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Miguel Judas

2025 foi o ano mais quente de sempre?

21 Dec 2025 - 10:00
Nos últimos anos, as alterações climáticas têm estado no centro do debate público e científico, com cada novo recorde de temperatura global a gerar preocupação e análises detalhadas. Neste final de 2025, a pergunta que se impõe é se, segundo a evidência científica disponível, este ano foi realmente o mais quente de sempre.
impreciso

De acordo com o último relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) relativo ao Estado do Clima Global, com dados de 2024, conforma-se que o ano passado foi de facto o mais quente desde o início dos registos instrumentais modernos, iniciados há cerca de 175 anos. Segundo o documento, a temperatura média global em 2024 foi cerca de 1,55 °C superior à média do período pré-industrial (1850-1900), ultrapassando o recorde anterior estabelecido em 2023.

No mesmo relatório, a OMM esclarece que esta conclusão resulta da análise combinada de seis grandes conjuntos de dados globais de temperatura, provenientes de instituições científicas públicas, incluindo a NASA e a NOAA, dos Estados Unidos, bem como o Met Office do Reino Unido. “Cada um destes conjuntos de dados confirma que 2024 foi o ano mais quente alguma vez registado, com uma margem clara face aos anos anteriores”, afirma o documento, sublinhando que as diferenças excedem as incertezas estatísticas conhecidas.

Para avaliar o lugar de 2025 na sequência dos anos mais quentes, é necessário recorrer a dados provisórios e a análises intermédias, uma vez que a confirmação oficial de recordes anuais só ocorre após a consolidação de todos os dados mensais.

Para avaliar o lugar de 2025 nesta sequência, é necessário recorrer a dados provisórios e a análises intermédias, uma vez que a confirmação oficial de recordes anuais só ocorre após a consolidação de todos os dados mensais. Um contributo central para essa avaliação vem do Copernicus, um serviço científico da União Europeia coordenado pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo. O Copernicus utiliza o conjunto de reanálises ERA5, que combina observações de satélite, estações terrestres, bóias oceânicas e modelos físicos para produzir estimativas globais consistentes da temperatura.

De acordo com os boletins climáticos mensais publicados ao longo de 2025 pelo Copernicus Climate Change Service, acessíveis no site desta entidade, vários meses deste ano registaram temperaturas excecionalmente elevadas. Em particular, alguns períodos de doze meses consecutivos que incluem parte de 2024 e 2025 ultrapassaram temporariamente a marca de 1,5 °C acima da média pré-industrial. O serviço Copernicus afirma ainda num dos seus comunicados científicos, que “as temperaturas globais recentes permanecem próximas dos máximos históricos, refletindo uma tendência de aquecimento contínuo impulsionada pelas concentrações recorde de gases com efeito de estufa”.

Contudo, os próprios dados do Copernicus indicam que, quando considerado o ano civil completo, 2025 não superou de forma inequívoca o valor médio anual registado em 2024. Em vários boletins técnicos, o Copernicus esclarece que as diferenças entre os anos mais quentes são pequenas e que a classificação final depende da consolidação e avaliação de todas as observações.

O verdadeiro facto verificável é que a última década consolidou-se como a mais quente desde que há registos.

Esta cautela metodológica é consistente com as práticas científicas igualmente adotadas pela OMM, que num relatório de previsão climática a curto prazo, indica que existe uma elevada probabilidade de que pelo menos um dos anos até 2029 venha a ultrapassar o recorde de 2024, evitando no entanto afirmar que tal já tenha acontecido em 2025. Segundo esta organização, “os valores projetados situam-se muito próximos dos recordes recentes, mas a variabilidade natural anual continua a desempenhar um papel relevante”.

Assim, a afirmação de que 2025 foi realmente o ano mais quente de sempre não é confirmada pelos relatórios oficiais e científicos atualmente disponíveis. Os dados mostram no entanto e de forma consistente, que 2025 se insere num grupo muito restrito de anos extremamente quentes, provavelmente ocupando o segundo ou terceiro lugar na hierarquia histórica, mas sem ultrapassar claramente o recorde estabelecido em 2024.

Ou seja, a narrativa de que 2025 terá sido o ano mais quente de sempre simplifica excessivamente um quadro científico mais complexo. Os dados oficiais confirmam uma tendência inequívoca de aquecimento global acelerado, com sucessivos recordes nos últimos anos, mas não sustentam, até ao momento, a ideia de que 2025 tenha superado de forma conclusiva todos os anos anteriores.

Aliás, o verdadeiro facto verdadeiramente verificável é que a última década consolidou-se como a mais quente desde que há registos, aproximando perigosamente o planeta dos limites de aquecimento definidos pela comunidade científica internacional.