maior do que a mesma quantidade de carne tradicional.

Em declarações à imprensa americana, Edward Spang, um dos autores do estudo, disse que “será possível reduzir o impacto ambiental da carne cultivada num futuro próximo, mas, para isso acontecer, é necessário um avanço tecnológico significativo”.

Um outro estudo, publicado em 2021 pela consultora ambiental holandesa CE Delit, conclui que a carne cultivada poderá ter “um impacto ambiental significativamente menor que a produção tradicional”, mas, para isso acontecer, “terá de ser produzida em larga escala e o consumo energético necessário terá de ser suportado em pelo menos 30% com o recurso a energias renováveis”.

Se estas premissas forem postas em prática, a pegada ambiental da carne cultivada será quatro vezes mais baixa do que a pegada que a carne tradicional produz.

 

A nutrucionista Isanete Alonso recorda que existem “outros alimentos ricos em proteínas vegetais que aportam perfis de aminoácidos excelentes e podem ser combinados de forma complementar”, como alternativa à carne.

Também a capacidade nutritiva gera algumas dúvidas, igualmente relacionadas com o processo de cultivo. Isanete Alonso, nutricionista doutorada em Ciências e Tecnologias da Saúde pela Universidade de Lisboa, considera que a engenharia reversa utilizada na produção da carne cultivada “é um método com riscos de contaminação patogénica”.

”A carne cultivada poderá ser produzida com matéria-prima de procedência duvidosa e com níveis importantes de contaminantes, uma vez que é necessária uma grande quantidade de matéria-prima, como vitaminas, minerais e sintéticos, não isentas de contaminação”, diz a nutricionista, ainda pouco convencida pela carne cultivada.

Isanete Alonso considera ser mais necessária “uma reflexão profunda” no que concerne ao atual alto consumo de carnes. “Se partirmos do princípio que 100 gramas de carne verdadeira nos aportam 20 gramas de proteína e necessitamos aproximadamente de apenas 1 grama por kg de peso corporal, seria muito mais fácil gerir esta situação com um consumo mais comedido”, defende, lembrando a existência de “outros alimentos ricos em proteínas vegetais que aportam perfis de aminoácidos excelentes e podem ser combinados de forma complementar”.

Um sentimento igualmente partilhado por Rafael Pinto que também apela a um menor consumo de carne: “é preciso relembrar que esta solução deve ser acompanhada por uma maior transição para dietas de base vegetal, as quais não só têm um menor impacto ambiental como melhoram a nossa saúde.”

Em última análise, será sempre a aceitação – e procura – por parte do consumidor, que ditará o sucesso ou falhanço desta proteína alternativa.