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Miguel Judas

A areia das praias portuguesas está mesmo a desaparecer?

19 Jul 2026 - 10:00
A cada verão, a redução do areal nalgumas praias portuguesas alimenta a sensação de que a areia está a desaparecer. Nuns locais, o mar aproxima-se de passadiços e habitações; noutros, o areal recupera parte da largura perdida durante o inverno. Esta alternância pode criar perceções contraditórias. Afinal, Portugal está realmente a perder areia ou trata-se apenas do funcionamento natural de um litoral em permanente transformação?
impreciso

A resposta a esta questão exige distinguir variações sazonais da erosão costeira de longo prazo. Durante o inverno, as ondas de maior energia transportam areia da praia emersa para zonas submersas, formando bancos arenosos que podem regressar à costa nos meses seguintes. Uma praia estreita depois de uma tempestade não está, por isso, necessariamente a desaparecer. O problema surge quando o volume de sedimentos removido deixa de ser compensado e a linha de costa recua de forma persistente ao longo de décadas.

É isso que estará a acontecer em vários troços do litoral português. Segundo a Agência Portuguesa para o Ambiente (APA), cerca de 50% dos 425 quilómetros de litoral baixo e arenoso de Portugal continental apresenta uma tendência erosiva de longo prazo, tendo como referência o período entre 1958 e 2023. De acordo com os números do organismo público responsável pela execução das políticas nacionais de ambiente, recursos hídricos e proteção costeira a entidade, o país perdeu aproximadamente 13,8 quilómetros quadrados de território costeiro, equivalentes a 1380 hectares, durante essas seis décadas e meia.

Segundo a Agência Portuguesa para o Ambiente (APA), cerca de 50% dos 425 quilómetros de litoral baixo e arenoso de Portugal continental apresenta uma tendência erosiva de longo prazo.

Os valores médios escondem no entanto grandes diferenças regionais. A APA identifica uma tendência erosiva instalada, com alguma aceleração recente, nos troços entre Ofir e Cedovém, Cortegaça e Furadouro e Cova-Gala e Costa de Lavos. Entre Cortegaça e o Furadouro, por exemplo, uma atualização produzida através do programa COSMO classificou 83% dos oito quilómetros analisados como estando em erosão entre 2018 e 2021. Já entre a Barra e o norte da Praia de Mira, 77% do troço foi considerado estável ou em acumulação de sedimentos. A areia não está, portanto, a desaparecer de todas as praias à mesma velocidade, nem sequer em todas elas.

O Programa COSMO, criado pela APA para monitorizar a faixa costeira continental, recorre a levantamentos topográficos terrestres e aéreos, medições hidrográficas e cartografia de diferentes épocas. Esta observação permite separar mudanças temporárias de tendências prolongadas e mostra que falar genericamente no desaparecimento das praias portuguesas simplifica uma realidade marcada por avanços e recuos distintos.

Até porque a falta de areia não resulta apenas da ação do mar. O Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), identifiou já em 2008 a redução do fornecimento de sedimentos pelos rios como uma das causas centrais da erosão costeira. Ou seja, as barragens retêm areia e outros materiais que, em condições naturais, seriam transportados até aos estuários e redistribuídos ao longo da costa. Como descreveram os investigadores desta instituição pública portuguesa de investigação aplicada nos domínios da engenharia civil, ambiente, hidráulica e ordenamento do território, “as barragens retêm os sedimentos, reduzindo a sua afluência à zona costeira e potenciando os problemas de erosão costeira”.

A extração histórica de areias nos rios e estuários, as dragagens, a expansão dos portos e a construção de esporões e paredões também alteraram o transporte natural dos sedimentos. Estas estruturas podem proteger uma povoação ou aumentar a praia de um lado, mas bloquear a areia que seguiria para os troços localizados a jusante da corrente costeira. O resultado pode ser apenas uma transferência do problema, pois estabiliza-se uma área e agrava-se a erosão noutra.

As barragens retêm areia e outros materiais que, em condições naturais, seriam transportados até aos estuários e redistribuídos ao longo da costa.

Uma investigação sobre a evolução da costa arenosa portuguesa ao longo dos últimos 50 anos, publicada por investigadores do Instituto Dom Luiz, um Laboratório Associado sediado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), identificou uma tendência erosiva média de cerca de 24 centímetros por ano nos sistemas praia-duna analisados. O estudo apresenta a primeira avaliação sistemática, consistente e à escala nacional da evolução da linha de costa baixa e arenosa de Portugal continental. Os autores observam, contudo, que a intensidade da erosão varia significativamente entre diferentes troços costeiros, coexistindo zonas em recuo com outras relativamente estáveis ou mesmo em acreção.

E à pressão criada pela falta de sedimentos junta-se também a subida do nível médio do mar. O próprio Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), considera altamente provável o aumento da erosão das costas arenosas em muitas regiões europeias, como é sublinhado no capítulo dedicado à Europa do sexto relatório de avaliação, no qual os especialistas afirmam que “os níveis extremos da água, as inundações costeiras e o recuo das linhas de costa arenosas deverão aumentar ao longo de muitas costas europeias”.

Apesar da subida do mar não retirar areia de forma uniforme nem explicar, por si só, toda a erosão já observada, torna, porém, mais fácil às ondas atingirem zonas elevadas da praia e agrava os efeitos das tempestades, sobretudo onde já existe um défice sedimentar. A combinação entre menos areia proveniente dos rios, ocupação humana da faixa costeira e alterações climáticas acaba assim por aumentar a vulnerabilidade de vários troços da costa portuguesa.

Operações de alimentação artificial das praias como a já realizada na Costa de Caparica permitem alargar temporariamente o areal, reforçar dunas e proteger pessoas, edifícios e infraestruturas.

Para contrariar essa perda, Portugal tem recorrido à alimentação artificial das praias, transferindo areia de fundos marinhos, canais de navegação ou zonas de acumulação para áreas em erosão. A APA considera mesmo esta intervenção uma das principais medidas nacionais de adaptação costeira. Operações como as já realizadas na Costa de Caparica (Almada) ou na Cova-Gala (Figueira da Foz) permitem alargar temporariamente o areal, reforçar dunas e proteger pessoas, edifícios e infraestruturas. Não eliminam, contudo, as causas do défice sedimentar e poderão ter de ser repetidas ao longo do tempo.

Perante a evidência disponível, a afirmação de que “a areia da praia está a desaparecer” é só parcialmente verdadeira. Portugal continental perdeu uma área significativa de costa arenosa desde meados do século XX, e metade do seu litoral baixo e arenoso revela uma tendência erosiva prolongada. Isso não significa que todas as praias estejam a encolher, nem que cada redução observada depois do inverno seja permanente. Algumas mantêm-se estáveis e outras acumulam sedimentos. O problema concentra-se em troços concretos, sobretudo no litoral ocidental, onde a escassez de areia, as intervenções humanas e a subida do nível do mar estão a provocar um recuo persistente da linha de costa.